quarta-feira, 1 de abril de 2009

Banda: Locomotiv GT; Álbum: Locomotiv GT

Quando falamos de rock set(ss)entista, principalmente de hard rock ou progressivo, quase sempre citamos as mesmas bandas: Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, AC/DC, Aerosmith. Enfim, bandas do eixo EUA - Reino Unido, passando no máximo por outros países de língua inglesa como a Austrália (no caso do AC/DC) e Canadá (casa do Rush, Heart, entre outros) ou por bandas de outros países que cantavam em inglês, como os alemães do Scorpions. Mas também existia rock em outras línguas. Até em húngaro.

"Húngaro?", você pode estar se perguntando. Sim, húngaro. A língua que Chico Buarque descreve como "a única língua que o diabo respeita" em seu livro Budapeste.

E é de Budapeste que vem o Locomotiv GT, banda de hard rock formada em 1971 por músicos já consagrados dentro da Hungria: Gábor Presser (teclados e vocal), József Laux (bateria), Károly Frenreisz (baixo) e Tamás Barta (guitarra). A esposa de Presser, Anna Adamis, colaborava com as letras.

O que pude observar sobre a biografia da banda no site oficial é que o sucesso do Locomotiv GT se deu principalmente nos países socialistas, onde eram autorizados a tocar. Tocaram até em Cuba, e curiosamente a maior base de fãs do LGT é polonesa. Mais até que em sua terra natal. Mas, apesar disso, trabalharam com o produtor dos Rolling Stones, Jimmy Miller, que editou material da banda nos EUA e Londres. Porém, mesmo tendo gravado em inglês posteriormente, eles nunca realmente deslancharam por lá, como era de se esperar em um mundo dividido como era nos anos 70.

Esse "fracasso" quase levou o Locomotiv GT a encerrar suas atividades em 1977, mas a mudança constante de membros fez com que a banda fosse se renovando e mantendo o fôlego. Em 1992 a banda acabou, mas voltaram cinco anos depois e estão na ativa até hoje.

Nesta resenha falarei sobre o primeiro disco da banda, intitulado simplesmente de Locomotiv GT.

O debut foi lançado no ano da fundação da banda, 1971, e fugia bastante dos padrões da cena húngara da época., pois era muito influenciado pelos músicos americanos e ingleses que os rapazes do LGT admiravam. O resultado disso é um álbum interessantíssimo, que mescla hard rock com blues e um je ne sais quoi que torna o som dos húngaros distinto das demais bandas do gênero. Além, claro, da língua.

Abaixo, um rápido vídeo de uma mulher falando em húngaro:



Se você conseguir imaginar essa língua soando bem em um hard rock antes de escutar o Locomotiv GT, parabéns. Mas realmente acho bem difícil alguém conseguir.

Mas voltando ao debut do LGT, a primeira faixa é a profunda Egy Dal Azokért, Akik Nincsenek Itt. É uma quase balada que intercala trechos falados com cantados, tudo isso coroado a um instrumental impecável, com solos de flauta e sintetizadores.

A Napba Öltözött Lány é completamente diferente. É um rock mais direto, cru, apesar das harmonias vocais. Tem um ritmo marcante e solos extensos de teclado e guitarra. Essa, aliás, é uma das principais características desse disco: a improvisação. Temos ótimos músicos aqui.

A Kötéltáncos Álma é uma balada melancólica, com um clima meio Clube da Esquina, se a comparação não for muito inadequada. Talvez porque um dos riffs que a guitarra toca lembra bastante um interlúdio de Gran Circo, de Milton Nascimento (música do álbum Minas, que já foi resenhado aqui). Belíssima.

Depois da calmaria vem a pauleira de A Tengelykezu Félember. Trata-se de um hard rock bem ledzeppeliano, com slide e riffs marcantes. Uma forte candidata a melhor do disco, tanto pelos riffs quanto pelo solo destruidor de Tamás Barta.

Hej, Én Szólok Hozzád é outra pancada, com algumas quebras bem inesperadas, saxofone e uma levada à lá Fifty-Fifty, do Zappa - não apenas pelo ritmo, mas pelos vocais fortes. Mais uma vez Tamás Barta mostra a que veio - é um grande guitarrista.

Talvez a música mais "comercial" do disco seja Ezüst Nyár, que traz um refrão marcante com direito a "na, nana na, nana na" (com certeza a única parte do disco em que qualquer um de nós canta junto). Interessante o uso da percussão nesta faixa, de uma maneira totalmente diferente do tradicional no hard rock.

Ordító Arcok é uma das mais interessantes do disco, trazendo um ritmo truncado e swingado ao mesmo tempo. Além disso, traz harmonias em 6ª, um tipo de combinação muito pouco usada no estilo. Muito boa.

A influência do jazz no som do Locomotiv GT fica clara em Sose Mondd A Mamának. A versatilidade dos músicos, se não estava clara até agora, transborda nesta música. Voz impecável, baixo impecável, bateria impecável, guitarra impecável.

Nem Nekem Való é um ponto que considero negativo em relação ao resto do disco. Apesar do riff interessante, não traz nada de novo e talvez pudesse ter uma bateria mais elaborada. Pode pular essa.

A saideira é Royal Blues (Gipszeld Be A Kezed). Mais uma muito ledzeppeliana, lembra um pouco a última faixa do Led Zeppelin III, Hats Off To (Roy) Harper, com aqueles slides frenéticos e vocais berrados. Mas esta traz um saxofone e, quando tudo parece acabar, temos mais um minuto de rock and roll de lambuja.

É um grande disco, apesar de ser em uma língua totalmente estranha e jamais ter tocado (e provavelmente nunca tocará) numa rádio brasileira.

Recomendadíssimo.

Tracklist:

1. Egy Dal Azokért, Akik Nincsenek Itt
2. A Napba Öltözött Lány
3. A Kötéltáncos Álma
4. A Tengelykezu Félember
5. Hej, Én Szólok Hozzád
6. Ezüst Nyár
7. Ordító Arcok
8. Sose Mondd A Mamának
9. Nem Nekem Való
10. Royal Blues (Gipszeld Be A Kezed)

Abaixo, a faixa A Tengelykezu Félember:

quarta-feira, 25 de março de 2009

Banda: Banda do Casaco; Álbum: Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios

Durante uma conversa com um amigo, ambos nos indignamos com o fato de conhecermos tão pouco sobre a música lusitana. Claro, todos ouvimos falar do fado, e todos ouvimos falar de Roberto Leal (e da impagável paródia que os Mamonas Assassinas fizeram no Vira). O fado, os lusitanos que me perdoem, me soa um pouco enfadonho, se me permitem o trocadilho; pessoalmente, não me atrai a música de Roberto Leal. Mas a minha visão sobre a música portuguesa mudou completamente ao escutar o primeiro disco da Banda do Casaco.

Não sei dizer com certeza como nunca ouvi falar sobre eles antes, mas imagino que pouca gente no Brasil os conheça. Terá sido nossa ditadura, que mal deixava nossos artistas se expressarem, quanto mais que os lusitanos, falando a "mesma" língua? Não sabemos, mas no mesmo ano da Revolução dos Cravos (1974) nasceu seu primeiro disco, Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios.

Antes de falar desse debut maravilhoso, é importante falar um pouco sobre a banda, já que aqui no Brasil eles são praticamente anônimos. A origem da Banda do Casaco está ligada ao fim de outro grupo, o projeto Filarmônica Fraude. Este projeto chegou a lançar um LP chamado Epopéia, tido como um dos principais discos de música portuguesa do século XX devido ao seu caráter inovador, que misturava música tradicional portuguesa com outros elementos, como o pop e o rock britânico. Os membros principais da Filarmônica Fraude eram Antônio Pinho, letrista, e Luís Linhares, arranjador e principal compositor.

Quatro anos após o fim súbito da Filarmônica após um ano de atividade (1969), Pinho e Linhares se uniram ao guitarrista Nuno Rodrigues, escolado em gêneros como o jazz, e juntos começaram a compôr material para o que seria a Banda do Casaco. Pinho compôs as letras e Rodrigues as melodias e arranjos. E não eram quaisquer letras ou quaisquer arranjos, e isso ficou muito claro em Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios.

A faixa de abertura é Aliciação - Espírito Imundo, e o começo poderia, talvez, estar em um disco dos Mutantes ou dos Secos e Molhados. Uma percussão constante contrasta com cellos e violinos, dando a impressão de algo grandioso e exótico ao mesmo tempo. Eis que uma voz tenebrosa sussurra: "Quem és tu que me abraças, agora que o sono me empurra com suas mãos negras e quentes? Quem és tu que me agarras? Te exconjuro!". Eis que, quase de repente, um coral feminino faz uma intervenção e dá lugar a um suave piano e à voz de Nuno Rodrigues, e conforme a música se desenvolve nos surpreendemos com um coral cantando "espírito imundo" na melodia de "aleluia". "Quem és tu que me beijas e faz sentir um frio dos infernos?"

Apenas pela faixa de abertura já é possível perceber o quão teatrais são as composições da Banda do Casaco. Isso sem falar na gritante influência da música tradicional portuguesa, e isso podemos afirmar sem conhecê-la. Na segunda faixa, D'Alma Aviada, há diversas características medievalescas, tanto pelos instrumentos quanto pela melodia.

Ladainha das Comadres tem um ritmo frenético, muito marcado pela percussão e pelo ritmo do canto das mulheres, além, novamente, de diversas características medievais, como o uso da flauta.

Uma das melhores faixas do disco é A Cavalo Dado. Diversas viagens musicais aqui, passando de uma parte a outra sem aviso algum. Além disso estão aqui os trocadilhos das letras de Pinho, uma de suas características mais marcantes. "Imperador... a tua imperatriz é por um triz que não se diz ser meretriz... e merecia!".

Cada faixa é uma viagem rica e elaborada, com letras muito bem trabalhadas e instrumentos muito bem executados. Outro destaque do álbum, por exemplo, é Cocktail do Braço de Prata, que tem um quê de jazz misturado com folk, com direito a compassos quebrados e mudanças de ritmo que até Deus duvida.

Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios não é apenas um álbum que merece ser ouvido, mas uma importante referência no que diz respeito à maravilhosa música que o mundo produziu nos anos 70.

Recomendadíssimo.

Tracklist:

1. Aliciação - Espírito Imundo
2. D'Alma Aviada
3. A Ladainha das Comadres
4. A Cavalo Dado
5. Henrique Ser ou Não Henriquecer
6. Bonifácios
7. Lavados, Lavados Sim
8. Cocktail dos Braços de Prata
9. Na Boca do Inferno
10. Horas de Ponta e Mola
11. Memorando
12. Opúsculo

Ouça, abaixo, a música A Cavalo Dado:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Artista: Arnaldo Baptista; Álbum: Lóki?

Vou resistir à tentação pungente de usar uma frase proclamada por bocas de inúmeros roqueiros brasileiros: se você não conhece Os Mutantes você não sabe nada do rock and roll. Eu mesmo usei um eufemismo desta frase em outro lugar desse blog. Desta vez vou apenas me permitir dizer que, ao conhecê-los, você verá o rock brasileiro com outros olhos.

Ao resenhar o Jardim Elétrico, dos Mutantes, lançado em 1971, falei rapidamente sobre a trajetória da banda até o lançamento do referido disco. O que aconteceu depois, porém, é fruto de muita discussão e controvérsia. São fatos confirmados por uns, desmentidos por outros, mas o inegável é que, após o lançamento do quinto disco de estúdio em 1972 (o ótimo Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets), Rita Lee foi chutada da banda e os irmãos Baptista, juntamente com Liminha e Dinho Leme, gravaram o disco O A e o Z. O novo material trazia uma banda quase irreconhecível, mostrando um som muito próximo do rock progressivo. Músicas longuíssimas, como a faixa título e Hey Joe (não é uma versão do clássico do Hendrix). Trocando em miúdos: era um disco com seis faixas e incríveis 48 minutos de duração. O disco anterior, com suas 10 músicas, não passava dos 45. A gravadora vetou o lançamento do disco, e os Mutantes foram parar na rua.

Paralelamente a isso, Arnaldo Baptista se mostrava cada vez mais difícil e inacessível, figurativamente falando. Todos usavam drogas, mas Arnaldo passava dos limites e constantemente apresentava mudanças súbitas de humor e comportamento imprevisível. Além disso, o final do casamento com Rita Lee, mulher por quem era perdidamente apaixonado, contribuiu imensamente para o quadro psicológico desesperador do músico. Todos esses fatores resultaram em sua saída da banda após um ensaio no qual ficou o tempo todo brincando de fazer combinações diferentes com as letras de seu nome. Depois disso, os Mutantes passariam por diversas formações diferentes e se desviariam cada vez mais de sua proposta inicial, perdendo cada vez mais fãs.

Arnaldo, por sua vez, resolveu seguir uma carreira solo e, um ano depois, lançou o disco aqui resenhado: Lóki?.

Rotular esse registro apenas como música estranha e boa é minimizar sua amplitude. Não
é apenas mais um disco de rock and roll. É um grito desesperado de um jovem genial de 25 anos que, quase ao mesmo tempo, perdeu tudo o que havia sido mais importante em sua vida: sua banda e sua mulher. Além disso, o disco carece da marca registrada de 99,99% dos discos de rock: a guitarra. Não há uma nota sequer tocada por uma guitarra elétrica. O mais próximo disso é uma faixa de menos de dois minutos tocada no violão.

O disco já começou controverso. Arnaldo não gostou nem um pouco da capa, que ficou muito aquém do que ele esperava e queria. Além disso, a banda que o acompanhou no estúdio insistiu para que alguns pequenos erros fossem corrigidos. Arnaldo disse não, e olha que a banda era formada por seus ex-companheiros de Mutantes, Dinho Leme (bateria) e Liminha (baixo). O resultado foi um disco que soa cru, apesar de contar com alguns poucos arranjos de cordas e harmonias vocais.

A faixa de abertura, Será Que Eu Vou Virar Bolor?, é praticamente uma auto análise. "Hoje eu percebi que venho me apegando às coisas materiais que me dão prazer". Uma frase pouco musical para abrir um disco, que em poucos instantes dá lugar ao desabafo de alguém que sente que as mudanças que ocorrem ao seu redor não estão lhe agradando. "Não gosto do pessoal da NASA. Cadê meu disco voador?", pergunta.

Uma Pessoa Só já havia sido gravada pelos Mutantes no A e o Z, mas como o disco só veria a luz do dia nos anos 90, ela era inédita ao público aqui. Uma letra belíssima, praticamente religiosa, com o refrão "Estamos numa boa pescando pessoas no mar, aqui, numa pessoa só". Rogério Duprat colaborou nesta com um arranjo de cordas.

Não Estou Nem Aí é uma luz otimista, onde um Arnaldo carpe diem canta sobre sua vontade de viver a vida ao máximo. "Não tô nem aí pra morte / Não tô nem aí pra sorte / Eu quero mais é decolar toda manhã". Rita Lee participa desta música fazendo backing vocal nos refrões, e mais uma vez Duprat colabora com orquestrações. É um dos pontos altos do disco, tanto em qualidade musical quanto em astral.

Vou Me Afundar Na Lingerie é uma mistura de idéias sobre um pano musical que remete às antigas músicas guiadas por piano. A letra faz diversas viagens, desde "Quem já dançou sempre tem medo dos homens" a "Hey, cuidado que cavalo não desce escada". Bem Arnaldo.

Após a intervenção instrumental de Honky Tonky, temos a genial Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?, uma bossa-rock com uma letra autobiográfica e um suinge sensacional. Cheia de referências ao passado e até à própria Rita Lee ("Cilibrina pra cá / Cilibrina pra lá"), que integrava a dupla Cilibrinas do Éden com Lúcia Turnbull na época.

Desculpe é uma canção de amor cheia de feeling, com os vocais de Arnaldo lembrando de leve a grande It's Very Nice Pra Xuxu, dos Mutantes. Claro que uma canção de amor desse cara não é como as outras, e é uma das mais emocionantes do disco, principalmente se levarmos em conta o quanto Arnaldo estava triste pelo fim do relacionamento com Rita.

Navegar De Novo é não apenas uma das mais incríveis do disco, como uma das mais tocantes músicas já gravadas por Arnaldo, contando com seu trabalho nos Mutantes. A faixa conta apenas com o próprio Arnaldo e seu piano, cantando sobre sua esperança no futuro do país de um jeito muito peculiar. A letra fala sobre como o Brasil está se tornando consumista, e que esse não é o caminho. Qual outra canção sobre o Brasil falaria "Por que não se instalam núcleos habitacionais menores para haver maior descentralização"?

Te Amo Podes Crer é uma declaração de amor incrível, e mais uma vez a letra se destaca. "É muito triste pensar em você como quem não vive depois da morte". Após aproximadamente 50 segundos, o canto melancólico dá lugar a uma passagem instrumental rock and roll, que logo é interrompida para que Arnaldo volte aos seus devaneios.

E assim segue a música até o fim do disco, a rápida É Fácil, tocada no violão, com a letra curtíssima "Eu me amo como eu amo você. É fácil." É impressionante como Arnaldo domina o instrumento, mesmo não sendo o seu principal. E assim termina Lóki?, um dos discos mais importantes do rock nacional.

Recomendadíssimo.

Eis o tracklist:
1. Será Que Eu Vou Virar Bolor?
2. Uma Pessoa Só
3. Não Estou Nem Aí
4. Vou Me Afundar Na Lingerie
5. Honky Tonky
6. Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki?
7. Desculpe
8. Navegar De Novo
9. Te Amo Podes Crer
10. É Fácil

Abaixo, escute Navegar de Novo:

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Banda: Daft Punk; Álbum: Discovery

É engraçado como na maioria das vezes em que rompemos com algum preconceito, trazemos à tona novidades (pelo menos para nós) cativantes e enriquecedoras. É assim com tudo, e principalmente com a música.

Se eu mantivesse até hoje a minha visão e gosto sobre música que tinha aos 14 anos, este blog jamais existiria e, se eu um dia viesse a ter um blog, seria apenas sobre heavy metal e abordaria bandas como Iron Maiden e Metallica. Não que eu tenha deixado de gostar destas bandas - amo as duas - mas tenho a convicção de que conhecer o universo musical que entrei em contato nos anos pós-adolescência fez uma diferença imensa em minha vida, inclusive e principalmente na extra-musical.

Sempre torci o nariz para música eletrônica, e certamente muita gente ainda o faz. Como diz aquela música das Velhas Virgens, Geração Putz Putz, achava que o "DJ só aperta o play". Mas correr atrás de artistas de música eletrônica de diversos estilos diferentes, como Infected Mushroom, Björk, Massive Attack e Lovage, me fez ver que é um estilo que pode ser extremamente rico e bem trabalhado.

O Daft Punk é uma "faca de dois gumes" dentro do estilo, pois de vez em quando consegue algum destaque da mídia brasileira e outras vezes fica apenas no circuito do house. O maior sucesso já obtido pela banda foi justamente a faixa de abertura deste disco, a música One More Time. A faixa tocou à exaustão nas rádios e nas baladas brasileiras na época em que o disco foi lançado (2001) e seu clip conquistou as paradas da MTV Brasil.

A "banda", se é que pode ser chamada assim, teve seu embrião formado em 1992, na França, quando os dois componentes, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, formaram com Laurent Brancowitz a banda Darlin'. Após o fim da banda, os Bangalter e Homem-Christo começaram a fazer experimentações com sintetizadores e sequencers e formaram o Daft Punk. Passaram a tocar em raves e, em 1997, lançaram seu primeiro álbum entitulado Homework. Em 16 faixas, a dupla faz um som relativamente tradicional para o estilo, muito influenciado por techno, com músicas que poderiam ser executadas em qualquer rave.

Em 2001, porém, a banda lançou o disco abordado nesta resenha, e é justamente aquele que traz One More Time como faixa de abertura: Discovery. Os motivos pelos quais incluo o disco na categoria que dá título ao blog (sim, música estranha e boa) é puramente pessoal, já que meu conhecimento a respeito de música eletrônica é muito pequeno para afirmar se o disco é pioneiro ou revolucionário: o uso inteligentíssimo de samples, as referências musicais e a visão e criatividade intermináveis destes dois amigos franceses.

Pra quem não sabe, "sample" é um pedaço de uma música que é utilizada como um instrumento em outra. É muito utilizado, principalmente na música eletrônica e no hip-hop, mas a técnica data dos anos 60. Os próprios Beatles utilizaram alguns samples em músicas como I Am The Walrus e Revolution #9.

Discovery tem um clima muito peculiar devido ao número de samples decorrentes de músicas dos anos 70 e 80, dando ao disco um tom de reciclagem inteligente, de atualização de alguns estilos já datados (lembrando que ser datado não torna algo menor).

One More Time, por exemplo, é um house marcante e muito peculiar, trazendo loops que em quase nada remetem à música da qual foi sampleada: More Spell On You, do cantor Eddie Johns. No vídeo abaixo, um DJ ensina a "criar" One More Time a partir de More Spell On You:


A genialidade da dupla em pegar esta pequena porção de uma música e transformá-la em outra foi o que mais me chamou a atenção de início. É necessário um ouvido muito bom para perceber uma música em potencial dentro de outra, e é exatamente isso que o Daft Punk fez nessa música e em alguns outros momentos do disco.

A segunda faixa, Aerodynamic, é uma referência clara ao metal, com um extenso solo de guitarra em two hands, uma técnica largamente utilizada por guitarristas do gênero. A faixa seguinte é a bela e quase inocente Digital Love, sampleada da música I Love You More, de George Duke (que, como dito no post anterior, já tocou com Frank Zappa), trazendo uma letra sobre amor platônico e um solo de guitarra destruidor, cheio de elementos eletrônicos. Um dos pontos altos do disco, sem dúvida.

A música seguinte, Harder, Better, Faster, Stronger, é famosa por seu uso do talk box, um instrumento que permite modular o som do instrumento de maneira que pareça que ele literalmente "fale", dando um tom futurista e robótico ao som. A música contem um sample de Cola Bottle Baby, de Edwin Birdsong, e também foi sampleada pelo rapper Kanye West na música Stronger, que fez um sucesso razoável aqui no Brasil. Diversos vídeos trazendo "clips" caseiros feitos por fãs circulam na internet, e muitos deles se tornam grandes hits. É o caso do Daft Hands e do Daft Bodies, cujos vídeos tiveram mais de, respectivamente, 26 e 6 milhões de acessos no YouTube.

Crescendolls, Nightvision, Superheroes e High Life são passagens instrumentais (exceto por poucas linhas vocais em loop) trazendo diversas influências diferentes. Crescendolls e High Life são vibrantes e repetitivas, enquanto Nightvision é um filler melancólico e a ótima Superheroes remete às músicas de videogames do fim dos anos 80 e início dos 90.

Something About Us é uma belíssima canção de amor, com uma letra simples porém sincera. Trata-se de uma declaração de amor na hora da despedida, com versos muito significativos como "It might not be the right time/I might not be the right one/But there's something about us I want to say/Cause there's something between us anyway" (tradução: Esta pode não ser a hora certa/Eu posso não ser a pessoa certa/Mas há algo sobre nós que eu quero dizer/Pois há algo entre nós, afinal"). Muito tocante, principalmente no que diz respeito à parte instrumental.

Voyager traz uma linha de baixo marcante, formando uma mistura com o funk já perceptível em algumas faixas do álbum anterior, Homework. Veridis Quo, por sua vez, é uma faixa melancólica, lenta, marcada pela linha triste do teclado.

O clima do disco fica mais alegre com Short Circuit, que tem a bateria bem forte e chama a atenção pelos teclados bem marcados, pelas notas curtas que quase não têm tempo de fluir. É interessante a mudança que ocorre no meio da música, quando ela parece "entrar debaixo d'água" e ganha um clima viajante, como se estivesse derretendo ou entrando, como diz o nome, em curto circuito.

Face To Face é uma das melhores do disco. Aqui a dupla volta completamente ao house, trazendo um ritmo totalmente dançante e um vocal arrasador de Todd Edwards, um produtor de house relativamente conhecido no meio. A música foi um sucesso nos clubes da Inglaterra e Estados Unidos, chegando a atingir o topo da lista de música eletrônica da Billboard.

A última faixa é Too Long, que tem exatos 10 minutos de duração. Começando com harmonias vocais que remetem ao ano 60 (Too long... too long...), a música vai se construindo aos poucos, e quando parece ter atingido seu ápice se inicia uma "segunda parte", e tudo se constrói de um jeito diferente.

É um ótimo álbum, mas o interessante é que o Daft Punk não se deu por satisfeito e, um ano após o lançamento de Discovery, lançou um filme chamado Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5olar 5ystem. O filme se trata de uma animação produzida em uma parceria do Daft Punk com o estúdio japonês de animação Toei Animation, sob a supervisão de Leiji Matsumoto, um dos pioneiros e principais criadores de animes.

Interstella conta a história de uma banda alienígena que é abduzida de seu planeta de origem por um homem, que muda a aparência deles para que pareçam humanos e apaga suas memórias para que produzam um hit aqui na Terra. A banda é composta por Octave (voz e teclados), Arpegius (guitarra), Stella (baixista) e Baryl (bateria). Um soldado do país de origem da banda, que fica conhecida por Crescendolls na Terra, vem até nosso planeta através de um buraco negro para resgatar os quatro músicos (principalmente Stella, seu grande amor platônico). O que acontece a partir daí vou deixar em aberto para que o leitor descubra vendo o filme.

O interessante é que o filme não traz um diálogo sequer, e o único som, além de uns poucos e esparsos efeitos sonoros, é o Discovery, totalmente sincronizado com a história. É como se o filme fosse um enorme videoclip para o álbum inteiro. Digital Love, por exemplo, é "cantada" pelo soldado enquanto ele fantasia como seria se ele e Stella fossem um casal de namorados; Crescendolls serve de pano de fundo para a ascensão da banda até o estrelato no planeta Terra. E por aí vai. Tudo isso em uma animação incrível, com uma seleção de cores e estilo inteligentíssimos.

Tanto o álbum quanto o filme são recomendadíssimos.

Eis o tracklist:

1. One More Time
2. Aerodynamic
3. Digital Love
4. Harder, Better, Faster, Stronger
5. Crescendolls
6. Nightvision
7. Superheroes
8. High Life
9. Something About Us
10. Voyager
11. Veridis Quo
12. Short Circuit
13. Face To Face
14. Too Long

Abaixo, um vídeo de Harder, Better, Faster, Stronger tirado do filme Interstella 5555.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Artista: Frank Zappa; Álbum: Apostrophe (')

Após um longuíssimo hiato, aqui estamos novamente para falar de mais uma pérola da música dita "estranha e boa". E bota boa nisso.

Frank Vincent Zappa nasceu no dia 21 de dezembro de 1940, nos Estados Unidos. Desde cedo demonstrou grande interesse por música clássica de compositores vanguardistas, como Stravinsky, além de grupos de doo-wop e jazz moderno. Durante os anos 60, montou sua primeira banda, os Mothers Of Invention. O primeiro álbum dos Mothers foi o duplo Freak Out!, de 1966, e é considerado um marco por seu experimentalismo e ousadia. Vale a pena lembrar que foi lançado um ano antes do clássico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e certamente trouxe mais inovações estéticas que o álbum dos Fab Four.

A genialidade de Zappa foi se manifestando com mais força a cada disco, e logo ficou óbvio que os Mothers estavam funcionando apenas como uma banda de apoio que tocava as músicas de Zappa. Os créditos dos álbuns deixavam essa relação explícita, passando a ser lançados como Frank Zappa and the Mothers of Invention ou simplesmente Zappa/Mothers. A banda passou por diversas formações.

Zappa é notório por sua imensa produtividade. Para se ter uma idéia, o álbum que será tratado aqui nesta resenha foi lançado em 1974, oito após o debut, e foi o décimo sétimo (!) a ser lançado pelo guitarrista/cantor/compositor. A discografia completa de Zappa, sem contar os discos póstumos, conta com 57 discos em menos de 30 anos de produtividade.

Voltando ao assunto, o último disco que Zappa lançou com os Mothers foi One Size Fits All, de 1975. Mas alguns discos antes deste trazem apenas seu nome na capa. É o caso de Apostrophe ('), lançado em 1974.

Explicar o estilo de Frank Zappa para alguém que nunca o tenha escutado é uma tarefa muito, muito complicada. Sua música é uma mistura de muitas coisas, passando pelo rock and roll, música clássica, humor, doo wop, blues, a famigerada world music, enfim; é um saco de gato. Suas letras são muito bem humoradas, muitas vezes tolas, ofensivas ou simplesmente sem sentido, trazendo críticas à política, religião, estereótipos e costumes, ou simplesmente contando histórias bizarras.

No caso de Apostrophe ('), as primeiras quatro músicas enganam o ouvinte, pois guiam o álbum a um caminho conceitual que acaba não se desenvolvendo além destas faixas. Em Don't Eat The Yellow Snow, a faixa de abertura, Frank conta sobre um sonho que teve no qual era um esquimó chamado Nanook. Sua mãe o alertava para que não comesse a neve amarela que ficava aonde os huskies iam (watch out where the huskies go/and don't you eat that yellow snow), ou seja, a neve onde os cães urinavam. Tudo isso em uma música esquisita, em um tempo quebrado (7/4).

Eis que em Nanook Rubs It, a segunda faixa, Nanook sai de seu iglu e encontra um comerciante de peles matando sua foca preferida com uma bota cheia de chumbo (with a lead-filled snowshoe). Raivoso, Nanook esfrega a neve amarela nos olhos do comerciante, cegando-o. Eis que o comerciante se lembra de uma lenda que dizia que, caso alguém ficasse cego em decorrência de um ataque de alguém chamado Nanook, deveria buscar auxílio na paróquia de Santo Alfonso (St. Alfonzo).

A música seguinte, que começa com um incrível solo de xilofone da percussionista Ruth Underwood, descreve a paróquia de St. Alfonzo, onde ocorre um desjejum com panquecas e um bingo, e também a presença de uma mulher masoquista.

Eis que Zappa descreve o Padre O'Blivion (que pode ser traduzido como "esquecimento"), um padre que é masturbado por um leprechaun e se torna um maníaco sexual. Eis que, no fim da música, uma tentativa intencionalmente frustrada de retomar o início da história aparece, como se o comerciante de peles fosse o próprio Padre O'Blivion (Good morning, your highness/ooo-ooo/I brought you your snowshoes/ooo-ooo...).

A música seguinte é um dos pontos altos não apenas do disco, mas da carreira de Frank. Cosmik Debris é um blues zappiano que conta a história de um charlatão que tenta convencer o protagonista a comprar "sucatas cósmicas", argumentando que elas farão coisas incríveis, inclusive "curar sua asma". No fim, quem acaba sendo enganado é o charlatão. Destaque para as vozes femininas no refrão.

Excentrifugal Forz se trata de uma música pouco expressiva, com uma letra maluca e sem sentido algum. Apostrophe' é uma faixa instrumental com solos de guitarra extremamente distorcidos. Muda pouco de ritmo, mas é uma grande demonstração de habilidade dos músicos da banda.

A belíssima Uncle Remus, com a marcante introdução ao piano de George Duke, traz uma letra bem zappiana que trata, aparentemente, de racismo. "Não posso esperar até que meu black-power esteja grande/(...) irei derrubar os jóqueis de suas selas" (Can't wait till my fro is full grown/(...) I'll be knocking the jockeys off the lawn). A faixa é deslocada do resto do repertório de Zappa, mas é uma música belíssima.

A faixa de encerramento é Stinkfoot, com uma letra sobre chulé e outras coisas das quais dificilmente alguém além de Frank Zappa retrataria em uma música. A percussão aqui é de grande destaque.

Confesso ao leitor que é difícil precisar quem toca o quê em cada faixa devido à enorme quantidade de músicos envolvidos. Os créditos dos músicos são os seguintes:

Frank Zappa - voz, guitarra, baixo e bouzouki
Lynn – voz, backing vocals
Kerry McNabb – backing vocals
Ian Underwood - saxofone
Ruth Underwood - percussão
Sal Marquez – trompete
Sue Glover – backing vocals
Jim Gordon – bateria
Aynsley Dunbar – bateria
Tom Fowler – baixo
Napoleon Murphy Brock – saxofone, backing vocals
Robert “Frog” Camarena – voz, backing vocals
Ruben Ladron de Guevara – voz, backing vocals
Debbie – voz, backing vocals
Tony Duran – guitarra
Erroneous – baixo
Johnny Guerin – bateria
Don “Sugarcane” Harris – violino
Ralph Humphrey – bateria
Jack Bruce – baixo em “Apostrophe”
George Duke – teclado, backing vocals
Bruce Fowler – trombone
Jean-Luc Ponty – violino

Recomendadíssimo.

Eis o tracklist:

1. Don't Eat The Yellow Snow
2. Nanook Rubs It
3. St. Alfonzo's Pancake Breakfast
4. Father O'Blivion
5. Cosmik Debris
6. Excentrifugal Forz
7. Apostrophe'
8. Uncle Remus
9. Stinkfoot

Abaixo, um vídeo de Cosmik Debris ao vivo em 1974.


sábado, 22 de março de 2008

Artista: Israel Kamakawiwo'ole; Álbum: E Ala E

Depois de dois posts sobre discos de rock, vamos acalmar um pouco nosso espírito, sentar e ouvir Israel Kamakawiwo'ole (esse sobrenome se pronuncia "Kamakavivole") tocar seu ukulele e cantar com sua voz inacreditável.

Israel, também conhecido pelo simpático apelido "Brudda Iz", era um cantor havaiano de quase 1 e 90 de altura e nada menos que 343 kg - ele era morbidamente obeso, e isso causou a sua morte no dia 26 de julho de 1997, aos 38 anos. Além disso, foi um dos músicos havaianos mais influentes de todos os tempos, e sem dúvida o mais famoso fora do Havaí.

O que caracteriza a música de Kamakawiwo'ole como estranha aos nossos ouvidos tão acostumados com as rádios? Diversos fatores. Prá começar, o idioma. Israel cantava em inglês em diversas músicas, mas em muitas outras canta em havaiano. Aliás, ele era defensor ferrenho da independência do Hawaii em relação aos EUA, chegando a gravar o hino da independência do Hawaii como abertura de seu álbum mais famoso (que não é o tratado aqui), Facing Future, foi o único álbum havaiano a atingir disco de platina, vendendo mais de um milhão de cópias. Foi o único civil da história do Havaí a ter luto oficial e bandeira a meio mastro por três dias. Outro motivo: o uso do ukulele, um instrumento que raramente escutamos fora deste estilo musical.

E Ala E foi lançado em 1995, dois anos antes da morte de Iz. Logo na primeira faixa (que dá título ao álbum), ele deixa bem claro a que veio na letra forte que contrasta a melodia suave: We, the warriors, born to live/On what the land and sea can give/Defend our birthright to be free/Give our children liberty (traduzindo: Nós, os guerreiros, nascemos para viver/Naquilo que a terra e o mar podem oferecer/Defendendo nosso direito de nascença de sermos livres/Dando liberdade às nossas crianças). Os sons da multidão ao fundo dão um clima épico à canção, que termina com uma suave cantiga em havaiano.

Após o quase-reggae de Ulili E temos a maravilhosa Kaleohano, extremamente lenta e com um arranjo vocal impecável, inteiramente em havaiano. Eis que o improvável cover de Wind Beneath My Wings, de Bette Midler, rouba a cena mesclado com He Hawai'i Au, e é um dos momentos mais belos de todo o álbum.

A faixa seguinte é uma belíssima homenagem a Chad Haaheo Rowan, Fiumalu Penitani e Saleva'a Fuauli Atisano'e, também conhecidos como Akebono, Musashimaru e Konishiki. São lutadores de sumô nascidos no Havaí e em Samoa e que alcançaram o título de Yokozuna, o maior título possível no esporte. A música se chama Tengoku Kara Kaminari (Thunder From Heaven), e o refrão é simplesmente "Akebono, Musashimaru and Konishiki". Durante a letra, Israel conta a saga desses "gigantes gentis" (apelido do próprio Iz), enfrentando a saudade da família e de casa para se tornarem heróis e ídolos no Japão. Emocionante, para dizer o mínimo.
Outros destaques do disco são a bela Kamalani e a distoante Theme From Gilligan's Island, a versão de Iz para a abertura de um de seus seriados favoritos.

É um ótimo disco, principalmente quando se quer relaxar e se imaginar em uma praia no Havaí.

Recomendadíssimo.

Eis o tracklist:

1. E Ala E
2. Ulili E
3. Kaleohano
4. Wind Beneath My Wings/He Hawai'i Au
5. Tengoku Kara Kaminari (Thunder From Heaven)
6. Kamalani
7. Aloha Ka Manini
8. Maui Medley
9. Hele On To Kauai
10. Kaua'i Beauty
11. Theme From Gilligan's Island
12. I Ke Alo o Iesu
13. A Hawaiian Like Me

Abaixo, um clip de E Ala E:

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Banda: Supercordas; Álbum: Seres Verdes Ao Redor: Música Para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos

Já que falei tanto de rock psicodélico cambojano no post sobre o debut da Dengue Fever, vamos voltar para uma terra mais próxima, conhecida mundialmente como Rio de Janeiro, na nossa pátria amada, Brasil. O assunto ainda é rock psicodélico, mas a banda da vez é o Supercordas.

O Supercordas tem 5 integrantes: Bonifrate (vocal/guitarra), Valentino (vocal/baixo/guitarra), Kauê (baixo/guitarra/vocal), Giraknob (guitarra) e Wakapot (bateria). Segundo o site oficial, a banda foi congelada nos anos 60 para sair das cápsulas no fim do século XX, retomando o "espírito psicodélico da época em que haviam adormecido". Lançaram seu primeiro álbum (A Pior das Alergias) em 2003, seguido por um EP (Satélites no Bar) de 2005 e o álbum resenhado aqui, entitulado "simplesmente" de Seres Verdes Ao Redor: Música Para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos, de 2006.

O clima psicodélico já fica explícito logo na primeira faixa, E o Sol Brilhou Sobre o Verde. A música é praticamente uma seqüência de harmonias vocais misturada a violões de doze cordas e sintetizadores. Então a faixa dá espaço à primeira música com letra do disco, A Charneca. Os ruídos dos sintetizadores continuam, e o estilo do Supercordas é bem explorado: uma letra bucólica e psicodélica, repleta de harmonias vocais e melodias tristonhas e belíssimas. Ruradélica, a faixa que dá seqüência ao disco, é mais animada e tem um belo refrão, que combina perfeitamente com o tema do disco: "Um caldeirão de folhas me faria mais feliz do que esse rio cheio de bolhas e espumas".

O ponto mais alto do disco é, na minha humilde opinião, 3000 Folhas. A letra surrealista misturada à melodia sessentista e ao vocal repleto de ecos parece saído do disco A Gift From A Flower To A Garden, do Donovan. Arrisco-me a dizer que esta música é uma das melhores do rock brasileiro dos últimos 10 anos. "Pelos rios de cá corre o leite/E à tarde sempre chove mel/Mas meus olhos 'inda são de três mil folhas brancas de papel". Belíssima.

Outro destaque do disco é a ótima Sobre o Frio, com seu toque retrô e clima otimista. Frog Rock e a faixa de encerramento, Fotossíntese ("todo ser é planta artificial"), também merecem atenção especial.

Recomendadíssimo.

Tracklist:

1. E o Sol Brilhou Sobre o Verde
2. A Charneca
3. Ruradélica
4. 3000 Folhas
5. Mofo
6. Sobre O Frio
7. Ricochete
8. Musgo
9. Frog Rock
10. Sobre O Calor
11. Mangue
12. Fotossíntese

Abaixo, Mofo e Sobre o Frio ao vivo:



segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Banda: Dengue Fever; Álbum: Dengue Fever

Continuando nossa jornada pelo oriente (pelo amor de deus, que clichê...), vamos falar de uma banda que tem tudo a ver com o Camboja, esse país de quase 15 milhões de habitantes localizado no sudeste asiático. É a Dengue Fever.

Banda de seis integrantes formada em 2001, nos EUA. "Então por que cazzo você falou do Camboja?", você deve estar se perguntando. Simples: a vocalista Chhom Nimol é cambojana e todas as letras da banda são em khmer, língua oficial do Camboja. Além disso, a música da banda tem diversos elementos da música cambojana e seu primeiro CD, que é justamente o deste post, tras alguns covers de música cambojana. Portanto, pode-se considerar o Dengue Fever uma banda americana que toca música cambojana com elementos ocidentais.

Os integrantes do Dengue Fever são a já citada Chhom Nimol (vocalista), Zac Holtzman (guitarra e vocais), Ethan Holtzman (órgão), Senon Williams (baixo), David Ralicke (metais) e Paul Smith (bateria).

O álbum de estréia auto-intitulado foi lançado em 2003, e é um belíssimo debut. Várias músicas do Dengue Fever poderiam estar em filmes do Quentin Tarantino, dando aquele clima retrô tão interessante. É muito difícil listar todas as influências dessa banda, mas temos surf music, música oriental, rock sessentista/setentitsta, jazz, entre muitas outras coisas. São muitas peculiaridades; além da voz aguda na dose certa de Chhom, o órgão é um importante diferencial no som da banda. Uma curiosidade: entre as principais influências da banda estão Os Mutantes.

A faixa de abertura é a ótima Lost In Laos. A introdução marcante, com todos os instrumentos entrando junto e o destaque para o saxofone de Ralicke logo se transforma em uma quase-bossa nova, com a voz de Chhom dando o tempero único da música oriental. A faixa seguinte, I'm Sixteen, tem um tom melancólico apesar do ritmo de surf music; grande parte por conta do órgão de Ethan Holtzman. É interessante a mudança de ritmo no meio da música, principalmente quando a guitarra chorosa recebe o apoio do órgão.

Um dos destaques do disco é a bela Hold My Hips, com belos vocais e um ótimo solo de guitarra. O riff entre os versos fica na cabeça, e o baixo repetitivo lembra muito a fase de transição entre o início e o meio da carreira dos Beatles em músicas como If I Needed Someone e Rain.

Apesar de o disco ser bem linear, seria injusto usar o termo "enjoativo". Outro destaque é o belíssimo cover Ethanopium, originalmente composta pelo músico etíope Mulatu Astatke. É um instrumental com incríveis linhas de trompete e órgão, e novamente o baixo característico citado acima. Não desmerecendo Chhom, mas talvez seja a melhor faixa do disco.

Outros destaques são Glass Of Wine, com os vocais alternados entre Chhom e Zac, a frenética Pow Pow, com um quê de jovem guarda, e New Year's Eve, com os mais que competentes vocais de Chhom.

Recomendadíssimo!

Eis o tracklist:

1. Lost In Laos
2. I'm Sixteen
3. 22 Nights
4. Hold My Hips
5. Flowers
6. Thanks-a-Lot
7. New Year's Eve
8. Ethanopium
9. Glass Of Wine
10. Shave Your Beard
11. Pow Pow
12. Connect Four

Abaixo, um vídeo de I'm Sixteen ao vivo:


sábado, 12 de janeiro de 2008

Banda: Templo Radha-Krsna de Londres; Álbum: Chant And Be Happy!

Antes de tudo gostaria de esclarecer que o rótulo de música "estranha" se aplica a este álbum pelo fato de não ser um estilo difundido e popular entre a maior parte dos ouvintes. Não quero rebaixar o estilo de música, muito menos os mantras ou qualquer elemento ligado ao hinduísmo e suas vertentes.

Falar desse disco sem falar do que o levou a ser gravado seria imprudente, então vamos lá. Em 1966, um homem chamado Bhaktivedanta Swami Prabhupada chegou aos Estados Unidos e fundou a instituição ISKCON (International Society for Krishna Consciousness), que, simplicando muito, teria o objetivo de divulgar alguns ideais do hinduismo para a civilização ocidental - são os famosos "hare krishna". Eis que, em 1969, Bhaktivedanta se encontrou com John Lennon e George Harrison, este buscando a filosofia oriental desde a metade dos anos 60, o que se intensificou com a visita dos Beatles ao guru espiritual Maharishi Mahesh entre 1967 e 1968. George havia produzido os singles Hare Krishna Mantra (com a ajuda de Paul e Linda McCartney e do baterista Ginger Baker) e Govinda na metade de 69 junto com membros do templo Radha-Krishna, de Londres. Após o encontro com Prabhupada, George adotou a filosofia Hare Krishna, em particular o Japa Yoga (um tipo de meditação que funciona quase como o rosário cristão, no qual se ora repetidamente; no caso do Japa Yoga, repete-se os nomes de Deus diversas vezes com o fim de aumentar a consciência do religioso a respeito Dele). Ao escutar Govinda, Prabhupada foi às lágrimas e ordenou que a música fosse tocada toda manhã no templo, e assim é feito até hoje, mesmo trinta anos após a sua morte.

Mas voltando, George iniciou um grande envolvimento com o templo Radha-Krsna de Londres (algo como a "sede" do movimento ISKCON no Reino Unido), e foi questão de tempo para que ele produzisse um álbum completo com os membros do templo. Em 1971 foi lançado o álbum de estúdio do templo Radha-Krsna, e posteriormente este registro ficaria conhecido como Chant And Be Happy!.

Quem é fã dos Beatles e conhece as composições do George já não é 100% leigo no estilo da música indiana. George começou a tocar cítara nas gravações do filme Help! (1965) e, no mesmo ano gravou sua parte em Norwegian Wood com o instrumento no álbum Rubber Soul. No ano seguinte, 1966, teria sua primeira música que seguia o estilo tradicional indiano: Love You To, inteiramente gravada com músicos indianos e com o próprio Harrison; a música é repleta de cítaras, inteiramente em um tom (Dó) e traz um belíssimo solo. A paixão de Harrison pela música oriental se manifestaria até os últimos trabalhos de sua vida. A música Brainwashed, que fecha o disco homônimo e póstumo, termina com uma reza a Shiva, deus hindu da renovação.

Mas voltando ao disco desta resenha, são sete músicas que entoam diversos mantras. A faixa de abertura é justamente a já citada Govinda. Começa com um slide guitar muito sutil, um órgão e bateria bem leve. Eis que a belíssima voz da vocalista começa a entoar a letra, que é repetida através de grande parte da música: Govindam/adi-purusham/tam aham bhajami. Isso significa "Eu louvo Govinda (o ser superior, Deus), o senhor primordial". A melodia vai se repetindo, cada vez mais densa, mais profunda, e é difícil ficar indiferente à canção.

Em seguida temos Sri Guruvastakam. Ao contrário de Govinda, é possível identificá-la como religiosa logo no início. Traz os tradicionais chocalhos, que tocam em um ritmo constante durante o refrão. A música seguinte, Sri Isopanishad, não tem percussão e é guiada, basicamente, pelo violão de George. A voz calma da vocalista e os licks de violão de George são belíssimos.

Bhaja Bhakata/Arati é inteira em um tom só, cantada por dois vocalistas (um homem e uma mulher). Mais uma vez traz os chocalhos, e após os três minutos é acelerada quase de repente, e os duetos ficam mais intensos, sempre sendo seguidos pelo coro dos membros do templo. A música se extende por oito minutos e meio.

Bhajahu Re Bana é a mais monótona do disco, e isso não é pejorativo para uma canção desse tipo. É uma única nota de harmônio (algo como um teclado modificado, muito usado em música indiana) com letras religiosas entoadas pela vocalista. A música tem quase nove minutos, mas passa muito rapidamente quando se escuta prestando atenção nas nuances da voz e da levíssima percussão que surge em determinados instantes.

A próxima é Hare Krishna Mantra, cuja letra é simplesmente Hare Krishna/Hare Krishna/Krishna Krishna/Hare Hare/Hare Rama/Hare Rama/Rama Rama/Hare Hare. Todos os presentes no momento da gravação se juntaram ao coro, e é realmente um dos momentos mais emocionantes do disco, independentemente da crença de quem está escutando. Esse é um dos mantras mais importantes do hinduísmo, e George chegou a usá-lo na famosa My Sweet Lord.

A última música do disco é Govinda Jaya Jaya. A parte instrumental é muito similar à de Bhaja Bhakata/Arati, trazendo a nota de harmônio e os chocalhos. Mas nesta música a vocalista parece está conduzindo a oração. Govinda jaya jaya/Gopala jaya jaya/Radha-ramana hari/Govinda Jaya Jaya - uma música de exaltação a Krishna (também conhecido como Govinda, Gopala e Hari).

A versão em CD traz ainda um diálogo entre Bhaktivedanta, John Lennon, Yoko Ono e George Harrison sobre meditação e mantra. Muito interessante de escutar.

Chant And Be Happy! é, no mínimo, uma experiência interessantíssima para quem nunca escutou músicas desse estilo. São músicas muito profundas e muito diferentes daquelas que a maior parte de nós está acostumado a escutar.

Eis a nota que George Harrison escreveu no encarte do disco (foram mantidos os maísculos originais):
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Todo mundo está procurando por Krishna.
Alguns não percebe que estão, mas estão.
Krishna é DEUS, a Fonte de tudo o que existe, a Causa de tudo o que é, foi ou será.
Como Deus é ilimitado, ELE tem muitos nomes.
Alá, Buda, Jeová, Rama: todos são Krishna, todos são UM.
Deus não é abstrato, ele tem tanto os aspectos impessoais quanto os pessoais de sua personalidade, que é SUPREMA, ETERNA, IMENSAMENTE FELIZ, e repleta de conhecimento. Como uma única gota de água tem as mesmas qualidades de um oceano completo, nossa consciência tem as qualidades da consciência de DEUS... mas durante nossa identificação e apego com a energia material (corpo físico, prazeres sensoriais, posses materiais, ego, etc.) nossa verdadeira CONSCIÊNCIA TRANSCENDENTAL foi poluída e, como um espelho sujo, é incapaz de refletir nossa imagem pura. Com muitas vidas, nossa associação com o temporário aumentou. Este corpo impermanente, um saco de ossos e carne, é inadequado para nossa verdadeira essência, e nós aceitamos como final esta condição temporária.
Por todas as idades, grandes santos permaneceram como provas vivas de que este não-temporário, permanente estado de CONSCIÊNCIA DE DEUS pode ser revivido em todas as almas vivas. Cada alma é potencialmente divina.
Krishna fala no BHAGAVAD GITA: "Firmado no Ser, sendo libertado de toda a contaminação material, o yogi alcança o estado mais avançado da felicidade em contato com a Consciência Suprema. YOGA (um método científico de realização de DEUS (própria)) é o processo pelo qual purificamos nossa consciência, impedimos futuras poluições e chegamos no estado da Perfeição, com SABEDORIA e FELICIDADE plenas.

Se há um Deus, eu quero vê-lo. Não faz sentido acreditar em algo sem prova, e a Consciência de Krishna e a meditação são métodos pelos quais você pode efetivamente obter a percepção de DEUS. Você realmente pode ver DEUS, e ouví-lo, e interagir com ELE. Pode parecer loucura, mas ELE realmente está lá, realmente com você.
Existem diversos caminhos yogis, Raja, Jnana, Hatha, Keyia, Karma, Bhakti, que são aclamados pelos MESTRES de cada método.

SWAMI BHAKTIVEDANTA é, como seu título diz, um yogi BHAKTI seguindo os caminhos da DEVOÇÃO. Servindo a DEUS em cada pensamento, palavra e ação e cantando seus nomes sagrados, o devoto rapidamente desenvolve a Consciência de Deus. Cantando:
HARE KRISHNA, HARE KRISHNA,
KRISHNA KRISHNA, HARE HARE
HARE RAMA, HARE RAMA
RAMA RAMA, HARE HARE
inevitavelmente se chega à consciência de KRISHNA. (A prova do pudim está na degustação!)

DÊ UMA CHANCE À PAZ

TUDO O QUE VOCÊ PRECISA É DE AMOR (KRISHNA) HARI BOL
GEORGE HARRISON 31/03/1970
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Recomendadíssimo.

Tracklist:

1. Govinda
2. Sri Guruvastakam
3. Sri Ishopanishad
4. Bhaja Bhakata/Arati
5. Bhajahu Re Mana
6. Hare Krishna Mantra
7. Govinda Jaya Jaya
8. Room Conversation Excerpts (Bhaktivedanta, John Lennon, Yoko Ono and George Harrison)

Eis um vídeo de Govinda:


terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Artista: Tom Zé; Álbum: Todos Os Olhos

Tom Zé é foda. Conheci essa figuraça na última passagem dele por Bauru e o que era prá ser uma entrevista de cinco minutos virou um bate papo de mais de meia hora sobre a vida dele e sua experiência tropicalista. Mas vamos falar de Todos Os Olhos.
Este álbum foi lançado em 1973, quase dez anos após o início da ditadura militar no Brasil. Gil e Caetano já haviam deixado o tropicalismo de lado, mas Tom Zé seguia firme e forte. Não por fidelidade a uma ideologia ou coisa semelhante. Segundo o próprio, ele segue até hoje compondo nesse estilo porque "não sabe fazer outra coisa". O uso das guitarras elétricas, o lirismo ímpar e as diversas excentricidades estão encravadas nesta figura.

A capa de Todos Os Olhos é tema de inflamadas discussões até hoje. Por anos, foi um ânus (sim, um cu, mas eu não podia perder o trocadilho) com uma bolinha de gude. Mas aí a Carta Capital lançou uma matéria com o fotógrafo da capa do disco e ele contou que, na verdade, é uma boca. Chegaram a fotografar o cu, mas ficou muito óbvio do que se tratava e resolveram fotografar a bolinha de gude na boca da modelo. Muita gente ficou desapontada, mas o que importa é que, sem querer, Tom Zé gerou a polêmica: tem tanta diferença assim? Hehehehe.

Voltando. Todos Os Olhos é um disco fantástico. Traz algumas de suas melhores músicas (na opinião de quem vos escreve, lógico) e uma enorme variedade de experiências muito a frente de sua época. A começar pela faixa de abertura: Cademar não tem mais de um minuto e sua letra foi composta em parceria com o poeta concretista Augusto de Campos. É uma música truncada, parecendo um metrônomo. Nada convencional para uma abertura de disco.

Então começam os cavacos e a faixa título, Todos Os Olhos. Um samba meio esquisito, com violões de 12 cordas e uma letra tomzeana. "De vez em quando todos os olhos se voltam prá mim / De lá de dentro da escuridão / Esperando e querendo apanhar / Querendo que eu bata / Querendo que eu seja um Deus."

Dodó e Zezé conta com a participação de Odair Cabeça de Poeta. É praticamente folclórica, trazendo o diálogo entre dois personagens: um indaga (Dodó) e o outro sempre tem a resposta na ponta da língüa (Zezé), geralmente irônica e muito crítica à sociedade. "-Sorrisos, creme dental e tudo / E por que é que a felicidade anda me bombardeando? / Diga Zezé / -Isso é prá todo mundo saber que ninguém mais tem o direito de ser infeliz, / viu Dodó? / -Ahn...". Na conversa que ele teve conosco, ele disse que isso é uma referência à "obrigatoriedade" do povo brasileiro ser feliz mesmo em plena ditadura militar. Nas palavras do próprio, "o cara aponta uma arma e fala 'seja feliz, filho da puta, senão eu te mato'". Simples assim.

Quando Eu Era Sem Ninguém é uma baião animadíssimo, cheio de triângulos e coros, e é um contraste imenso quando, ao seu término, começa Brigitte Bardot, uma bossa melancólica e filosófica sobre a musa dos anos 60 e que, segundo Tom Zé, estava ficando velha. "Envelheceu antes dos nossos sonhos. / Coitada da Brigitte Bardot, que era uma moça bonita. / Mas ela mesma não podia ser um sonho / para nunca envelhecer (...) / Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar / na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar?" E, do nada e por pouco tempo, a música cresce, dando um fundo sombrio para "suicidar". Genial, perfeito casamento entre letra e música.

Uma das letras mais poéticas de Tom Zé (formalmente falando) é a do samba Augusta, Angélica e Consolação. Tom Zé retrata as características de alguns locais da cidade de São Paulo através de personificações e paranomásias. Segundo ele, os versos mais lindos que já escreveu na vida são "Quando eu vi que o Largo dos Aflitos / não era bastante largo / prá caber minha aflição, / eu fui morar na Estação da Luz / porque estava tudo escuro / dentro do meu coração". A música, em si, fica na cabeça. Um dos mais belos sambas já escritos.
Novamente um contraste. Logo após o lirismo de Augusta, temos a irreverência crítica de Botaram Tanta Fumaça. A música trata das conseqüências da modernização descontrolada, e entre estas estão os olhos ardendo, a cuca quente e a consciência podre. Em seguida temos O Riso e a Faca (em uma versão diferente da presente no disco anterior, entitulado Tom Zé) , e o que mais me chama a atenção nesta música é a maneira como ele trabalha as sílabas do fim de cada palavra no refrão. Algo como: "Fiz meu ber-ço-na / viração. / Eu / só descan / so-na / tempesta / de / só / adorme / ço-no / furacão". Até eu entender que ele não falava "só adormeço nu" foi um longo caminho.

"Um 'Oh!' e um 'Ah!'" não tem letra, apenas, como diz o título, "Oh", "Ah" e (surpresa!) "parakatizum". E depois desse interlúdio temos a porrada na cara: "Complexo de Épico" é uma alfinetada a muita gente da música. Faço questão de colocar a letra na íntegra logo abaixo:

Todo compositor brasileiro é um complexado

Por que então esta mania danada, esta preocupação
De falar tão sério,
De parecer tão sério
De ser tão sério
De sorrir tão sério
De chorar tão sério
De brincar tão sério
De amar tão sério?

Ai, meu Deus do céu, vai ser sério assim no inferno!

Por que então esta metáfora-coringa
Chamada "válida"
Que não lhe sai da boca, como se algum pesadelo
Estivesse ameaçando os nossos compassos
Com cadeiras de roda, roda, roda, roda?

E por que então esta vontade de parecer herói
Ou professor universitário
(Aquela tal classe que,
ou passa a aprender com os alunos - quer dizer, com a rua -
ou não vai sobreviver)?
Porque a cobra já começou a comer a si mesma pela cauda,
Sendo ao mesmo tempoa fome e a comida.

Sensacional. Não precisa nem comentar: a letra fala por si mesma.

Enfim, Todos Os Olhos é uma obra-prima, talvez o melhor disco de Tom Zé. Portanto, recomendadíssimo.

Eis o tracklist:
1. Cademar
2. Todos Os Olhos
3. Dodó e Zezé
4. Quando Eu Era Sem Ninguém
5. Brigitte Bardot
6. Augusta, Angélica e Consolação
7. Botaram Tanta Fumaça
8. O Riso e a Faca
9. Um "Oh!" e um "Ah!"
10. Complexo de Épico

Abaixo, Tom Zé tocando Augusta, Angélica e Consolação na passagem de som para o show na Unesp Bauru (eu que filmei :p)