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quarta-feira, 4 de março de 2015

Artista: Shuggie Otis; Álbum: Inspiration Information

Artista: Shuggie Otis
Álbum: Inspiration Information
Ano: 1974
Gênero: Soul; R&B; Funk

Os anos 70 são, muito provavelmente, a minha década favorita na história da música contemporânea. É quase impossível ser justo ao apontar os principais álbuns e protagonistas, pois são tantos e de tantos estilos e lugares do mundo que é quase certo que alguém ficaria de fora. Só aqui no blog, já resenhei pelo menos uma dezena de álbuns setentistas dos mais diversos estilos e lugares (como Brasil, Portugal, Hungria e Turquia) e, ainda assim, sempre tem algum tesouro para ser descoberto.

Dito isso, falemos sobre o talentosíssimo Shuggie Otis. Nascido no final de 1953, é filho de Johnny Otis, um músico e empreendedor bastante importante na história do R&B (ele foi, por exemplo, o descobridor de Etta James e participou de uma porção de orquestras). Seu nome artístico é um diminutivo de sugar (açúcar), escolhido carinhosamente por sua mãe ainda em sua infância. Começou a tocar guitarra aos dois anos e aos doze já tocava na orquestra do pai, usando um bigode falso e óculos escuros para tocar até altas horas da noite.

Embora tivesse sido criado na escola do R&B e do jazz - tendo, inclsive, feito importantes contatos em decorrência da participação nas bandas do pai -, Shuggie começou a se interessar pelo cenário empolgante do final dos anos 60 (com bandas como Jimi Hendrix e Sly and the Family Stone) e isso influenciou muito sua carreira como guitarrista e seu relacionamento com a música.

Em 1969, com apenas 15 anos, foi convidado por Al Kooper (um dos fundadores do Blood, Sweat & Tears) para gravar um álbum colaborativo chamado Kooper Session. Ainda nessa época, participou do álbum Hot Rats, de Frank Zappa, gravando nada menos que o baixo de Peaches In Regalia, um dos trabalhos instrumentais mais famosos de Zappa.


Mas o debut de Shuggie como compositor, Here Comes Shuggie Otis, é bem diferente de seus trabalhos colaborativos. Gravado e lançado em 1970 (ele tinha, então, entre 16 e 17 anos), conta com a participação de diversos músicos convidados - entre eles, seu pai, que também foi muito ativo nos arranjos. É um belo disco que já previa o estilo de Shuggie: discreto, cuidadoso e intimista de certa maneira, destacando-se mais pelos detalhes e pela sutileza do que pela potência.

No ano seguinte, Shuggie lançou Freedom Flight, outro disco sensacional que traz um Shuggie mais maduro, tocando diversos instrumentos e seu primeiro hit, por assim dizer, chamado Strawberry Letter 23 - o "por assim dizer" é porque a música estouraria apenas 6 anos depois e em outra versão, produzida por Quincy Jones e executada pelos The Brothers Johnson. Mas voltando a Freedom Flight, o álbum foi notmente produzido em parceria comtem seu pai e traz uma influência palpável dos discos de rock psicodélico do final dos anos 60, principalmente na produção. Além disso, traz como colaboradores músicos importantíssimos, como George Duke (então tecladista na banda de Zappa) e Aynsley Dunbar (também integrante da banda de Zappa, além de ter tocado com David Bowie, Lou Reed, Whitesnake, Journey, entre outros!).

Mas a masterpiece  de Shuggie - e, curiosamente, seu canto do cisne - estava por vir. Após três anos de gravação, finalmente Inspiration Information ficou pronto. A demora foi extremamente desgastante para a relação entre o músico e a gravadora Epic, e há quem diga que isso queimou bastante o nome do músico no mercado, mas ela teve um motivo: a produção do disco e todos os instrumentos, exceto os arranjos orquestrais, foram gravados por Shuggie Otis (não foi o primeiro nem o último álbum gravado dessa maneira - aí estão McCartney, debut do ex-Beatle Paul McCartney, e o debut auto-intitulado do Foo Fighters que não me deixam mentir). Um feito incrível para um músico de sua idade, principalmente levando em conta a qualidade demonstrada na execução e nos arranjos.

O único single do álbum foi justamente a faixa que abre e dá nome ao mesmo. Inspiration Information tem uma abertura belíssima, com a guitarra base no wah-wah servindo de cenário para as vocalizações, teclado e guitarras em dueto - tudo tocado por ele mesmo, lembre-se. Quando a voz suave de Shuggie anuncia "we had a rainy day", o groove toma conta e carrega o ouvinte. O arranjo é inteligentíssimo, com suas guitarras sobrepostas, os backing vocals e o teclado, mantendo o ritmo dançante sem se afastar da elegância da melodia. Grande abertura.

A balada Island Letter tem um clima etéreo, com o drum machine analógico dando as caras e dando um toque moderno e de bolero ao mesmo tempo. Além disso, a guitarra pulsante ao fundo, as orquestrações entrando no momento certo e as longas passagens instrumentais contribuem para o clima de sonho desta ótima faixa.

Sparkle City, por sua vez, traz uma pegada muito mais Stevie Wonder, com uma levada muito mais acentuada e marcada da guitarra. A introdução dura mais de dois minutos e só então a voz de Shuggie entra, cool e macia, para nos lembrar de sua preferência pela sutileza. O arranjo poderia ser de alguma música mais lenta do Jamiroquai, e é muito provável que os membros da banda tenham tirado bastante inspiração de Inspiration Information, se é que o leitor me permite o trocadilho.


Uma das minhas preferidas é Aht Uh Mi Hed, uma grafia alternativa para out of my head. A exemplo de Island Letter, é uma balada trazendo o drum machine analógico, mas esta tem uma melodia um pouco mais melancólica e memorável. O final da canção é belíssimo, com a intensificação do arranjo e a entrada das cordas.

Happy House é um filler de pouco mais de um minuto do qual não há muito a ser dito, mas este não é o caso de Rainy Day. Uma linda demonstração das habilidades de Shuggie como guitarrista e compositor, com um arranjo delicadíssimo e influenciado por jazz. Ideal para ser ouvida na chuva, como ele mesmo indicou no título.

Talvez a mais experimental do álbum seja XL-30, com seu compasso incomum e seus efeitos sonoros sobre o teclado que, nesta música, funciona quase como um drone. Fantasmagórica e interessante, talvez seja a faixa que dê ao ouvinte a dimensão mais apropriada da versatilidade de Shuggie Otis.

Pling! é quase um ambient, com sua levada tranquila, as improvisações no teclado e o recorrente "pling" do drum machine. Relaxante ao extremo e peculiarmente bela.

A faixa que encerra o álbum é Not Available. A exemplo das três faixas anteriores, é instrumental e focada nos criativos arranjos de Shuggie, trazendo mudanças de andamento, harmonias interessantíssimas de guitarra e fechando Inspiration Information com chave de ouro.

O álbum chegou a aparecer discretamente na lista da Billboard na época do lançamento, mas rapidamente sumiu e ficou praticamente esquecido. Depois disso, Shuggie nunca mais conseguiu lançar um álbum pela Epic ou qualquer outra gravadora. Segundo ele mesmo, "eu nunca parei de fazer música, mas pararam de me gravar". Não fosse David Byrne, frontman do Talking Heads, resgatar o vinil e providenciar o relançamento de Inspiration Information em CD em 2001, seria muito mais complicado encontrar este álbum (apesar de artistas como Prince e Lenny Kravitz citarem-no como uma importante influência.

Em 2013, Otis e a Sony relançaram Inspiration Information como um álbum duplo, e Shuggie saiu em turnê para promover o lançamento. Seus shows foram um sucesso de público e crítica.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
1.  Inspiration Information
2. Island Letter
3. Sparkle City
4. Aht Uh Mi Hed
5. Happy House
6. Rainy Day
7. XL-30
8. Pling!
9. Not Available

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Banda: Sparks; Álbum: Kimono My House


Banda: Sparks
Álbum: Kimono My House
Ano: 1974
Gênero: Glam rock; pop

Finalmente uma resenha de um álbum que pode ser classificado, de certa forma, como glam rock, um gênero que é impiedosamente massacrado e confundido. Não tem como eu falar de Sparks e da história do rock and roll nos anos 70 sem explicar o que é esse estilo e quem são seus herois.

O glam rock é um estilo nascido na Inglaterra no comecinho dos anos 70. Musicalmente falando, é um rock and roll carregado de sensualidade e irreverência, e isso se reflete muito (e não há como frisar esse muito suficientemente) no visual das bandas. O visual, aliás, é uma das peças-chave do glam – termo que remete a glamour. Valia tudo: botas-plataforma, maquiagem, roupas brilhantes, cachecóis, permanentes, glitter e por aí vai.

É geralmente aceito que o glam rock nasceu quando uma banda chamada Tyranossaurus Rex, liderada pelo eterno Marc Bolan, mudou de nome para T. Rex, trocou os violões pelas guitarras elétricas e lançou o single Ride A White Swan em outubro de 1970. A música aos poucos ganhou as rádios britânicas e conquistou o público com sua batida simples, guitarra-chiclete e a voz peculiar de Bolan. Mas não há glam rock sem imagem, e o T. Rex realmente começou a fazer história a partir desta apresentação, na qual Bolan e a banda aparecem usando roupas brilhantes e glitter:





Em 1971 o T. Rex lançou o essencial Electric Warrior (praticamente a enciclopédia do glam rock), mas o auge do estilo foi, sem dúvidas, 1972, quando a banda de Bolan se consolidou com The Slider, o Roxy Music lançou seu debut auto-intitulado e principalmente quando David Bowie lançou seu inacreditável The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars.

Esse álbum foi essencial para a difusão do estilo além-Reino Unido. Bowie conquistou fama internacional e levou a febre do glam rock para os EUA, influenciando nomes como LouReed e Iggy Pop (basta ver as capas de Transformer e Raw Power para entender o que eu estou falando). Além disso, a abordagem de Bowie era mais criativa que a de seu amigo Bolan, levando o estilo a um patamar mais elevado - fãs de T. Rex, não me crucifiquem! Eu adoro a banda, mas se compararmos Bowie e Bolan de 1970 até 1977 esse ponto de vista se sustenta quase sem argumentação.

De qualquer maneira, tudo isso para chegar até o Sparks. A banda, liderada pelos irmãos Ron e Russell Mael, nasceu nos EUA em 1968 com o nome de Halfnelson. O estilo deles nessa época era próximo ao pop/rock psicodélico, e não demorou para que o produtor e músico Todd Rundgren (que também é deveras talentoso, tendo lançado álbuns ótimos como Something/Anything e A Wizard, A True Star) os descobrisse. Lançaram um álbum auto-intitulado que vendeu muito mal, mudaram o nome da banda para Sparks e lançaram o álbum A Woofer In Tweeter’s Clothing. Esse álbum rendeu a eles uma turnê pela Inglaterra e uma apresentação na BBC na qual o apresentador Bob Harris os classificou como “uma mistura entre os Mothers Of Invention (banda de Frank Zappa) e The Monkees.

Em 1973, o Sparks se mudou de vez para a Inglaterra a convite da gravadora Island Records. Os irmãos aceitaram e mudaram-se para Londres, mesmo sem ter nenhuma música nova.

Esse problema seria resolvido durante o verão por Ron. Com um piano e um violão, ele compôs um conjunto de músicas com um padrão de qualidade nunca antes atingido pela banda – as músicas que estariam em Kimono My House.  As músicas incorporavam elementos interessantíssimos, como música clássica e rock – algo que não era tão apreciado nos EUA, mas que fazia um sucesso enorme no Reino Unido; eles chegaram a se apresentar para uma plateia de seis pessoas nos EUA, mas lotavam as casas de shows em Londres.

Além das composições únicas, a banda se destacava pela presença de palco interessantíssima: enquanto o vocalista Russell Mael era extravagante e hiperativo, dando pulinhos e fazendo caras e bocas, seu irmão Ron era o oposto, com uma expressão fixa, vestido com roupas sociais e seu bigodinho à-lá Hitler. Falemos, enfim, de Kimono My House.

Lançado em 1974, trata-se do primeiro álbum da banda na Inglaterra. Foi muitíssimo bem sucedido em muitos sentidos, e é certamente o álbum mais importante do Sparks – Kurt Cobain, o falecido frontman do Nirvana, e Morrissey, ex-frontman dos Smiths, citam este álbum em sua lista de favoritos – o último chegou a escrever uma carta para os irmãos Mael para agradecê-los por terem despertado seu interesse por música com Kimono My House. O que é sensacional sobre este álbum é que as músicas são incrivelmente extravagantes e urgentes ao mesmo tempo. Os ritmos e melodias são muito, mas muito inquietantes – no bom sentido. Algumas pessoas chegam a definir o estilo deles como um derivado do camp humour – um tipo de humor que é engraçado justamente porque é deliberadamente extravagante e ridículo.

Antes de falar das músicas, vou falar de outra parte do álbum que merece destaque: a capa. Sem nenhuma indicação na frente do nome da banda ou do álbum, traz apenas a foto de duas mulheres japonesas vestidas em trajes tradicionais (kimono) na frente de uma parede verde. Desafiador e muito incomum, até para os dias de hoje.

A faixa de abertura é talvez a música mais conhecida da banda: This Town Ain’t Big Enough For Both Of Us. Peculiaríssima, a música mostra bem o estilo do Sparks nesse álbum: dominado pelos teclados de Ron, com os únicos e agudos vocais de Russell em seu estilo operático cantando letras surreais e engraçadas. Começa com um teclado quieto, mas logo a voz e os riffs geniais da guitarra de Adrian Fisher, a bateria furiosa de Dinky Diamond e o baixo sólido de Martin Gordon dão um peso incrível a essa faixa memorável, que chegou a ocupar o segundo lugar nas paradas britânicas. Perfeita abertura para o álbum.



Amateur Hour começa com um riff frenético que tem a cara do Sparks. Frenética, foi o segundo single do álbum e alcançou o sétimo lugar nas paradas. A letra é um sarro e fala sobre como se deve treinar na prática sexual para se tornar um “profissional” – e que “ela vai fazer você perceber” quando você chegar lá. Os teclados de Ron e a bateria de Diamond são o grande destaque dessa faixa para mim.

Falling In Love With Myself Again é uma faixa esquisitíssima. É uma valsa meio dark, pesada, e com um toque daquelas canções tradicionais alemãs. Algumas passagens instrumentais são muito bem executadas e originais, com apenas o teclado, baixo e bateria levando a música. A parte em que a guitarra “pergunta” e o baixo “responde” é um show à parte.

Here In Heaven é espetacular. A melodia é belíssima e pesada ao mesmo tempo. A letra é um show à parte: fala de um garoto apaixonado que havia combinado de se suicidar junto com a namorada, mas na hora H apenas ele se matou. No fim, ele se encontra sozinho no paraíso sem ela. Tragicômica ao extremo, criativa e bonita.

Thank God It’s Not Christmas pode ser resumida em seu refrão: “Thank God it’s not Christmas, when there is only you and nothing else to do” – ou “Graças a Deus não é Natal, quando só tem você e nada mais para fazer”. Sensacional, novamente com uma melodia sombria e engraçada ao mesmo tempo, do jeito que só o Sparks consegue fazer. Os teclados dão um tom muito grandioso à música, principalmenten o refrão. Bela faixa.

Apesar da guitarra ser um instrumento “secundário” no Sparks, o talento do guitarrista consegue fazê-la sobressair em diversos pontos do álbum. Hasta Mañana, Monsieur começa com um teclado calmo, mas logo a música acelera e a guitarra de Fisher rouba a cena com riffs interessantíssimos. A letra fala sobre um rapaz tentando impressionar uma garota alemã falando uma mistura de inglês, francês e espanhol – como se fosse uma Michelle, dos Beatles, levada ao extremo do divertido.

Talent Is An Asset é uma das minhas preferidas do álbum. Abre com a batida direta e seca de Diamond e é uma pedrada do início ao fim, com algumas quebras rítmicas e melodias típicas do Sparks. Uma das faixas mais claramente influenciadas pelo glam rock, traz uma letra que fala de Albert Einstein. Foi lançada como single nos EUA, mas fracassou – lembre-se que o Sparks, apesar de estadunidense, estourou primeiro no Reino Unido. O refrão “Talent is an asset, you’ve got to understand that” (Talento é uma qualidade, você precisa entender isso), cantado em falsete por Russell, fica na cabeça.

Complaints foi descrita por Ron como “três minutos de reclamações”. Mas a música é muito mais que isso; um glam pop grudento, com uma melodia criativa e um quê de punk rock, mostrando como o Sparks é bem sucedido em misturar estilos.

In My Family é uma das faixas que menos me chamou a atenção até eu reparar na letra sensacional, que fala sobre empresas e negócios familiares. Em certo momento, o narrador afirma que vai se enforcar na árvore genealógica. Sensacional, apesar de não se destacar tanto assim das outras.

O álbum fecha com Equator, um quase-blues cantado em um falsete extremamente agudo. A palavra equator vai ficar na sua cabeça por horas após ouvir essa música, que termina com uma longa improvisação vocal de Russell. Brilhante, triste e engraçada ao mesmo tempo.

Kimono My House é um álbum muito peculiar. Tem um estilo muito bem definido e único, muitíssimo criativo e é praticamente uma aberração até hoje. Vale muito a pena escutar.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. This Town Ain't Big Enough for Both of Us
  2. Amateur Hour
  3. Falling In Love With Myself Again
  4. Here In Heaven
  5. Thank God It's Not Christmas
  6. Hasta Mañana, Monsieur
  7. Talent Is An Asset
  8. Complaints
  9. In My Family
  10. Equator

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Banda: Blood, Sweat & Tears; Álbum: Blood, Sweat & Tears



Banda: Blood, Sweat & Tears
Álbum: Blood, Sweat & Tears
Ano: 1968
Gênero: Rock; Jazz Fusion; Soul; Blues

O Blood, Sweat & Tears é uma banda que toca música. Pode parecer uma incrível redundância, mas se pensarmos que temos bandas de rock, bandas de jazz, bandas de pagode, reggae etc, classificar de maneira tão generalizada o estilo de uma banda é algo que chama a atenção.

Formada em 1967 em Nova York, EUA, o Blood Sweat & Tears nasceu em meio a tudo de incrível que aconteceu nos anos 60 e parece ter assimilado um pouco de tudo no seu som. Tudo bem que isso parecia ser o padrão das bandas memoráveis que surgiram nessa época, mas algumas coisas diferenciam o BS&T (como costumam abreviar).

Primeiro, e é uma coisa que eu acho muito interessante, é a maneira como eles apresentam a mescla de rock e jazz dentro das músicas. Enquanto muitas bandas de jazz fusion - como a carreira do Miles Davis a partir do In A Silent Way ou o grande Herbie Hancock, por exemplo - focam muito mais nas improvisações e demonstração de virtuosismo, o BS&T trazia na maioria de suas músicas uma estrutura mais acessível, que bebia da fonte do rock e do blues.

O destaque dado pelo BS&T aos metais também merece ser diferenciado. Se aproxima muito do funk, com um quê de big band. E todos músicos assaz competentes, e isso merece ser dito.

O debut do BS&T foi o ótimo, porém mais experimental, Child Is The Father Of The Man, de 1968. Nessa altura, a banda contava com Randy Brecker (trompete e fliscorne), Bobby Colomby (bateria, percussão, voz), Jim Fielder (baixo, baixo fretless), Dick Halligan (trombone), Steve Katz (guitarra, alaúde), Al Kooper (órgão, piano, ondiolino, voz principal), Fred Lipsius (piano, saxofone alto) e finalmente Jerry Weiss (trompete, fliscorne e voz), além de vários outros músicos de estúdio. Talvez estes nomes não sejam muito conhecidos pelo grande público, mas bandas em que os músicos acima citados tocaram incluem o Mothers Of Invention (do grande Frank Zappa), Buffalo Springfield (do grande Neil Young), Bob Dylan e Jimi Hendrix (não preciso nem dizer o quão grandes estes são).

O disco foi um sucesso, mas a banda queria um vocalista mais forte que Al Kooper (que respondia como líder da banda). Sugeriram que ele ficasse exclusivamente no teclado, mas ele acabou saindo do grupo.

Vários nomes foram cogitados para substituir Kooper, entre eles Stephen Stills (Crosby, Stills & Nash) e Laura Nyro (sim, vocês já viram este nome por aqui), mas quem acabou ficando com a vaga foi o cantor anglo-canadense David Clayton-Thomas. A voz de Clayton-Thomas havia chamado a atenção de uma amiga do conjunto, a cantora Judy Collins, e ela convidou Katz e Colomby para vê-lo cantar em um bar em Nova York. Ele ganhou a vaga instantaneamente. Dick Halligan assumiu o órgão e o piano e dois novos membros entraram: Lew Soloff (trompete, fliscorne) e Chuck Winfield (trompete) entraram no lugar de Brecker e Weiss, que também saíram logo após o primeiro álbum.
E foi no meio dessa mudança de formação que nasceu o álbum aqui resenhado.

Blood, Sweat & Tears é o segundo álbum da banda e foi lançado no fim de 1968. A proposta foi fazer um álbum mais acessível que seu sucessor, e desta vez mesclava mais covers às composições dos integrantes. Além disso, é um dos primeiros álbuns da história a ser gravado em 16 canais, uma tecnologia que pouquíssimos estúdios da época podiam desfrutar.

O conjunto entrou no CBS Studio em Nova York no começo de Agosto de 1968 para gravar um álbum memorável.

Curiosamente, a abertura do álbum é completamente diferente de tudo o que descrevi até agora neste post. Variations On A Theme By Erik Satie (1st and 2nd Movements) é uma versão de uma composição instrumental de, como o nome sugere, Erik Satie, um pianista e compositor francês nascido do século XIX. Um movimento arriscadíssimo, pois a música é lenta e tristíssima por mais de um minuto, explodindo grandiosamente em seguida em uma orquestra desafiadora, lembrando a trilha sonora de alguma abertura de algum filme de guerra dos anos 20.

Mas é na segunda faixa, Smiling Phases, que o BS&T mostra a que realmente veio. É uma das melhores do disco. A voz rasgada e swingada de David Clayton-Thomas chama o ouvinte para dançar nesta belíssima faixa composta originalmente pelo Traffic. Os metais e os teclados dominam o arranjo, que recebeu uma roupagem completamente nova em todos os detalhes. O solo de piano de Halligan é arrebatador.

Sometimes In Winter é uma composição de Steve Katz, e ele mesmo canta esta belíssima faixa. Bem mais calma que a anterior, traz um belo arranjo de flauta (tocada por Halligan) e uma letra triste. Gosto muito do contraste entre o clímax da orquestra e a voz doce de Katz logo em seguida, lamentando: "Now you're gone, girl...". Belíssima.

A introdução de More and More poderia ter saído de uma música de James Brown. Os metais e a voz de negão de Clayton-Thomas formam um casamento perfeito. Bem nos moldes de Smiling Phases, com um refrão marcante e destaque para o entrosamento de Fielder e Colomby na cozinha.

Em seguida o BS&T faz um cover de And When I Die, de Laura Nyro (detalhe: composta quando a moça tinha 18 anos). A versão original já trazia muitas características compatíveis com o estilo do BS&T: metais, swing e execução impecável. Mas a versão da banda trouxe um novo tempero à música, mais jazz com um leve toque de bluegrass e o tempero de big band já característico. Uma belíssima interpretação, mais um destaque do álbum.

Falando em jazz, o álbum segue com uma belíssima releitura de God Bless The Child, da eterna Billie Holiday. Clayton-Thomas mostra sua versatilidade, transitando do jazz/rock ao soul com extrema facilidade. Temos até uma breve passagem por uma salsa/jazz, que inesperadamente retorna ao soul com a mesma naturalidade que desviou dele. Sensacional.

Spinning Wheel é uma composição de Clayton-Thomas e certamente uma das faixas mais rock and roll do álbum. O feeling da canção e a própria voz do cantor lembram Joe Cocker, com direito a um break de jazz e a incríveis variações no arranjo no decorrer da música. Começamos com rock e terminamos imaginando menestréis dançando na floresta.

You've Made Me So Very Happy é um R&B que havia sido lançado no ano anterior na voz de Brenda Holloway, mas acabou se tornando um dos maiores hits do álbum do BS&T. Novamente temos swing, metais e a performance impecável da banda. Interessante notar como o arranjo do Blood, Sweat & Tears enriqueceu a canção.

Blues - Part II é uma música de mais de 10 minutos (!) que traz referências a Sunshine Of Your Love, do Cream, e a Spoonful, do blueseiro Willie Dixon. Sei que estou ficando redundante, mas tudo é executado exatamente da maneira que deveria ser. É um banquete auditivo.
E quando menos se espera, o álbum reprisa a primeira faixa para anunciar seu fim.

É um álbum que fez muito sucesso em sua época, mas que as gerações mais novas (eu incluso) desconhecem. Esta pérola merece ser ouvida por todos.
Ah, e este disco ganhou o Grammy em 1969, desbancando nada mais, nada menos, que o lendário Abbey Road, dos Beatles.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. "Variations on a Theme By Erik Satie" (1st and 2nd Movements) – 2:35
  2. "Smiling Phases" (Steve Winwood, Jim Capaldi, Chris Wood) – 5:11
  3. "Sometimes in Winter" (Steve Katz) – 3:09
  4. "More and More" (Vee Pee Smith, Don Juan) – 3:04
  5. "And When I Die" (Laura Nyro) – 4:06
  6. "God Bless the Child" (Billie Holiday, Arthur Herzog Jr.) – 5:55
  7. "Spinning Wheel" (David Clayton-Thomas) – 4:08
  8. "You've Made Me So Very Happy" (Berry Gordy Jr., Brenda Holloway, Patrice Holloway, Frank Wilson) – 4:19
  9. "Blues – Part II" (Blood, Sweat & Tears) – 11:44
  10. "Variations on a Theme By Erik Satie" (1st Movement) – 1:49

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Artista: Frank Zappa; Álbum: Apostrophe (')


Artista: Frank Zappa
Álbum: Apostrophe (‘)
Ano: 1974
Gênero: Avant-garde; rock experimental

Após um longuíssimo hiato, aqui estamos novamente para falar de mais uma pérola da música dita "estranha e boa". E bota boa nisso.

Frank Vincent Zappa nasceu no dia 21 de dezembro de 1940, nos Estados Unidos. Desde cedo demonstrou grande interesse por música clássica de compositores vanguardistas, como Stravinsky, além de grupos de doo-wop e jazz moderno. Durante os anos 60, montou sua primeira banda, os Mothers Of Invention. O primeiro álbum dos Mothers foi o duplo Freak Out!, de 1966, e é considerado um marco por seu experimentalismo e ousadia. Vale a pena lembrar que foi lançado um ano antes do clássico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e certamente trouxe mais inovações estéticas que o álbum dos Fab Four.

A genialidade de Zappa foi se manifestando com mais força a cada disco, e logo ficou óbvio que os Mothers estavam funcionando apenas como uma banda de apoio que tocava as músicas de Zappa. Os créditos dos álbuns deixavam essa relação explícita, passando a ser lançados como Frank Zappa and the Mothers of Invention ou simplesmente Zappa/Mothers. A banda passou por diversas formações.

Zappa é notório por sua imensa produtividade. Para se ter uma idéia, o álbum que será tratado aqui nesta resenha foi lançado em 1974, oito após o debut, e foi o décimo sétimo (!) a ser lançado pelo guitarrista/cantor/compositor. A discografia completa de Zappa, sem contar os discos póstumos, conta com 57 discos em menos de 30 anos de produtividade.

Voltando ao assunto, o último disco que Zappa lançou com os Mothers foi One Size Fits All, de 1975. Mas alguns discos antes deste trazem apenas seu nome na capa. É o caso de Apostrophe ('), lançado em 1974.

Explicar o estilo de Frank Zappa para alguém que nunca o tenha escutado é uma tarefa muito, muito complicada. Sua música é uma mistura de muitas coisas, passando pelo rock and roll, música clássica, humor, doo wop, blues, a famigerada world music, enfim; é um saco de gato. Suas letras são muito bem humoradas, muitas vezes tolas, ofensivas ou simplesmente sem sentido, trazendo críticas à política, religião, estereótipos e costumes, ou simplesmente contando histórias bizarras.

No caso de Apostrophe ('), as primeiras quatro músicas enganam o ouvinte, pois guiam o álbum a um caminho conceitual que acaba não se desenvolvendo além destas faixas. Em Don't Eat The Yellow Snow, a faixa de abertura, Frank conta sobre um sonho que teve no qual era um esquimó chamado Nanook. Sua mãe o alertava para que não comesse a neve amarela que ficava aonde os huskies iam (watch out where the huskies go/and don't you eat that yellow snow), ou seja, a neve onde os cães urinavam. Tudo isso em uma música esquisita, em um tempo quebrado (7/4).

Eis que em Nanook Rubs It, a segunda faixa, Nanook sai de seu iglu e encontra um comerciante de peles matando sua foca preferida com uma bota cheia de chumbo (with a lead-filled snowshoe). Raivoso, Nanook esfrega a neve amarela nos olhos do comerciante, cegando-o. Eis que o comerciante se lembra de uma lenda que dizia que, caso alguém ficasse cego em decorrência de um ataque de alguém chamado Nanook, deveria buscar auxílio na paróquia de Santo Alfonso (St. Alfonzo).

A música seguinte, que começa com um incrível solo de xilofone da percussionista Ruth Underwood, descreve a paróquia de St. Alfonzo, onde ocorre um desjejum com panquecas e um bingo, e também a presença de uma mulher masoquista.

Eis que Zappa descreve o Padre O'Blivion (que pode ser traduzido como "esquecimento"), um padre que é masturbado por um leprechaun e se torna um maníaco sexual. Eis que, no fim da música, uma tentativa intencionalmente frustrada de retomar o início da história aparece, como se o comerciante de peles fosse o próprio Padre O'Blivion (Good morning, your highness/ooo-ooo/I brought you your snowshoes/ooo-ooo...).

A música seguinte é um dos pontos altos não apenas do disco, mas da carreira de Frank. Cosmik Debris é um blues zappiano que conta a história de um charlatão que tenta convencer o protagonista a comprar "sucatas cósmicas", argumentando que elas farão coisas incríveis, inclusive "curar sua asma". No fim, quem acaba sendo enganado é o charlatão. Destaque para as vozes femininas no refrão.

Excentrifugal Forz se trata de uma música pouco expressiva, com uma letra maluca e sem sentido algum. Apostrophe' é uma faixa instrumental com solos de guitarra extremamente distorcidos. Muda pouco de ritmo, mas é uma grande demonstração de habilidade dos músicos da banda.

A belíssima Uncle Remus, com a marcante introdução ao piano de George Duke, traz uma letra bem zappiana que trata, aparentemente, de racismo. "Não posso esperar até que meu black-power esteja grande/(...) irei derrubar os jóqueis de suas selas" (Can't wait till my fro is full grown/(...) I'll be knocking the jockeys off the lawn). A faixa é deslocada do resto do repertório de Zappa, mas é uma música belíssima.

A faixa de encerramento é Stink-Foot, com uma letra sobre chulé e outras coisas das quais dificilmente alguém além de Frank Zappa retrataria em uma música. A percussão aqui é de grande destaque.

Confesso ao leitor que é difícil precisar quem toca o quê em cada faixa devido à enorme quantidade de músicos envolvidos. Os créditos dos músicos são os seguintes:

Frank Zappa - voz, guitarra, baixo e bouzouki
Lynn – voz, backing vocals
Kerry McNabb – backing vocals
Ian Underwood - saxofone
Ruth Underwood - percussão
Sal Marquez – trompete
Sue Glover – backing vocals
Jim Gordon – bateria
Aynsley Dunbar – bateria
Tom Fowler – baixo
Napoleon Murphy Brock – saxofone, backing vocals
Robert “Frog” Camarena – voz, backing vocals
Ruben Ladron de Guevara – voz, backing vocals
Debbie – voz, backing vocals
Tony Duran – guitarra
Erroneous – baixo
Johnny Guerin – bateria
Ralph Humphrey – bateria
Jack Bruce – baixo em “Apostrophe”
George Duke – teclado, backing vocals
Bruce Fowler – trombone
Jean-Luc Ponty – violino

Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. Don't Eat The Yellow Snow
2. Nanook Rubs It
3. St. Alphonzo's Pancake Breakfast
4. Father O'Blivion
5. Cosmik Debris
6. Excentrifugal Forz
7. Apostrophe
8. Uncle Remus
9. Stink-Foot

Abaixo, um vídeo de Cosmik Debris ao vivo em 1974.