domingo, 5 de fevereiro de 2006

Banda: Mr. Bungle; Álbum: California



Banda: Mr. Bungle
Álbum: California
Ano: 1999
Gênero: Avant-garde

Chegamos aqui à terceira e derradeira parte dos reviews dos álbuns do Mr. Bungle. Como toda trilogia, o final não é apenas um final; é um gran finale, inesperado e surpreendente.

Depois do incrível auto-intitulado debut (que mostrava uma banda criativa e competente) e do extremo Disco Volante, experimental ao extremo, o Mr. Bungle lança seu "álbum pop". Mas um álbum pop do Bungle é muito diferente de um álbum pop qualquer. Durante o review, você vai entender o porquê.

California foi lançado em 1999, ou seja, quatro anos após Disco Volante. Neste ínterim, tivemos o surgimento do trabalho paralelo de Trey Spruance (principal mentor), Trevor Dunn e Danny Heifetz, o Secret Chiefs 3, que mistura música árabe com surf music e drum 'n' bass. Além disso, tivemos o último lançamento do Faith No More, o ótimo Album Of The Year, de 1997. Infelizmente a banda iria acabar em 1998. Felizmente, isso abriu caminho para que Patton se dedicasse de corpo e alma a todos os seus projetos, como o Mr. Bungle e o Fantômas.

Mas porquê California é considerado o álbum pop do Mr. Bungle? Simples: os caras fizeram um álbum muito mais acessível, misturando elementos que fogem do padrão dos outros álbuns (por exemplo, o uso de cordas). Fazendo uma comparação totalmente absurda, este álbum seria o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band da música avantgarde, ou seja, o perfeito equilíbrio entre os elementos. Enquanto Disco Volante se mostrava absurdamente violento e brusco em suas mudanças, California encontrou o ponto G - mas sem perder a identidade.

Logo de início isso é perceptível. A faixa de abertura, Sweet Charity, traz guitarras havaianas, percussão e uma banda coesa. O refrão é extremamente amigável, até para quem não é acostumado às maluquices da música de vanguarda. E a música viaja por diversos padrões rítmicos de maneira natural, e não abrupta como nos trabalhos anteriores. E a letra é uma crítica às instituições de caridade (ou pelo menos a quem pratica caridade achando que, assim, muda o mundo).

A segunda música é um show à parte. None Of Them Knew They Were Robots é a maior música do álbum, com mais de 6 minutos. O instrumental mistura jazz, metal, rockabilly e surf music, e a letra (de Trey Spruance) uma crítica extremamente elaborada à sociedade pós-moderna (se é que ela existe). Entre as referências da letra, encontramos Santo Agostinho e Franklin. Frases em latim falando de Deus ("Deus absconditus, Deus nullus Deus, Deus nisi Deus", o que significa "Deus escondido, Deus nulo, Deus a não ser Deus") e as visões que a sociedade tem dele.

A lista "oficial" de influências do álbum é a seguinte: death metal, música cigana romena, surf, rockabilly, disco, músicas de cinema, hits dos anos 60, 70 e 80, Herbie Hancock's "Sextant," Peter Maxwell-Davies "Eight Songs for a Mad King," batuque de vudu, bandas brasileiras psicodélicas (!! - Patton gosta do trabalho de bandas como Mutantes e Secos e Molhados), e diversos instrumentos de teclas.

O humor fica explícito em músicas como The Air-Conditioned Nightmare. As mudanças de ritmo são bruscas, mas permanecem sob o mesmo tema. A música parece um pout pourri de Beach Boys. O começo melancólico, a mudança brusca para o "wop bop bop bop", muito semelhantes às da época "surf" dos garotos da praia. Enfim, é uma homenagem e tanto.

Algumas faixas poderiam tranqüilamente tocar em rádios e MTV. Retrovertigo é grudenta e bonita, com um refrão muito bem escrito. Pink Cigarette, com seu clima todo retrô, seria "comum" se não fosse a letra e o final inusitado.

Além das músicas já citadas, os outros três destaques do álbum na humilde opinião de quem vos escreve são os seguintes: Ars Moriendi, The Holy Filament e Goodbye Sober Day.

Ars Moriendi significa, em latim, "A Arte de Morrer". A música parece ter saído de alguma fronteira inexistente entre a Espanha e a Romênia, tamanha a perfeição com que os músicos misturam música flamenca com música cigana romena (com pitadas de música árabe). As mudanças de ritmo são deliciosas, passando de uma calma harmonia tipicamente espanhola para um frenesi cigano.

The Holy Filament parece uma trilha sonora de uma ida para o paraíso. Calma ao extremo, tem um trabalho vocal lindo. A letra é uma das mais criativas que eu já vi; "The legend of modernity: the phosphenes explode God's eternal strobe through the holy filament graven image". Linda.

Goodbye Sober Day é uma obra prima. É como se fosse uma mistura entre a tendência de California com as loucuras de Disco Volante. Na música você encontra de tudo: harmonias vocais, canto gregoriano, metal, música egípcia, tudo. Incrivelmente eclética.

Tracklist:
1. Sweet Charity
2. None Of Them Knew They Were Robots
3. Retrovertigo
4. The Air-Conditioned Nightmare
5. Ars Moriendi
6. Pink Cigarette
7. Golem II: The Bionic Vapour Boy
8. Holy Filament

9. Goodbye Sober Day

E assim termina a "odisséia Bungle". Depois deste trabalho, a banda saiu em turnê por um ano e ficou inativa. Trevor Dunn já afirmou várias vezes que a banda acabou, mas a esperança é a última que morre e eu realmente torço que, um dia, essa banda se reúna novamente e nos presenteie com mais trabalhos de qualidade.

Recomendadíssimo.

Eis um vídeo do Mr. Bungle executando a música Ars Moriendi ao vivo:
Postar um comentário