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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Artista: Benjamin Clementine; EP: Cornerstone



Artista: Benjamin Clementine
EP: Cornerstone
Ano: 2013
Gênero: R&B, Jazz

Em uma estação de metrô de Paris, um rapaz inglês ganhava a vida como busker, que em sua língua natal significa "aqueles músicos de rua que tocam por alguns trocados". Ele não havia exatamente escolhido estar ali; fora o acaso. Londres não guardava nada pra ele, na verdade. Ela não o queria – nem ele nem seus outros quatro irmãos mais velhos, ou seus pais, descendentes de imigrantes ganeses, que tinham "empregos de negros", como ele mesmo define com ironia.

Embora falemos de "irmãos" e "pais", ele não teve uma família, na verdade. Tudo na pequena casa ao norte de Londres era pesado. Regras demais. Quase nada de televisão, quase nada de interação entre os irmãos e, para piorar, as companhias na escola não o agradavam. Só lhe restavam os livros, que devorava com voracidade, e um velho teclado que seu irmão mais velho Joseph havia comprado e nunca havia usado. Mas seu interesse por música aflorou apenas aos 15 ou 16 anos, quando viu uma performance do cantor inglês Antony Hegarty. De repente, o velho teclado de seu irmão ficou atraente, e ele passou a tirar de ouvido composições clássicas que ouvia na estação de música clássica de seu rádio.

Quando tinha 17 anos, não aguentou mais a situação em sua casa e resolveu que era hora de partir. Colocou algumas roupas em uma mochila, entrou em uma lan house, acessou o site de compras de passagens aéreas easyJet e selecionou a primeira opção, ao acaso: Paris. Chegou sem um tostão e sem nenhum vínculo com sua cidade de origem. Jogou o telefone no lixo, pois ninguém iria ligar. Começou a dormir de favor em igrejas e garagens, mesmo sem falar uma palavra de francês, e se sustentava cantando sem acompanhamento pelas estações de metrô da capital da França. Em oito meses, conseguiu comprar um violão, que aprendeu a tocar sozinho.

 E assim Benjamin Clementine chegou à primeira linha deste post.

Eventualmente, ele seria "descoberto" por dois produtores franceses – Lionel Bensemoun e Matthieu Gazier –, que conseguiram marcar algumas apresentações para Benjamin em hotéis e muquifos parisienses. As pessoas se interessaram por aquela figura de quase dois metros, olhar triste e talento fantástico, e logo ele gravaria seu primeiro EP: Cornerstone, aqui resenhado.

É difícil acreditar, mas o talento de Benjamin é ainda mais incrível que sua história. A faixa de abertura, Cornerstone, começa com arpejos ao piano, o único instrumento além da voz do músico de 25 anos. Após uma rápida introdução, a voz grave e profunda anuncia: "I'm alone in a box of stone" (estou sozinho em uma caixa de pedra), reflexo de toda sua vida solitária. Sua performance não deixa nada a desejar para nomes do calibre de Nina Simone, e olhe que isso é uma afirmação muito complicada de se fazer. O refrão emocionante e seus quase suspiros de "home, home, home, home..." têm em si uma carga emocional muito forte.



I Won't Complain traz uma bela melodia, tocada com virtuosismo, e uma letra de certa maneira otimista, que contempla um dia em que os dias bons voltarão. As letras de Clementine, aliás, são absolutamente pessoais, e talvez isso seja parte fundamental de suas performances tão energéticas. Os movimentos da música, os crescendos e as pausas rasgadas por sua voz gritando "but I won't complain" são sensacionais.

O EP encerra com London, que traz uma letra enigmática e um contraste interessantíssimo entre o verso mais ameno e o refrão explosivo, em que Benjamin solta a voz e acelera o ritmo em seu piano. E a música termina com a emblemática frase "when my ways are not happening, I won't underestimate who I am capable of becoming", que quer dizer "quando meus caminhos não estiverem dando certo, não vou subestimar quem sou capaz de me tornar". 

Ainda não há uma previsão exata para o lançamento do primeiro álbum de Benjamin Clementine, mas as músicas e os músicos (sim, terão outros músicos) já existem. E, se o álbum seguir os passos deste EP incrivelmente promissor, teremos um prato cheio.

Tracklist:
1. Cornestone
2. I Won't Complain
3. London

Abaixo, Benjamin toca algumas de suas canções, incluindo as do EP, em um pocket show feito exclusivamente para o Deezer:


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Artista: Gil Scott-Heron/Brian Jackson; Álbum: Winter In America


Artista: Gil Scott-Heron/Brian Jackson
Álbum: Winter In America
Ano: 1974
Gênero: Soul; Jazz-Fusion; Spoken Word

Bem-vindos ao primeiro post de 2012 aqui no Música Estranha e Boa!

O álbum que irei resenhar é um álbum colaborativo feito por dois músicos muitíssimo competentes, então nada mais justo do que eu explicar um pouco quem são eles, como acabaram se juntando e, então, falar deste disco maravilhoso chamado Winter In America.

Gil Scott-Heron nasceu em 1949 em Chicago e faleceu em 2011, com apenas 62 anos de idade. Filho de uma cantora de ópera e de um jogador de futebol, Scott-Heron teve uma infância complicada, mudando constantemente de casa devido ao divórcio dos pais e à morte da avó. Sempre foi muito talentoso, e um de seus textos impressionou o diretor de uma escola majoritariamente branca dos EUA, e graças a isso ele ganhou uma bolsa integral para estudar lá – detalhe que ele tinha apenas 12 anos na época e era um dos 5 alunos negros em toda a escola. Durante sua entrevista de admissão, o seguinte diálogo teria ocorrido:

-Como você se sentiria se, ao subir o morro a pé depois de sair do metrô para vir para a escola, visse um de seus colegas chegando de limusine?
-Da mesma maneira que você. Você não tem dinheiro para comprar uma limusine. Como você se sente?

O tempo passou e o promissor aluno entrou na Lincoln University, concluindo inclusive um mestrado em Creative Writing (escrita criativa) em 1972. Durante a faculdade ele conheceu seu parceiro em diversos álbuns, inclusive o aqui resenhado. Seu parceiro se chama Brian Jackson.

Jackson nasceu em 1952 no Brooklyn, EUA. Seu estilo único ao piano é inconfundível, e ele já foi muito sampleado por diversos rappers de diversas gerações. Seu nome passou a ser muito vinculado ao de Gil Scott-Heron durante os anos 70, o período mais produtivo e significante da carreira de ambos os músicos.

O primeiro álbum que os dois lançaram juntos, apesar de ser creditado na capa apenas à Scott-Heron, foi o aclamadíssimo Pieces Of A Man, de 1971. Este álbum trazia um dos trabalhos mais reconhecidos e importantes de Scott-Heron, a canção The Revolution Will Not Be Televised – um trabalho que ele estimava tanto que também havia estado também em seu álbum anterior, Small Talk At 125th and Lenox. Esta canção é a marca registrada do artista porque traz seu tema preferido – política, mais especificamente a situação do negro estadunidense – sendo executado em seu estilo mais característico – o spoken word soul, um tipo de “avô” do rap que traz poesias, geralmente de cunho social, recitadas ritmicamente sobre um pano de fundo musical, geralmente  calcado no soul e no funk.

Mas Winter In America não é um disco de spoken word. Ele é muito mais que isso. Trata-se de uma viagem minimalista incrivelmente tocante, executada por músicos gabaritadíssimos.

Eu me lembro exatamente minha reação ao ouvir a voz de Gil Scott-Heron pela primeira vez. Eu falei exatamente isso:

-Puta que pariu, que voz é essa?

Ah, a voz de Gil Scott-Heron. Limpa, cristalina, grave na intensidade certa, com feeling. É realmente impressionante, ainda mais quando nos é apresentada em uma música tão bonita e tocante quanto Peace Go With You, Brother (As-Salaam-Alaikum). Trata-se de um desabafo sobre alguns representantes negros que estavam perdendo o foco e agindo de maneira hipócrita ou inadequada aos olhos de Scott-Heron. A melodia tocada por Jackson no piano elétrico somada à interpretação e aos versos nos entregam uma das melhores faixas do álbum logo de cara. Apenas para ilustrar, eis alguns versos:

Peace to you, brother – don’t seem to matter so much now just what I say
Peace go with you, brother – you’re the kind of man who think he’s got to have his own way
You’re my father, you’re my uncle and my cousin and my son
But sometimes, sometimes, I wish you were not”

Ou seja:

Paz para você, irmão – não parece que o que eu falo importa tanto agora
Que a paz vá com você, irmão – você é o tipo de homem que acha que deve seguir seu próprio caminho
Você é meu pai, você é meu tio e meu primo e meu filho
Mas às vezes, às vezes, eu queria que você não fosse”

Outra coisa que chama muito a atenção na música é como ela é guiada principalmente pelo piano e pelo baixo, com a bateria dando apenas alguns leves toques no prato de condução.

A segunda faixa é a longa Rivers Of My Fathers, uma música sobre a procura do homem negro moderno por suas origens, sobre seus questionamentos e preocupações. A levada da música é bem suave, com a bateria levando calmamente a música no aro da caixa e o piano de Jackson sempre bebendo da fonte do jazz. Na letra, o narrador sempre fala de “casa”, e apenas no final Scott-Heron deixa claro, em um sussurro, o que quer dizer: Africa. Tocante e bela.

A Very Precious Time é uma triste e bela canção de amor com uma letra nostálgica sobre inocência perdida. Após uma introdução com piano elétrico e flauta, Gil Scott-Heron canta melancolicamente:

Was there a touch of spring?
Did she have a pink dress on?
And when she smiled her shyest smile, could you almost touch the warmth?
And was it your first love a very precious time?”

Em português:

“Havia um toque de primavera?
Ela estava com um vestido rosa?
E quando ela sorriu seu sorriso mais tímido, você quase pôde tocar o calor?
E o seu primeiro amor foi um momento muito precioso?”

A música não tem nenhuma percussão, e isso dá um tom ainda mais triste e belo para esta belíssima canção.

Back Home, por sua vez, é bem mais animada, falando sobre a importância de nunca se esquecer das origens e da família. “Eu tenho que voltar e ver a minha gente”. Simples e genial, realmente revigorante e animadora. Destaque para o dueto de flautas no meio da canção.

The Bottle foi o único single do álbum e traz um swing de primeira junto com a letra sobre alcoolismo. O ritmo quase latino fez grande sucesso, e ao ser questionado sobre isso Scott-Heron foi categórico: “Música popular não precisa ser uma merda”. De fato é uma ótima música, com uma letra sensacional sobre pessoas que se deixam seduzir demais pelo álcool e acabam “na garrafa”.



Terminada a paulada anterior, o álbum volta a ter um momento introspectivo com a bela Song For Bobby Smith, uma música sobre um garoto de 4 anos que, segundo a apresentação do próprio Gil no começo da música, estava com Brian Jackson no dia em que eles estavam compondo a música. O garoto gostou tanto da música que se apropriou dela, dizendo que “era dele”. Os músicos gostaram da ideia e a concederam ao moleque – um belíssimo presente.

Um dos momentos que eu particularmente mais gosto em todo o álbum é a lindíssima Your Daddy Loves You. A música, endereçada obviamente à filha de Scott-Heron, Gia Louise, é uma linda declaração de amor com uma melodia alegre (apesar da execução minimalista). Your daddy loves you – your daddy loves his girl” – é impossível não sorrir. Ótima faixa.

Passado o momento “bonitinho”, Scott-Heron volta com tudo com a ácida H20 Gate Blues, uma paulada no puro estilo spoken word sobre, obviamente, o escândalo de Watergate. A letra é fenomenal, mas longa demais para eu colocar na íntegra aqui – por isso, faça um favor para você mesmo e clique aqui para lê-la. Isso sem contar os comentários muitíssimo bem humorados sobre o blues no começo da música (que, aliás, é um blues).

O álbum termina, finalmente, com uma versão bem mais curta de Peace Go With You, Brother.

Winter In America foge do convencional e nos mostra um som coeso e muito bem executado, com toda a banda no seu auge e composições originais e únicas. Música estadunidense negra setentista na sua forma mais sincera e seminal.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. Peace Go with You, Brother (As-Salaam-Alaikum)
  2. Rivers of My Fathers
  3. A Very Precious Time
  4. Back Home
  5. The Bottle
  6. Song for Bobby Smith
  7. Your Daddy Loves You
  8. H²Ogate Blues
  9. Peace Go with You Brother (Wa-Alaikum-Salaam)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Artista: Laura Nyro; Álbum: Eli and the Thirteenth Confession



Artista: Laura Nyro
Álbum: Eli And The Thirteenth Confession
Ano: 1968
Gênero: R&B; Pop; Gospel; Soul

Acho que poucas pessoas discordam que os anos 60 representaram um salto cultural inacreditável no mundo ocidental. Muita coisa mudou em vários aspectos, e na música não poderia ser diferente.

Eu sei que o parágrafo acima é um clichê deveras desgastado, mas foi a melhor maneira que encontrei para começar a escrever sobre este álbum da cantora americana Laura Nyro lançado em 1968.

Pra começar, eu nunca tinha ouvido falar dessa cantora até poucos dias atrás, quando estava pesquisando por material "novo" dos anos 60. E quando vi a capa do álbum Eli and the Thirteenth Confession, achei que tinha trombado sem querer em um álbum do Nightwish ou de alguma banda parecida.

Laura Nyro nasceu no Bronx, em Nova Iorque, em 1947, filha de um afinador de piano e de uma bibliotecária. Aprendeu a tocar piano e a cantar sozinha quando criança e sempre se interessou por literatura e poesia e começou a compor aos oito anos de idade. O curso natural das coisas a levou a seguir a carreira musical, e ela cita a grande Nina Simone como uma de suas principais influências (um dia faço uma resenha de um disco da Nina aqui).

Por sempre ter tido contato com a cultura negra da época (que, vale lembrar, era de muita segregação nos EUA) Laura Nyro desenvolveu um estilo muito peculiar de compor, agregando elementos musicais do jazz, gospel e R&B ao rock e ao doo wop, resultando em uma combinação muito interessante. É tão forte essa influência que, sem ver a capa do disco, é muito fácil deduzir equivocadamente que Laura era negra pelo estilo da música que cantava em sua época.

O debut de Laura Nyro foi o bem recebido More Than a New Discovery, de 1967, mas o álbum aqui resenhado é o segundo, Eli and the Thirteenth Confession, lançado no começo de 1968 quando a cantora tinha 20 (!) anos. Todas as músicas foram compostas por ela, assim como em seu debut - a moça era muito talentosa.

No meu caso, bastou escutar a primeira faixa do disco - Luckie - para ser conquistado. A introdução grandiosa, cheia de metais com a voz potente da moça e a súbita pausa para a volta em clima de jazz, que depois vira rock e até funk. As mudanças constantes de andamento são encantadoras, e é uma das marcas mais fortes da compositora.

Lu é uma das minhas favoritas. A melodia deliciosa cantada por Laura, que logo é acompanhada por backing vocals assaz competentes, fica na cabeça. É gritante a influência da música negra americana nessa música. Sensacional!

Sweet Blindness começa com um quê de Beach Boys para, novamente, nos surpreender com as mudanças abruptas de andamento. Aproveito para fazer um adendo: quando falo nas mudanças de andamento nas músicas de Laura Nyro estou me referindo a algo muito mais suave e acessível que as mudanças de andamento em uma música do Fantômas, por exemplo. As músicas desse disco, apesar das melodias elaboradas e tempos complexos, são extremamente calcadas no pop, e isso o torna muito especial.

Poverty Train, por exemplo, tem uma levada totalmente blues logo de cara, mas é um belíssimo soul em sua maioria. A voz de Laura está muito mais para o grave nessa música, e a interpretação é impecável. "I just saw the devil and he's smiling at me".

Lonely Women poderia facilmente ter saído de um disco da Nina Simone. Começa totalmente intimista, freeform, e do nada fica com uma cara meio Clube da Esquina. É estranha assim e bela assim. Nem preciso dizer que a interpretação de Nyro é um show à parte.

Eli's Comin' é o que mais se aproxima de uma faixa título. Gosto muito da descrição que o reviewer da Allmusic.com fez: "essa música dá mais guinadas e voltas que uma cobra no chão quente do deserto". E é exatamente isso. Ela passa de um começo profundo e lento a um ritmo frenético, com muita influência de gospel, para depois voltar ao clima sombrio, muito bem texturizado pelos instrumentos e vozes. Uma belíssima composição.

Timer começa operesca, com Laura demonstrado uma versatilidade vocal impressionante, mas tirando isso é uma das menos interessantes do álbum. O mesmo não podemos dizer de Stoned Soul Picnic, com seu clima totalmente sessentista. Poderia facilmente ser regravada por alguma banda vocal como The Mamas and The Papas ou 5th Dimension - os últimos, inclusive, a regravaram. Lisérgica e onírica.

Emmie é uma balada fluida e belíssima, deliciosa de se escutar e com um final emocionante. As orquestrações, a voz... tudo, mais uma vez, está no lugar.

Woman's Blues é uma das mais ambiciosas do álbum. Começa com uma pegada erudita mas evolui para um soul extremamente swingado, com direito até a clavinete no final. A letra é incrivelmente pessoal e dramática. "Go live as long as an elephant, but there won't be more lovin' woman than me".

Once It Was Alright (Farmer Joe) é animada, dançante, bebendo da fonte do gospel e do soul mais uma vez, com transições menos suaves que das músicas anteriores. Talvez por isso seja um pouco menos acessível, mas novamente é um prazer escutar Laura cantando.

December's Boudoir é lentíssima, totalmente livre, guiada totalmente por piano e voz com texturas de harpa e orquestra. É a música mais lenta do álbum, e certamente a mais intimista.

A 13ª e última música do álbum, como o nome sugere, é The Confession. De todas as músicas talvez seja a que mais bebe da fonte do rock, mas não qualquer rock e sim da nata do rock sessentista - aquele rock orquestrado e elaborado que começou a aparecer na metade da década. E o final é realmente um gran finale, intenso como a abertura de Luckie, a primeira faixa.

Uma curiosidade interessantíssima: a versão em vinil do álbum trazia o encarte interno com letras - o que já era raro - e, como se não bastasse, ele era perfumado. Quem tem a versão original diz que o perfume dura até hoje, mais de 42 anos depois do lançamento e 13 da morte de Laura Nyro de câncer de ovário, aos 49 anos de idade.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. "Luckie" – 3:00
  2. "Lu" – 2:44
  3. "Sweet Blindness" – 2:37
  4. "Poverty Train" – 4:16
  5. "Lonely Women" – 3:32
  6. "Eli's Comin'" – 3:58
  1. "Timer" – 3:22
  2. "Stoned Soul Picnic" – 3:47
  3. "Emmie" – 4:20
  4. "Woman's Blues" – 3:46
  5. "Once It Was Alright Now (Farmer Joe)" – 2:58
  6. "December's Boudoir" – 5:05
  7. "The Confession" – 2:50