quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Banda: Fantômas; Álbum: Fantômas


Banda: Fantômas
Álbum: Fantômas (ou Amenaza al Mundo)
Ano: 1999
Gênero: Metal Avant-Garde

Já que o assunto do post anterior foi o Lovage - e Mike Patton participou do Lovage - vamos falar de Fantômas. Ficou sem entender? Calma, vou esclarecer.

Mike Patton ficou mundialmente famoso por ter sido vocalista da grande e extinta banda Faith No More. Grandes sucessos como Epic, Falling To Pieces e Midlife Crisis foram gravados com Patton no microfone. Porém, não é todo mundo que sabe que, além do Faith No More, o versátil vocalista era integrante da fantástica Mr. Bungle (que com certeza será tema de, pelo menos, dois posts) e viria a criar diversos projetos (ou participar, como foi o caso do Lovage).

Um desses projetos é o Fantômas, com circunflexo mesmo (nome de um anti-herói de uma série francesa pré-primeira guerra mundial). Criado em 1999 (um ano após o fim do Faith No More), a banda conta com músicos extraordinários. Além de Patton (vocalista incrível), temos Buzz Osborne (do Melvins) na guitarra, Trevor Dunn (que já foi do Mr. Bungle e é extremamente ativo no cenário jazz da costa oeste dos Estados Unidos) no baixo e o monstro sagrado da bateria Dave Lombardo, do Slayer.

O primeiro disco da banda (e não só o primeiro, diga-se de passagem), homônimo, é um choque. A começar pelo tracklist. Ei-lo:

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Exatamente. Trinta faixas, cada uma representando uma página de um livro. Segundo o site oficial, o objetivo deste álbum é homenagear os filmes e livros de ficção científica. E é nessa hora que alguém desavisado pode perguntar "interessante, isso pode ser percebido nas letras?". E quando ouve a resposta "não, o álbum não tem nenhuma letra", faz uma cara de surpresa e pensa consigo mesmo "então porque tem um vocalista?".

A resposta vem logo na primeira música, a página um. Um som gutural extremamente grave junto com o baixo pesadíssimo de Dunn. Na seqüência, diversos pratos e chimbaus são acionados por cerca de 45 segundos, dando lugar a uma seqüência de notas extremamente pesadas para, no fim, dar lugar ao gutural e baixo do começo. E acabou a página um, depois de um minuto e trinta e quatro segundos.

Muitos param de ouvir a banda aí. "Isso não é música" é o mais comum, seguido de "mas os caras fizeram qualquer coisa e gravaram" e "que bosta". E eu defendo com ferocidade: é música sim. Apenas não é linear como 99,99% das bandas.

Fantômas nos apresenta uma nova dimensão dentro do conceito de música. Ouvir a página 12, por exemplo, nos oferece berros insanos de Patton, juntamente com a perfeita técnica e sincronia dos músicos. Na mesma música, temos teclados incrivelmente sombrios e vocalizações tétricas. Ainda na mesma música, temos microfonia e pedal duplo, que logo voltam a dar lugar às vocalizações. Tudo isso em menos de dois minutos.

Todas as músicas deste álbum são fragmentadas. Patton se transforma em um instrumento absurdamente versátil, e não um vocalista que canta uma letra com a música servindo de "acompanhamento". Ele se transforma em parte da música, não mais ou menos importante. Além de tudo, a precisão da banda impressiona. Prá quem fala que "eles fizeram qualquer coisa e gravaram", só posso dizer que ver aquilo ao vivo e totalmente fiel à versão de estúdio é a maior prova de que nada no Fantômas é por acaso.

É notável a influência do metal dentro do Fantômas - não poderia deixar de ser assim com Dave Lombardo na bateria. Mas existem outros ingredientes, como trilhas sonoras de filmes (que seria o tema principal do álbum The Director's Cut, lançado em 2001) e de desenhos animados (tema principal do Suspended Animation, de 2005).

Se você for ouvir este álbum, prepare-se: você não vai mais ver música da mesma maneira. É como se fosse um cubismo do século XXI ou algo assim. Indispensável.

Eis as páginas de 1 a 5 executadas ao vivo pelo Fantômas:

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