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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Banda: Faith No More; Álbum: Sol Invictus


Banda: Faith No More
Álbum: Sol Invictus
Ano: 2015
Gênero: Rock; alternativo

Desde que este blog começou, no longínquo ano de 2006 (!), já resenhei pelo menos nove álbuns em que Mike Patton teve algum grau de envolvimento. Curiosamente, nunca resenhei nada da banda que realmente o trouxe aos holofotes (o inverso talvez seja verdadeiro): o Faith No More. A banda fez um sucesso considerável no final dos anos 80 e durante os anos 90, principalmente com os singles dos álbuns The Real Thing, de 1989, e Angel Dust, de 1992.

Talvez seja precipitado afirmar que Mike Patton foi o responsável pelo sucesso comercial do Faith No More, mas o fato é que, antes dele, a banda não havia estourado. Desde que foi fundado em 1981 por Billy Gould (baixo), Roddy Bottum (teclado) e Mike Bordin (bateria), o FNM não teve muita sorte com vocalistas -  até Courtney Love (aquela mesmo) chegou a assumir o microfone, vindo inclusive a ter um relacionamento com Roddy Bottum, que assumiria sua homossexualidade nos anos 90. Finalmente, estabeleceram-se com Chuck Mosley e com o guitarrista Jim Martin.

Abro aqui um parêntese para explicar a origem do nome "Faith No More". Antes de fundarem a banda, Gould e Bordin faziam parte de um conjunto chamado Sharp Young Men. O vocalista Mike Morris tinha o apelido de "The Man", e quando surgiu a conversa de mudar o nome da banda ele sugeriu "Faith In No Man". A sugestão de Bordin, porém, viria a vencer: tiraram o "in" e a banda virou "Faith No Man". Quando a banda acabou, os antigos membros concluíram que o nome não fazia mais sentido, pois "The Man" (Mike Morris) não estava mais com a banda (No More). Assim, nasceu o nome "Faith No More". Falemos um pouco da trajetória da banda.

O debut We Care a Lot foi lançado em 1985, e não chamou muito a atenção da grande mídia. A faixa título viria a ser reaproveitada no segundo álbum, Introduce Yourself, de 1987, e fez um sucesso modesto na MTV, mas ainda assim a banda não decolou. Para piorar, Mosley seria demitido no ano seguinte devido aos seus problemas com drogas.

Enquanto tudo isso acontecia, o jovem vocalista Mike Patton estava gravando demo atrás de demo com o Mr. Bungle, sua banda dos tempos de colégio. Uma fita foi parar nas mãos do guitarrista Jim Martin, e o resto é história. Em duas semanas de banda, Patton escreveu todas as letras para o que viria a ser o passaporte da banda para a história do rock.


Quase que da noite para o dia, o Faith No More virou uma banda grande e influente. A maneira como eles misturavam gêneros em suas músicas era bem incomum para bandas do mainstream: do rap ao metal, passando pelo funk, new wave e mais um monte de coisa. Os clipes passavam o tempo todo na MTV: Epic, Falling to Pieces, From Out Of Nowhere. Saiu CD e VHS ao vivo em Brixton, na Inglaterra, vieram para o Rock In Rio II, em 1991.

Toda a fama conquistada com The Real Thing criou muita expectativa para o trabalho seguinte, e quando Angel Dust finalmente saiu, em 1992, foi considerado uma obra-prima. A banda estava mais coesa, madura e ainda mais eclética, rompendo com a veia comercial do debut. A diversidade de temas abordados em instrumentais impecáveis e criativos foi recebido calorosamente por fãs e crítica: momentos suaves como o belíssimo cover de Easy (originalmente dos Commodores) e a curiosa RV estão misturados a pauladas como Caffeine e Smaller and Smaller; os teclados de Bottum destacam-se nos momentos certos (como Everything's Ruined e Crack Hitler), Martin mostra toda sua influência do metal em canções como Jizzlobber e Malpractice e Gould, Bordin e Patton são absolutamente versáteis. Infelizmente, seria o último trabalho da banda com o guitarrista Jim Martin, que estava descontente com o rumo musical da banda - diz a lenda que ele foi demitido por fax, mas ele diz que saiu. Vai saber.

Em 1995, o guitarrista Trey Spruance, parceiro de Patton no Mr. Bungle, junta-se ao FNM para gravar King for a Day... Fool for a Lifetime. Ainda mais eclético que seu antecessor, é o álbum do Faith No More com menor presença de teclados: Bottum perdeu o pai na época da gravação, e também ficou bastante abalado com a morte do amigo Kurt Cobain. Estando ausente do estúdio, a banda tomou as rédeas e o resultado foi mais cru e dominado pelos demais instrumentos. Apesar de ser, na minha opinião, o melhor álbum da banda, pode-se dizer que foi o início do declínio: Spruance saiu logo após as gravações, sendo substituído por Dean Menta, que também seria substituído após um ano e meio por Jon Hudson. Além disso, o ecleticismo não foi muito bem aceito pela mídia, e os singles Digging the Grave, Evidence e Ricochet não fizeram tanto sucesso quanto seus antecessores.

A banda voltaria ao estúdio em 1997 para gravar Album of the Year, um álbum muito bom e sólido, mas que não conseguiu resgatar a popularidade perdida com os anos. Além disso, boa parte dos membros estavam trabalhando em projetos paralelos e o clima entre eles não era dos melhores. Todos esses fatores levaram ao fim da banda em 1998.

Com o fim, os membros do FNM puderam se dedicar integralmente a seus projetos. Mike Patton, workaholic por natureza, concluiu as gravações de California, do Mr. Bungle, e idealizou/participou de mais uma série de projetos, como Fantômas, Lovage, Tomahawk e Peeping Tom. Roddy Bottum dedicou-se a uma banda curiosa chamada Imperial Teen (que tocava indie pop abordando temas da cultura gay da época), Billy Gould fundou sua gravadora independente (Koolarrow Records) e fez participações especiais em álbuns de bandas como o Fear Factory e Coma. O discreto Jon Hudson dedicou-se à área de negócios imobiliários, enquanto Mike Bordin participou da banda de Ozzy Osbourne, fez uma turnê com o Korn e participou de álbuns de outros artistas. Aliás, Bordin chegou a participar de uma edição do programa Who Wants to be a Millionaire, o "Show do Milhão" dos EUA. Ele não teve muita sorte e saiu com apenas U$ 1000.

Não parecia, pela maior parte dos anos 2000, que algum dia o Faith No More voltaria à ativa. Entretanto, no final de 2008 começaram a surgir rumores aqui e ali, e no ano seguinte veio o anúncio oficial: a banda estava de volta para uma turnê de reunião com a mesma formação do Album of the Year - ou seja, Patton, Hudson, Gould, Bottum e Bordin. Para a alegria dos fãs, a reunião deu tão certo que se estende até os dias de hoje, e temos em mãos o primeiro álbum do Faith No More em 18 anos: Sol Invictus. Finalmente, falemos dele.

O nome do álbum, Sol Invictus, é uma referência ao deus romano do Sol, venerado no final do período do império. Musicalmente, é possível notar uma série de elementos já apresentados pela banda nos álbuns anteriores. É um trabalho extremamente eclético, que precisa de tempo para ser devidamente digerido.

A faixa de abertura é a faixa-título, Sol Invictus. Surpreendentemente sombria, quebra uma tradição de aberturas explosivas (From Out of Nowhere, Land of Sunshine, Get Out e Collision são verdadeiros petardos). O piano calmo, a voz extremamente grave de Patton e a bateria levando na caixa parecem uma marcha fúnebre, e o refrão melódico e onírico parece um raio de sol (trocadilho proposital) dentro de uma sala escura. A faixa é interessantíssima, e mais curiosa ainda é sua escolha para abertura. Não obstante, uma bela música.

E aí parece que abrimos um portal para 1992 e ouvimos uma faixa que acabou se perdendo de Angel Dust. Provavelmente, Superhero é a faixa mais tipicamente Faith No More de todo o álbum. Os teclados logo na introdução, a levada da bateria, os "go!" intercalados e os riffs de guitarra - tudo soa muito familiar, e digo isso de uma maneira positiva. Ótima faixa.


A terceira faixa, Sunny Side Up, é um dos motivos que me levam a gostar tanto do Faith No More: a bizarrice acessível. Ao mesmo tempo em que a música não traz firulas em excesso, ela está longe de ser convencional, com um compasso fugindo do tradicional 4/4 e um refrão no mínimo esquisito, com a frase "sunny side up" (ovo frito, basicamente) cantada em uníssono por Patton e pela guitarra. É uma música bem Faith No More mesmo sem ser parecida com nada já gravado pela banda.


Separation Anxiety é, como o nome descreve, uma música aflita, que parece nervosa desde a primeira nota. Hudson e Gould repetem o mesmo riff incessantemente, com a bateria minimalista e Patton intercalando sussurros e melodias mais agudas. Mais pro meio da música, tudo fica puro rock and roll, com Bordin descendo o braço e Hudson fazendo um belo solo. Uma das mais roqueiras de Sol Invictus.

Ao ouvir Cone of Shame, lembro imediatamente de outra banda de Mike Patton, o Tomahawk. Extremamente dark, a primeira metade da música é conduzida basicamente pela guitarra e pela voz de Patton. Porém, a bateria, tímida e ausente durante a primeira metade da música, dá as caras enfaticamente na segunda parte, quando a banda toda explode e percebemos que, de fato, é o Faith No More. Não é a minha favorita, mas uma boa música ainda assim.

Rise of the Fall tem um clima quase noir. Passada a introdução mais pesada, temos uma música cheia de momentos diferentes. Em alguns momentos, chega até a lembrar o Mr. Bungle, transitando livremente por gêneros que, estando isolados, parecem não se encaixar, mas aqui fazem pleno sentido. Ótima faixa.

A faixa seguinte é a curiosa Black Friday, com uma batida que lembra um pouco o surf rock dos anos 60. Roddy Bottum toca violão nesta música, que vem sendo, inclusive, parte do setlist da banda. Não é um destaque, apesar de divertida.

O primeiro single de Sol Invictus foi Motherfucker, a faixa lenta e estranha que tem cara de abertura, mas é a oitava música do álbum. Ameaçando explodir a qualquer momento, ela chega perto nos refrões, com Patton quebrando os sussurros com seu melódico "hello, motherfucker!", e no final, quando os instrumentos sobem e a canção ganha intensidade, mas a bateria monótona não deixa o ouvinte bater cabeça. Faixa peculiar, mas mais no bom sentido.

Matador é uma música interessante. Começa lenta e um tanto mórbida, com a melodia repetitiva e angustiante do piano de Bottum, mas aos poucos vai ganhando força conforme os instrumentos vão entrando. Quando Patton canta "we will rise from the killing floor", a música ganha um tom mais épico, e só cresce daí pra frente. Tem uma quê de Album of the Year, e é uma belíssima canção.

Fechando o álbum, temos From the Dead, uma faixa com sabor de energia positiva e esperança. Um violão bastante incomum em músicas do Faith No More e uma melodia alegre encerram este belíssimo álbum de um jeito que lembra um pouco a quase gospel Just a Man, do King for a Day.

E a conclusão? O ponto é que Sol Invictus é um álbum bem bacana - talvez até mais bacana do que os fãs mais sensatos poderiam esperar após 18 anos de hiato. Algumas das faixas nos levam direto àqueles álbuns dos anos 90, enquanto outras são mais atrevidas e guiam o ouvinte para novas direções. Essa combinação resultou em um trabalho que, embora não seja o mais brilhante da discografia, mostra uma banda com novo fôlego e bastante lenha para queimar.

Recomendadíssimo.

Tracklist
1. Sol Invictus
2. Superhero
3. Sunny Side Up
4. Separation Anxiety
5. Cone of Shame
6. Rise of the Fall
7. Black Friday
8. Motherfucker
9. Matador
10. From the Dead

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Banda: Got a Girl; Álbum: I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now



Banda: Got a Girl
Álbum: I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now
Ano: 2014
Gênero: Pop francês, lounge

É interessante, após mais de 50 postagens e incríveis oito anos, voltar a escrever sobre uma pessoa que ilustrou a primeira, e somente a primeira, resenha publicada neste blog: Dan Nakamura, conhecido como Dan The Automator. O único trabalho dele que eu conhecia era justamente um dos mais marcantes do começo da minha vida adulta: Music to Make Love to Your Old Lady By, de seu projeto Lovage (que conta, também, com o versátil Mike Patton e com a voz de veludo de Jennifer Charles). Entretanto, ao pesquisar os últimos lançamentos, deparei-me com o excêntrico título I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now ("eu te amo mas preciso dirigir para fora deste penhasco agora"). Quando vi que se tratava do novo projeto de Dan, não hesitei em sincronizar no Deezer.

O Got a Girl é uma parceria de Dan com a atriz e cantora Mary Elizabeth Winstead, que já participou de filmes como À Prova de Morte, de Quentin Tarantino, e Scott Pilgrim Contra o Mundo. Foi nos bastidores de Scott Pilgrim, aliás, que a dupla se conheceu. Ela foi até Dan para expressar sua admiração pelo Lovage, e Dan, em resposta, perguntou se ela teria interesse em "fazer música". Estava formado o embrião do projeto.

Conforme o diálogo entre os dois foi se desenvolvendo, eles descobriram que tinham em comum o apreço pelo pop francês do fim dos anos 60 e começo dos anos 70, de nomes como Serge Gainsbourg, Jane Birkin, Sylvie Vartan, Françoise Hardy e muitos outros. Aqui vale a pena abrir um parêntese para falar um pouco sobre o pop na França.

Um termo muito recorrente quando se fala de música francesa é chanson (canção). Embora o termo possa ser aplicado a qualquer música cantada em francês, quando se fala em chanson se está pensando num gênero musical que foi popular na França no período entre o final do século XIX até a metade da década de 60 no século XX. Talvez seus representantes mais conhecidos fora dos países francófonos sejam o belga Jacques Brel e Édith Piaf, ambos idolatrados por suas vozes e pela singularidade de suas interpretações. Talvez o equivalente brasileiro do chanson seja o samba-canção: em ambos os estilos, os intérpretes apresentam vozes potentes, que são o principal foco da canção, com o acompanhamento de uma orquestra, piano ou instrumento acústico. Porém, a partir dos anos 60, o estilo, a exemplo do que ocorreria em diversos outros países do mundo ocidental, acabou se misturando a outros de origens distintas (como o rock and roll) e gerando diversos subgêneros, como o yé-yé  e o pop.

O pop francês dessa época apresentava, via de regra, batidas suaves, texturas feitas no sintetizador (ou mesmo orquestra) e era, no geral, muito melódico. A voz, antes potente e protagonista absoluta, agora era muito mais suave e trazia muito mais sex appeal - isso quando o sexo não era praticamente explícito na música, como na famigerada Je t'aime... moi non plus, de Gainsbourg e Birkin. Alguns grupos franceses ainda carregam bastante influência desse estilo, como o Air, por exemplo. Dito isto, voltemos ao Got a Girl. 

O diálogo entre Mary e Dan foi tomando forma até que o single You and Me (Board Mix) foi lançado em maio de 2013. No mesmo mês, eles lançaram I'm Down, que é uma interpretação de uma das canções do "álbum" Song Reader, de Beck (digo "álbum" porque, na verdade, trata-se de uma coleção de partituras). Entretanto, levaria mais de um ano para que o primeiro álbum fosse lançado no dia 22 de julho de 2014.

A faixa de abertura e primeiro single do álbum (que será chamado de I Love You But... no resto deste post) é a viciante Did We Live Too Fast. Tudo parece estar no lugar para os créditos iniciais de um filme de Tarantino: os sinos, as cordas, a batida suave contrastando com os estouros de percussão e, por fim, a voz deliciosa de Winstead cantando suavemente, quase à-lá Jennifer Charles (difícil não fazer a comparação). O refrão chiclete e a parte quase sussurrada dão o já citado tom "français" à ótima faixa de abertura.



A faixa seguinte, I'll Never Hold You Back, bebe bastante do dream pop e do trip hop. Uma batida mais lenta, repleta de sintetizadores, e um suave piano guiam a canção, que em momentos até lembra um pouco The Cramberries. É interessante notar a competência de Winstead tanto nos registros agudos quanto nos mais graves, que são predominantes na maior parte da música.

Close To You é um pop delicioso e direto, com uma batida reta e vocais quase sussurrados. O baixo e os teclados guiam a música até o refrão marcante, rico em sintetizadores. Faixa muito bem construída e equilibrada, com direito a um longo segmento instrumental no final.

O clima leve da canção anterior esvanece logo na introdução de Everywhere I Go, com sua orquestração dramática e levada mais arrastada. A melodia aqui é mais melancólica, quase como uma triste canção de ninar, e no refrão a voz de Winstead entrando junto com o carrilhão (aquele instrumento que emite um som semelhante ao som de "sonhos" ou "estrelas") parece uma onda, oscilando entre os graves e agudos enquanto um cravo dá um tom noir. Ótima faixa.

Last Stop, por sua vez, é bem mais minimalista, com seu pianinho agudo e seu clima quase de jingle. Ao contrário de Everywhere I Go, o clima aqui é leve e quase descompromissado, e dá vontade de estalar os dedos no ritmo da música.

Por isso, é um choque quando a próxima faixa chega com tudo. There's a Revolution bebe da fonte do synthpop e do new wave, fazendo com que o Got a Girl apresente uma pegada indie pela primeira vez em I Love You But.... Com muitos teclados e vocais mais próximos do estilo de Debbie Harry (vocalista do Blondie) do que de Jennifer Charles. Uma ótima surpresa.

Things Will Never Be The Same tem uma sensualidade pesada e atmosférica, com seu riff marcante de baixo e backing vocals. No refrão, os sintetizadores invadem a música de maneira grandiosa, contrastando com a voz suave e contribuindo ainda mais para o clima denso da canção. 

O começo de Put Your Head Down parece ter saído de uma caixinha de música. Entretanto, aos poucos a música vai se construindo diante de nossos ouvidos: primeiro, entra a voz quase fantasmagórica; em seguida, um violão toca alguns acordes e a bateria dá as caras. Quando o ouvinte menos percebe, a música está completa. No refrão, Winstead faz um dueto com ninguém menos que Mike Patton, que tem um interlúdio só pra ele (que, de maneira quase caricata, sugere um sanduíche de fritas com mortadeeeella).

Friday Night tem uma pegada bem lounge, suave e tranquila. Linear, ela mantém o padrão de I Love You But..., com os vocais sussurrados e teclados atmosféricos, mas vejo esta faixa mais como um filler do que como um destaque.

La La La soa um pouco mais contemporânea, guiada mais pela bateria e pelo baixo do que pelo teclado propriamente dito e com uma bateria mais distorcida. Ainda assim, apresenta o clima retrô característico e consegue cativar.

Mas mais interessante que La La La é o divertido filler Da Da Da, com sua batida mais rápida e animada. Ao fundo, Winstead reclama com bom humor de ter de cantar essa "merda de música", mas é uma faixa interessante e contribui para a variedade do álbum.

A saideira é Heavenly. Mais lenta, ela tem um clima mais melancólico e dark, mas culmina em um refrão surpreendentemente delicado e bonito. Talvez lembre até um pouco alguma coisa que o The Cardigans tivesse feito caso quisesse seguir uma carreira no dream pop.

Por fim, o debut do Got a Girl é um lançamento interessantíssimo. Mary Elizabeth Winstead não é uma Amy Winehouse, mas o lance é que não há a menor necessidade que ela seja. Sua voz suave e seu jeito doce de cantar caem como uma luva para o som do Got a Girl. 

Também vale notar como Dan The Automator acertou na mosca na produção, conseguindo apresentar um álbum empolgante e divertido tendo como base um estilo nascido há praticamente meio século.

Mas talvez a grande sacada do Got a Girl tenha sido a leveza. Não me refiro ao som, mas à visão deles em relação a eles mesmos. Não é um projeto pretensioso, com grandes objetivos e ambições. Trata-se apenas de uma dupla fazendo um som que eles curtem, e nada mais. Os teasers do álbum, divulgados no canal Maker Music, são ótimos. Confira o exemplo abaixo e entre no canal para ver os outros!




Embora I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now talvez seja um pouco longo demais (poderia tranquilamente ter duas ou três faixas a menos), algumas das músicas são verdadeiramente memoráveis – temos aí Did We Live Too Fast, Close To You, Everywhere I go e There's a Revolution, que não me deixam mentir.

Um dos lançamentos mais empolgantes do ano até agora.

Tracklist:
1. Did We Live Too Fast
2. I'll Never Hold You Back
3. Close To You
4. Everywhere I Go
5. Last Stop
6. There's a Revolution
7. Things Will Never Be The Same
8. Put Your Head Down
9. Friday Night
10. La La La
11. Da Da Da
12. Heavenly

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Artista: Mike Patton; Álbum: Mondo Cane


Artista: Mike Patton

Álbum: Mondo Cane
Ano: 2010
Gênero: Música Popular Italiana

Certamente Mike Patton é a figura mais recorrente neste blog. Dos 32 discos já resenhados aqui, 6 tiveram a participação direta do vocalista - isso sem contar o Medúlla, da Bjork, onde ele gravou vozes para duas músicas, e todos os outros que conheci por intermédio de alguma de suas bandas.

Desta vez, porém, venho resenhar um disco que não é estranho por si próprio, mas as circunstâncias o tornam, no mínimo, peculiar.

Em 2007, a Itália foi palco do primeiro show do Mondo Cane, um projeto de Mike Patton junto com uma orquestra de mais de 30 músicos. Qualquer pessoa que conheça um pouco da carreira de Patton saberia que tudo poderia ser esperado: Mike já cantou em tantos discos de tantos estilos diferentes que chamá-lo de "eclético" é pouco. E sempre caminhando para o mais experimental possível.

Entretanto, a platéia que assistiu ao primeiro show do Mondo Cane não escutou nada pesado e frenético quanto o Fantômas, elaborado quanto o Mr. Bungle ou o Faith No More, sexy como o Lovage ou direto como o Tomahawk. A platéia viu um Mike interpretando clássicos da música italiana gravados nas décadas de 50 e 60.

Patton tem uma ligação muito forte com a Itália: foi casado com a artista italiana Titi Zuccatosta por 7 anos e tinha uma casa em Bologna. Fala italiano fluentemente e desde os tempos de Mr. Bungle já dava indícios de seu interesse pela música e cultura do país - basta escutar a faixa Violenza Domestica ou as versões que a banda fazia de músicas de compositores italiano em seus shows - como La Lucertolla ou Muscoli Di Velutto, de Ennio Morricone, ou mesmo 24.000 Baci, que ficou famosa na voz do "Elvis Italiano" Adriano Celentano.

Voltando ao Mondo Cane: o projeto só foi ao estúdio recentemente e o primeiro disco será lançado no dia 4 de Maio, pela Ipecac Records - selo do próprio Patton. Porém, a internet permite que a gente tenha acesso a muitas coisas que antes eram impossíveis, e consegui resenhar o disco com alguns dias de antecedência.

Eu já havia escutado a banda ao vivo e até baixado o vídeo de ótima qualidade de um show feito em Amsterdã em 2008. Foi amor à primeira vista. O repertório é impressionante, passando por momentos extremamente românticos - bregas, alguns diriam - como Ore D'Amore, L'Uomo Che Non Sapeva Amare e Senza Fine, jazzísticos como Che Notte, suaves como Deep Deep Down e Scalinatella e até frenéticos, como L'Urlo Negro. Entretanto, não havia um registro devidamente produzido destas canções com a orquestra. Pois bem, aqui está.

Mondo Cane, o álbum, é extremamente bem produzido e traz os melhores momentos do repertório que a banda costuma executar ao vivo (apesar de ótimos momentos, como Pine, Fucile et Ochiali e Yeeeeeeh! não terem entrado no disco). A voz de Patton está impecável como sempre.

Os arranjos são um show à parte. A faixa de abertura, Il Cielo In Una Stanza, difere bastante da versão original, do compositor Gino Paoli. Além do uso de guitarras, o andamento da música e a interpretação de Patton são grandes atrativos da releitura.

Em outros momentos, porém, o arranjo é praticamente igual ao original. É o caso de Che Notte!, originalmente gravada por Fred Buscaglione em 1959 e Ore D'Amore, famosa na voz de Fred Bongusto.

Além de ter um ótimo tracklist, o disco também vale como um ótimo lugar para buscar referências. Uma faixa que me chama muito a atenção é a pesadíssima L'Urlo Negro, gravada originalmente em 1967 pela banda de rock The Blackmen. Particularmente eu não esperava que existisse esse tipo de música no fim dos anos 60, e a versão do Mondo Cane é bastante fiel à original exceto por uns poucos efeitos: os gritos estão todos lá.

Outra faixa que merece destaque é a belissima Scalinatella, originalmente de Roberto Murolo. O andamento mais lento do Mondo Cane deu uma melancolia incrível à canção, deixando-a tão boa quanto a original.

Belíssimo disco.

Recomendadíssimo.

Tracklist (originais ao lado):
1. Il Cielo In Una Stanza (Gino Paoli)
2. Che Notte! (Fred Buscaglione)
3. Ore D'Amore (Fred Bongusto)
4. Deep Deep Down (Ennio Morricone)
5. Quello Che Conta (Luigi Tenco)
6. L'Urlo Negro (The Blackmen)
7. Scalinatella (Roberto Murolo)
8. L'Uomo Che Non Sapeva Amare (Nico Fidenco)
9. 20km Al Giorno (Nicola Arigliano)
10. Ti Offro Da Bere (Gianni Morandi)
11. Senza Fine (Gino Paoli)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Banda: Tomahawk; Álbum: Anonymous


Banda: Tomahawk
Álbum: Anonymous
Ano: 2007
Gênero: Metal Experimental; Música Indígena Norte-Americana

O Tomahawk foi fundado no ano 2000, justamente quando o Mr. Bungle terminou. Mike Patton e o guitarrista Duane Denison (ex-Jesus Lizard) começaram um intercâmbio de idéias musicais e juntamente com o baterista John Stanier (ex-Helmet) e com o baixista Kevin Rutmanis (ex-Melvins) fundaram a banda e lançaram o primeiro álbum auto-intitulado pelo selo da Ipecac Records (gravadora que Mike Patton fundou após o fim do Faith No More) em 2001. Dois anos mais tarde a banda lançaria "Mit Gas" e já tinha fãs fiéis (e não apenas saudosistas do tempo do Faith No More). Quatro anos depois de "Mit Gas", o Tomahawk lança seu trabalho mais audacioso, "Anonymous", e divide opiniões.

"Anonymous" é um álbum conceitual, tendo sido inteiramente baseado em músicas de índios nativos dos Estados Unidos. Além disso, é o primeiro álbum sem o baixista Kevin Rutmanis, que deixou a banda por motivos desconhecidos. Até aí, tudo bem. O problema para muitos fãs é que o Tomahawk era a única das inúmeras bandas de Mike Patton que fazia algo mais próximo do rock mais acessível e linear. Os demais trabalhos, como o Fantômas e o Moonchild, são repletos de experimentalismo e elementos de estilos como noise, grindcore e death metal, que definitivamente não agradam a todos os fãs de rock. E o novo álbum do Tomahawk tem experimentalismo de sobra.

A faixa de abertura ("War Song") traz um clima sombrio que poderia muito bem abrir um álbum do Fantômas, com direito a encerramento com sample de chuva. Mas os fãs do estilo dos dois álbuns ficarão realmente chocados a partir da segunda faixa, "Mescal Rites 1".

A música traz um ritmo completamente quebrado, com todos os instrumentos muito sincronizados e coesos. É extremamente sólida e pesada, mas nada linear ou tradicional. É discutível se a faixa poderia estar presente em um disco do Fantômas, mas é difícil contestar a qualidade da faixa.

"Ghost Song", a terceira faixa do disco, é mais calma e menos quebrada, trazendo um timbre totalmente diferente da guitarra de Denison e um Patton mais calmo. O álbum segue com "Red Fox" e "Cradle Song", as músicas que mais se aproximam dos álbuns anteriores do Tomahawk - mas ainda assim trazem uma banda inovadora e inquieta, sempre tentando incorporar algo de novo ao seu estilo.

A sexta faixa é a divertidíssima "Antelope Ceremony", com seu riff de guitarra grudento e as ótimas vocalizações de Patton. É seguida pela ótima "Song Of Victory", que traz novamente a voz acompanhando a melodia dos instrumentos - característica marcante da música indígena norte-americana.

"Omaha Dance" é viajante e lembra um pouco o Tomahawk da época do "Mit Gas". "Sun Dance" traz diversas variações rítmicas, mesclando peso e leveza.

"Mescal Rites 2" pouco tem a ver com a primeira: é uma música extremamente calma, lembrando uma trilha sonora, com uma percussão marcante e diversas vocalizações.

"Totem" parece um rito de preparação para uma batalha, com um ritmo bem marcado. "Crow Dance" é profunda, muito bem trabalhada e traz um Mike Patton extremamente versátil e elástico, capaz de mudar sua voz em uma fração de segundo. O álbum termina com uma faixa solo de Denison.

É um álbum extremamente criativo e provavelmente um dos melhores de 2007, com elementos nunca explorados antes pelo Tomahawk. A banda amadureceu e, apesar do desfalque de Kevin Rutmanis, conseguiu criar o melhor trabalho de sua carreira. Entretanto, os fãs mais conservadores vão torcer o nariz para os diversos momentos de experimentalismo deste álbum.


Tracklist:
1. War Song
2. Mescal Rite 1
3. Ghost Dance
4. Red Fox
5. Cradle Song
6. Antelope Ceremony
7. Song of Victory
8. Omaha Dance
9. Sun Dance
10. Mescal Rite 2
11. Totem
12. Crow Dance
13. Long, Long Weary Day

Recomendado.
Nota: esta resenha também está disponível no site Whiplash!

segunda-feira, 20 de março de 2006

Artista: Björk; Álbum: Medúlla



Artista: Björk
Álbum: Medúlla
Ano: 2004
Gênero: Avant-garde; acapella

O nome da figura é Björk Guðmundsdóttir. Ela é uma das 300 mil pessoas nascidas na remota ilha da Islândia, que fica entre a Groenlândia e a Noruega. Veio ao mundo em 21 de Novembro de 1965, e desde então recebeu infinitos rótulos. Seu primeiro lançamento aconteceu em 1977, quando a cantora tinha apenas 12 anos. Anos mais tarde, ela seria a principal figura da banda Sugarcubes, vindo a se tornar artista solo na década de 90.

O primeiro álbum solo da Björk é o ótimo Debut, que possui influência de pop, jazz, trip hop e outros gêneros. E embora o álbum tenha sido um sucesso, ela não se acomodou e inovou a cada álbum. Post apresentava variações incríveis, como a perfeita Hyperballad, que mistura música eletrônica de balada com violinos extremamente melódicos. Homogenic é tudo menos homogênico, contrastando a extremamente otimista Alarm Call com a caótica e furiosa Pluto. Vespertine é uma viagem sem precedentes, e então Björk ficou 4 anos sem lançar material novo.

Muita especulação se fez acerca de Medúlla, lançado em 2004. Era óbvio que ela estava tendendo ao minimalismo (Vespertine apresenta batidas extremamente delicadas, muitas imperceptíveis se não ouvidas com um fone de ouvido muito bom), mas quando ela anunciou que 99% dos sons ouvidos no álbum haviam sido produzidos sem instrumentos, ninguém sabia o que esperar.

Vários artistas foram convidados para participarem das gravações. Mike Patton, que já foi citado à exaustão neste blog, participa das faixas The Pleasure Is All Mine e Where Is The Line; Robert Wyatt, que já foi do Soft Machine, participa da faixa Submarine; a exótica "throat singer" (algo como cantora de garganta) esquimó Tagaq participa das faixas Ancestors e Mouth's Cradle; os beatboxes do álbum todo ficaram por conta do rapper Rahzel, que fazia parte da banda The Roots, e de Dokaka, um beatboxer japonês. É interessante notar que são músicos com diversos perfís. Conheço bastante o trabalho de Mike Patton, Rahzel e Dokaka, e são totalmente distintos.

Ao ouvir o CD, notamos que é diferente de tudo o que já foi feito por Björk. A faixa de abertura, a belíssima Pleasure Is All Mine, inicia com uma bela harmonia de vozes e, mais para frente, são as vozes que se transformam em plano de fundo, juntamente com o suave beatbox feito por Rahzel. O crescendo da canção causa arrepios e alguns gemidos vão surgindo, e ficamos com a impressão de que estamos ouvindo um coral de anjos fazendo sexo (se é que eles têm um).

Daí prá frente, temos faixas de todos os estilos. Show Me Forgiveness é um solo de Björk, mas a próxima faixa é extremamente sofisticada. Where Is The Line começa com Björk repetindo "Where is the line with you?", e logo ouvimos Mike Patton entrando com sua voz extremamente grave e, inesperadamente, uma avalanche de vozes e beatboxes preenchem a canção. O ritmo é incrível, quase primitivo, e é difícil não se surpreender.

Os grandes destaques do álbum são Who Is It (Carry My Joy On The Left, Carry My Pain On The Right), Submarine, Oceania, Ancestors, Mouth's Cradle e Triumph Of A Heart.

Who Is It foi o primeiro single, e apresenta uma deliciosa melodia e um refrão grudento. O beatbox feito por Rahzel impressiona pela perfeição. Submarine parece ter sido gravada por um coral de anjos de tão bela, com o silêncio sendo muito bem explorado. Oceania, o lindo bolero cantado por Björk na abertura dos jogos olímpicos de Sidney, tem a letra feita pelo poeta islandês Sjón. O ritmo com que o coral canta remete ao movimento das ondas do mar, numa incrível referência que independe da letra.

Ancestors é absurdamente experimental. Com um piano suave, Björk e Tagaq fazem harmonias totalmente excêntricas, com gemidos e sons guturais (afinal, como já foi citado, Tagaq é uma throat singer). Totalmente anti-convencional. Tagaq também participa de Mouth's Cradle, mas de um jeito totalmente diferente. Seus sons guturais funcionam quase como um beatbox, dando uma característica bem peculiar à música. E finalmente Triumph Of A Heart, com beatboxes de Rahzel e Dokaka. A música poderia tocar com facilidade em qualquer danceteria, mesmo sem ter qualquer elemento não-vocal. Os efeitos vocais de Dokaka são surpreendentes.

Tracklist:
1.
The Pleasure Is All Mine
2. Show Me Forgiveness
3. Where Is The Line

4. Vökuró
5. Öll Birtan
6. Who Is It (Carry My Joy On The Left, Carry My Pain On The Right)
7. Submarine
8. Desired Constellation
9. Oceania
10. Sonnets/Unrealities XI
11. Ancestors
12. Mouth's Cradle
13. Miðvikudags
14. Triumph Of A Heart

Recomendadíssimo do início ao fim.

Eis o clip de Oceania:

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Banda: Mr. Bungle; Álbum: California



Banda: Mr. Bungle
Álbum: California
Ano: 1999
Gênero: Avant-garde

Chegamos aqui à terceira e derradeira parte dos reviews dos álbuns do Mr. Bungle. Como toda trilogia, o final não é apenas um final; é um gran finale, inesperado e surpreendente.

Depois do incrível auto-intitulado debut (que mostrava uma banda criativa e competente) e do extremo Disco Volante, experimental ao extremo, o Mr. Bungle lança seu "álbum pop". Mas um álbum pop do Bungle é muito diferente de um álbum pop qualquer. Durante o review, você vai entender o porquê.

California foi lançado em 1999, ou seja, quatro anos após Disco Volante. Neste ínterim, tivemos o surgimento do trabalho paralelo de Trey Spruance (principal mentor), Trevor Dunn e Danny Heifetz, o Secret Chiefs 3, que mistura música árabe com surf music e drum 'n' bass. Além disso, tivemos o último lançamento do Faith No More, o ótimo Album Of The Year, de 1997. Infelizmente a banda iria acabar em 1998. Felizmente, isso abriu caminho para que Patton se dedicasse de corpo e alma a todos os seus projetos, como o Mr. Bungle e o Fantômas.

Mas porquê California é considerado o álbum pop do Mr. Bungle? Simples: os caras fizeram um álbum muito mais acessível, misturando elementos que fogem do padrão dos outros álbuns (por exemplo, o uso de cordas). Fazendo uma comparação totalmente absurda, este álbum seria o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band da música avantgarde, ou seja, o perfeito equilíbrio entre os elementos. Enquanto Disco Volante se mostrava absurdamente violento e brusco em suas mudanças, California encontrou o ponto G - mas sem perder a identidade.

Logo de início isso é perceptível. A faixa de abertura, Sweet Charity, traz guitarras havaianas, percussão e uma banda coesa. O refrão é extremamente amigável, até para quem não é acostumado às maluquices da música de vanguarda. E a música viaja por diversos padrões rítmicos de maneira natural, e não abrupta como nos trabalhos anteriores. E a letra é uma crítica às instituições de caridade (ou pelo menos a quem pratica caridade achando que, assim, muda o mundo).

A segunda música é um show à parte. None Of Them Knew They Were Robots é a maior música do álbum, com mais de 6 minutos. O instrumental mistura jazz, metal, rockabilly e surf music, e a letra (de Trey Spruance) uma crítica extremamente elaborada à sociedade pós-moderna (se é que ela existe). Entre as referências da letra, encontramos Santo Agostinho e Franklin. Frases em latim falando de Deus ("Deus absconditus, Deus nullus Deus, Deus nisi Deus", o que significa "Deus escondido, Deus nulo, Deus a não ser Deus") e as visões que a sociedade tem dele.

A lista "oficial" de influências do álbum é a seguinte: death metal, música cigana romena, surf, rockabilly, disco, músicas de cinema, hits dos anos 60, 70 e 80, Herbie Hancock's "Sextant," Peter Maxwell-Davies "Eight Songs for a Mad King," batuque de vudu, bandas brasileiras psicodélicas (!! - Patton gosta do trabalho de bandas como Mutantes e Secos e Molhados), e diversos instrumentos de teclas.

O humor fica explícito em músicas como The Air-Conditioned Nightmare. As mudanças de ritmo são bruscas, mas permanecem sob o mesmo tema. A música parece um pout pourri de Beach Boys. O começo melancólico, a mudança brusca para o "wop bop bop bop", muito semelhantes às da época "surf" dos garotos da praia. Enfim, é uma homenagem e tanto.

Algumas faixas poderiam tranqüilamente tocar em rádios e MTV. Retrovertigo é grudenta e bonita, com um refrão muito bem escrito. Pink Cigarette, com seu clima todo retrô, seria "comum" se não fosse a letra e o final inusitado.

Além das músicas já citadas, os outros três destaques do álbum na humilde opinião de quem vos escreve são os seguintes: Ars Moriendi, The Holy Filament e Goodbye Sober Day.

Ars Moriendi significa, em latim, "A Arte de Morrer". A música parece ter saído de alguma fronteira inexistente entre a Espanha e a Romênia, tamanha a perfeição com que os músicos misturam música flamenca com música cigana romena (com pitadas de música árabe). As mudanças de ritmo são deliciosas, passando de uma calma harmonia tipicamente espanhola para um frenesi cigano.

The Holy Filament parece uma trilha sonora de uma ida para o paraíso. Calma ao extremo, tem um trabalho vocal lindo. A letra é uma das mais criativas que eu já vi; "The legend of modernity: the phosphenes explode God's eternal strobe through the holy filament graven image". Linda.

Goodbye Sober Day é uma obra prima. É como se fosse uma mistura entre a tendência de California com as loucuras de Disco Volante. Na música você encontra de tudo: harmonias vocais, canto gregoriano, metal, música egípcia, tudo. Incrivelmente eclética.

Tracklist:
1. Sweet Charity
2. None Of Them Knew They Were Robots
3. Retrovertigo
4. The Air-Conditioned Nightmare
5. Ars Moriendi
6. Pink Cigarette
7. Golem II: The Bionic Vapour Boy
8. Holy Filament

9. Goodbye Sober Day

E assim termina a "odisséia Bungle". Depois deste trabalho, a banda saiu em turnê por um ano e ficou inativa. Trevor Dunn já afirmou várias vezes que a banda acabou, mas a esperança é a última que morre e eu realmente torço que, um dia, essa banda se reúna novamente e nos presenteie com mais trabalhos de qualidade.

Recomendadíssimo.

Eis um vídeo do Mr. Bungle executando a música Ars Moriendi ao vivo: