Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a todos aqueles que seguem este blog e o leem com regularidade. Muito obrigado! Graças a vocês eu mantenho este blog desde 2006.
Caso vocês tenham alguma sugestão ou dica, ou gostariam de saber mais sobre algum álbum ou banda, por favor comentem nos posts ou me escrevam. Todo feedback é muitíssimo bem-vindo! :)
Artista:
Gil
Scott-Heron/Brian Jackson Álbum: Winter In America Ano: 1974 Gênero: Soul; Jazz-Fusion; Spoken
Word
Bem-vindos ao primeiro post de 2012 aqui no Música Estranha e Boa!
O álbum que irei resenhar é um álbum colaborativo
feito por dois músicos muitíssimo competentes, então nada mais justo do que eu
explicar um pouco quem são eles, como acabaram se juntando e, então, falar
deste disco maravilhoso chamado Winter In
America.
Gil Scott-Heron nasceu em 1949 em Chicago e faleceu em 2011, com
apenas 62 anos de idade. Filho de uma cantora de ópera e de um jogador de
futebol, Scott-Heron teve uma
infância complicada, mudando constantemente de casa devido ao divórcio dos pais
e à morte da avó. Sempre foi muito talentoso, e um de seus textos impressionou
o diretor de uma escola majoritariamente branca dos EUA, e graças a isso ele
ganhou uma bolsa integral para estudar lá – detalhe que ele tinha apenas 12
anos na época e era um dos 5 alunos negros em toda a escola. Durante sua
entrevista de admissão, o seguinte diálogo teria ocorrido:
-Como você se sentiria se, ao subir o morro a pé
depois de sair do metrô para vir para a escola, visse um de seus colegas
chegando de limusine?
-Da mesma maneira que você. Você não tem dinheiro para
comprar uma limusine. Como você se sente?
O tempo passou e o promissor aluno entrou na Lincoln University, concluindo inclusive
um mestrado em Creative Writing (escrita
criativa) em 1972. Durante a faculdade ele conheceu seu parceiro em diversos
álbuns, inclusive o aqui resenhado. Seu parceiro se chama Brian Jackson.
Jackson nasceu em 1952 no Brooklyn, EUA. Seu estilo único ao
piano é inconfundível, e ele já foi muito sampleado por diversos rappers de
diversas gerações. Seu nome passou a ser muito vinculado ao de Gil Scott-Heron durante os anos 70, o
período mais produtivo e significante da carreira de ambos os músicos.
O primeiro álbum que os dois lançaram juntos, apesar
de ser creditado na capa apenas à Scott-Heron,
foi o aclamadíssimo Pieces Of A Man,
de 1971. Este álbum trazia um dos trabalhos mais reconhecidos e importantes de Scott-Heron, a canção The Revolution Will Not Be Televised –
um trabalho que ele estimava tanto que também havia estado também em seu álbum
anterior, Small Talk At 125th and Lenox.
Esta canção é a marca registrada do artista porque traz seu tema preferido –
política, mais especificamente a situação do negro estadunidense – sendo
executado em seu estilo mais característico – o spoken wordsoul, um tipo
de “avô” do rap que traz poesias,
geralmente de cunho social, recitadas ritmicamente sobre um pano de fundo
musical, geralmente calcado no soul e no
funk.
Mas Winter In
America não é um disco de spoken word.
Ele é muito mais que isso. Trata-se de uma viagem minimalista incrivelmente
tocante, executada por músicos gabaritadíssimos.
Eu me lembro exatamente minha reação ao ouvir a voz de
Gil Scott-Heron pela primeira vez. Eu
falei exatamente isso:
-Puta que pariu, que voz é essa?
Ah, a voz de Gil
Scott-Heron. Limpa, cristalina, grave na intensidade certa, com feeling. É
realmente impressionante, ainda mais quando nos é apresentada em uma música tão
bonita e tocante quanto Peace Go With You,
Brother (As-Salaam-Alaikum). Trata-se de um desabafo sobre alguns
representantes negros que estavam perdendo o foco e agindo de maneira hipócrita
ou inadequada aos olhos de Scott-Heron.
A melodia tocada por Jackson no piano
elétrico somada à interpretação e aos versos nos entregam uma das melhores
faixas do álbum logo de cara. Apenas para ilustrar, eis alguns
versos:
“Peace to you, brother – don’t seem to matter so much now just what I
say
Peace go with you, brother – you’re the kind of man who think he’s got to have
his own way
You’re my father, you’re my uncle and my cousin and my son
But sometimes, sometimes, I wish you were not”
Ou seja:
“Paz para você,
irmão – não parece que o que eu falo importa tanto agora
Que a paz vá com você, irmão – você é o tipo de homem que acha que deve seguir
seu próprio caminho
Você é meu pai, você é meu tio e meu primo e meu filho
Mas às vezes, às vezes, eu queria que você não fosse”
Outra coisa que chama muito a atenção na música é como
ela é guiada principalmente pelo piano e pelo baixo, com a bateria dando apenas
alguns leves toques no prato de condução.
A segunda faixa é a longa Rivers Of My Fathers, uma música sobre a procura do homem negro
moderno por suas origens, sobre seus questionamentos e preocupações. A levada
da música é bem suave, com a bateria levando calmamente a música no aro da
caixa e o piano de Jackson sempre
bebendo da fonte do jazz. Na letra, o
narrador sempre fala de “casa”, e apenas no final Scott-Heron deixa claro, em um sussurro, o que quer dizer: Africa. Tocante e bela.
A Very Precious Time é uma triste e bela canção de amor com uma letra
nostálgica sobre inocência perdida. Após uma introdução com piano elétrico e
flauta, Gil Scott-Heron canta
melancolicamente:
“Was there a touch of spring?
Did she have a pink dress on?
And when she smiled her shyest smile, could you almost touch the warmth?
And was it your first love a very precious time?”
Em português:
“Havia um toque de primavera?
Ela estava com um vestido rosa?
E quando ela sorriu seu sorriso mais tímido, você quase pôde tocar o calor?
E o seu primeiro amor foi um momento muito precioso?”
A música não tem nenhuma percussão, e isso dá um tom
ainda mais triste e belo para esta belíssima canção.
Back Home, por sua vez, é bem mais animada, falando sobre a
importância de nunca se esquecer das origens e da família. “Eu tenho que voltar e ver a minha gente”. Simples
e genial, realmente revigorante e animadora. Destaque para o dueto de flautas
no meio da canção.
The Bottle foi o único single do álbum e traz um swing de
primeira junto com a letra sobre alcoolismo. O ritmo quase latino fez grande
sucesso, e ao ser questionado sobre isso Scott-Heron
foi categórico: “Música popular não precisa ser uma merda”. De fato é uma ótima
música, com uma letra sensacional sobre pessoas que se deixam seduzir demais
pelo álcool e acabam “na garrafa”.
Terminada a paulada anterior, o álbum volta a ter um
momento introspectivo com a bela Song For
Bobby Smith, uma música sobre um garoto de 4 anos que, segundo a
apresentação do próprio Gil no começo
da música, estava com Brian Jackson
no dia em que eles estavam compondo a música. O garoto gostou tanto da música
que se apropriou dela, dizendo que “era dele”. Os músicos gostaram da ideia e a
concederam ao moleque – um belíssimo presente.
Um dos momentos que eu particularmente mais gosto em
todo o álbum é a lindíssima Your Daddy
Loves You. A música, endereçada obviamente à filha de Scott-Heron, Gia Louise,
é uma linda declaração de amor com uma melodia alegre (apesar da execução
minimalista). “Your daddy
loves you – your daddy loves his girl” – é impossível não sorrir. Ótima faixa.
Passado o momento “bonitinho”, Scott-Heron volta com tudo com a ácida H20 Gate Blues, uma paulada no puro estilo spoken word sobre, obviamente, o escândalo de Watergate. A letra é
fenomenal, mas longa demais para eu colocar na íntegra aqui – por isso, faça um
favor para você mesmo e clique aqui para lê-la. Isso sem contar os comentários
muitíssimo bem humorados sobre o blues no começo da música (que, aliás, é um
blues).
O álbum termina, finalmente, com uma versão bem mais
curta de Peace Go With You, Brother.
Winter In America foge do convencional e nos mostra um som coeso e muito
bem executado, com toda a banda no seu auge e composições originais e únicas.
Música estadunidense negra setentista na sua forma mais sincera e seminal.
Seja por
preconceito ou desconhecimento, existem alguns gêneros musicais que são
incrivelmente subestimados. O álbum aqui abordado traz influência de um desses
gêneros: o ambient.
De certa
maneira eu já falei de ambient neste
blog quando resenhei o Low, do David Bowie. Para quem não sabe,
trata-se de um gênero musical que tem suas origens lá no começo do século XX,
nos movimentos futurista e dadaísta – mais especificamente com um músico
francês chamado Erik Satie.
Satie começou a
fazer experimentos que ele mesmo rotulava como “anti-música” ou “música de
decoração”, um tipo de composição minimalista e repetitiva que serviria como um
pano de fundo para atividades cotidianas e poderia facilmente ser ignorada – ao
contrário de ser o foco da atenção. Esse mesmo conceito influenciou Brian Eno, o respeitadíssimo músico que
já foi da lendária Roxy Music,
trabalhou com Bowie no fim dos anos
70 e que é considerado o responsável pela criação do termo ambient music. No encarte do álbum Ambient 1: Music For Airports (o primeiro de uma série de 4
álbuns), Eno escreveu um tipo de
manifesto que dizia: “a ambient
music precisa ser capaz de acomodar diversos níveis de atenção do ouvinte
sem focar em um em particular; precisa ser igualmente interessante e
ignorável”.
O ambient, como praticamente todos os
estilos musicais, se fundiou a outros e teve diversas crias. Devido ao enorme
uso de sintetizadores, o flerte com a música eletrônica foi assaz bem sucedido
e resultou em pérolas como o álbum aqui resenhado.
Jon Hopkins é um londrino
nascido em 1979 e tem um currículo bastante interessante, tendo trabalhado com
o próprio Eno e com o Coldplay. Ele se interessou por música
eletrônica ao ouvir bandas como DepecheMode, New Order e Pet Shop Boys,
dedicando-se ao piano e aos sintetizadores desde os 12 anos.
Insides é o terceiro e
mais bem sucedido álbum da carreira solo do músico. Apesar de eu ter dado uma
ênfase grande à influência de ambient,
o álbum é muito mais que isso – basta escutar a primeira faixa, a quase
acústica The Wider Sun, para notarmos
que estamos diante de um álbum difícil de classificar. Instrumentos de corda
tocam uma melodia calma e melancólica que poderia estar na trilha sonora de
algum filme de ficção científica e de repente um barulho de água começa bem
suave, com sintetizadores ao fundo dando um clima amplo e espacial; é a deixa
de Vessel, com sua percussão
eletrônica minimalista e baixo à-lá dubstep.
A melodia do piano é simples e belíssima, mostrando bem a influência de Eno no som do rapaz.
A terceira
música é a faixa-título (Insides,
caso você tenha esquecido) é um exemplo de como as possibilidades da música
eletrônica são intermináveis. Um ritmo truncado, com influências que vão do downtempo até o já citado dubstep, criam um ambiente sombrio e
tenso, inquietante como um filme de suspense com robôs malvados.
Wire, por sua vez,
é justamente o oposto. Aqui, Hopkins
mostra seu lado mais pop com melodia e batida muito mais convencional que
poderia tranquilamente ganhar uma letra e tocar em alguma estação de rádio não-tão-convencional.
Uma boa faixa, bem destoante das anteriores.
Colour Eye varia momentos
do chamado IDM (Intelligent Dance Music, um termo muito controverso também
conhecido como art techno) com ambient de uma maneira balanceada e
imprevisível. A música é turbulenta e surpreendentemente termina com quase um
minuto de barulho de chuva.
A próxima faixa
é a minha favorita do álbum. Com um nome audacioso, Light Through The Veins conseguiu, pelo menos para mim (que sou
meio doido e sinestésico), criar de fato uma sensação de luz correndo pelas
veias. Uma balada épica, com um crescendo incrível que se extende por quase 10
minutos, sempre repetindo a mesma melodia no bizarro compasso de 9/4 (eu contei
certo? Corrijam-me, músicos de plantão!). A música vai crescendo aos poucos e
ficando enorme, envolvente, até morrer aos poucos, sempre lentamente e
progressivamente, fluida e sem nada abrupto. O Coldplay sampleou essa música em Life In Technicolor e certamente não foi à toa. Faixa épica e
sensacional.
Hopkins contrasta a
grandiosa faixa anterior com a calmíssima The
Low Places. Parece ter saído da mesma parte do cérebro que compôs Vessel, com uma estrutura semelhante
apesar de não ter características de dubstep.
Esta é mais ambient que qualquer
outra coisa, com batidas minimalistas que vão progredindo muito levemente. Bela
faixa.
Small Memory é uma pequena
faixa tocada no piano, com uma melodia bonita e lenta. Engraçado como o único
filler do álbum é justamente a faixa que foge do ambient e serve apenas para conectar a faixa anterior a A Drifting Up. Pelo instrumental, a
faixa poderia estar tranquilamente em Vespertine,
um dos meus álbuns da Björk.
Novamente Hopkins experimenta com
microbeats e texturas, fazendo uma faixa bonita e hipnotizante. A música tem
vários níveis, e escutá-la com fone de ouvido é uma experiência incrível.
A última faixa
do álbum é a belíssima Autumn Hill.
Novamente ao piano, Hopkins nos
mostra sua versatilidade com um tema que poderia estar em qualquer filme
triste. Muitíssimo bem executada e com barulhos de pássaros ao fundo, sempre
criando uma atmosfera envolvente. Fecha com chave de ouro.
Insides é um ótimo
álbum. Hopkins foi muito feliz ao
montar a estrutura, a ordem das faixas, criando as nuances necessárias para que
um disco seja mais que apenas um conjunto de faixas. Há faixas memoráveis e a
execução é impecável. Coisa fina.