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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Banda: Diablo Swing Orchestra; Álbum: The Butcher's Ballroom


Banda: Diablo Swing Orchestra

Álbum: The Butcher's Ballroom
Ano: 2006
Gênero: Metal Avant-garde

O metal é um gênero que acumula preconceitos, lendas urbanas, mitologias, amor, ódio e muitas subdivisões.

Todo mundo já teve um colega de classe cabeludo que, não raramente, aparecia com uma camiseta de banda de metal. Quem não teve, era o próprio cabeludo (inclusive este que vos fala). O gênero tem tantas subdivisões que geram atrito entre os fãs desse ou daquele estilo: heavy, thrash, glam, death, black, white, funk, prog, , groove, doom, industrial e muitos outros.

A cultura do metal é tão peculiar que existem rótulos para aqueles que só escutam e gostam de determinado estilo - os true - e para aqueles que fingem que gostam - os posers. Existem bandas que levam isso tão a sério que viram inspiração para bandas-sátira, como o Manowar para o Massacration. E essa atitude de true e poser é o que faz com que os fãs de metal sejam vistos como bitolados pelas pessoas mais ecléticas.

Quando os preconceitos são deixados de lado e as bandas resolvem agregar elementos alheios ao estilo, porém, geralmente o resultado traz discos marcantes e muito originais - o álbum Roots dos brasileiros do Sepultura, por exemplo, misturou música indígena dos Xavantes com o groove metal herdado do disco anterior, Chaos A.D.. É considerado por críticos e por muitas outras bandas como um dos álbuns mais influentes dos anos 90, embora alguns fãs mais tradicionais da banda torçam o nariz pelo caminho tomado pela banda após o também clássico Arise.

Essa conversa toda foi para chegar ao disco aqui resenhado: o ótimo The Butcher's Ballroom da banda sueca Diablo Swing Orchestra.

A história "oficial" da banda é cercada de mitologia. Diz a lenda que no século XVI, na Suécia, existia uma orquestra que tocava hinos que desafiavam o poder da Igreja (teoricamente Protestante) que dominava o país. Ao provocar a ira dos religiosos, os integrantes dessa banda tiveram que viver escondidos nas casas dos camponeses. Por anos a orquestra tocaria para o prazer de seus anfitriões, mas ao ver que a recompensa oferecida por suas cabeças era alta demais, os músicos concluíram que seriam capturados e, em uma despedida triunfal, fizeram um espetáculo maravilhoso e inacreditável antes de serem executados. Os membros da Diablo Swing Orchestra (ou DSO) seriam descendentes desses mártires da música.

Fantasia à parte, o DSO é formado por Daniel Håkansson (guitarra/vocal), Pontus Mantefors (guitarra/efeitos), Annlouice Lögdlund (vocal lírico), Andy Johansson (baixo), Johannes Bergion (violoncelo), Andreas Halvardsson (bateria, posteriormente substituido por Petter Karlsson), Daniel Hedin (trombone) e Martin Isaksson (trompete). Essa formação - nada ortodoxa para uma banda de metal - é um dos motivos pelos quais o DSO é tão diferente das demais bandas. E ao ouvir The Butcher's Ballroom fica óbvio o motivo.

O disco abre com a poderosa Balrog Boogie, um cruzamento preciso de metal com boogie -woogie (como o título sugere). A primeira vez que se escuta a voz da soprano Lögdlund é um choque, principalmente no meio de uma música nada lírica como essa. Difícil não se deixar levar pelo ritmo, e é possível até imaginar muitos dos true se segurando para não sair dançando. Isso sem contar a peculiaridade da letra ser em latim.

Heroines começa tranquila, com um ritmo gostoso no violoncelo e na bateria. Os vocais calmos de Lögdlund logo dão lugar à uma ponte interessantíssima com direito a um dueto com ela mesma, e um urro gutural faz a música explodir com as guitarras distorcidas. Tem um belíssimo refrão e é uma das que mais me chamou a atenção na primeira audição.

Poetic Pitbull Revolutions começa com um violão flamenco interessantíssimo, e logo as guitarras distorcidas entram junto com os trompetes e parece que estamos em um filme onde Zorro faz parte do Metallica. O contraste dos riffs pesados com a melodia à-lá mariachi dos trompetes funciona tão bem que é difícil lembrar que, originalmente, um não tem nada a ver com o outro. Os vocais dessa vez ficam, na maior parte da música, por conta de Håkansson, mas quando Lögdlund aparece a música ganha proporções épicas. Ótima faixa.

O teclado da introdução de Rag Doll Physics poderia facilmente aparecer em um disco do Deep Purple. A música é uma bela valsa, com vários momentos minimalistas onde a banda pára e dá destaque para a voz da vocalista. Destaque para o dueto barroco de violões próximos ao fim da faixa.

D'Angelo é um momento plenamente lírico. Contando apenas com Lögdlund cantando em italiano acompanhada de um violão levemente dedilhado, é um dos momentos mais tradicionais do álbum. Nem por isso deixa de ser bela - é o tipo de música que tanto você quanto sua avó iriam achar linda.

A calmaria da música anterior dá lugar à pancada Velvet Embracer, uma bela faixa de metal sinfônico. Grandiosa e pesada, é uma faixa que os fãs de Nightwish e outras bandas do estilo certamente iriam gostar muito. Os vocais de Lögdlund novamente impressionam, e o arranjo de cordas ao fundo são a cereja no topo do bolo.

Se você não sabe o que é um didgeridoo, dê uma olhada no vídeo abaixo:


Esse instrumento, assim como o rapaz que o está tocando no vídeo, tem origem aborígene, ou seja, na Austrália pré-colonial. E é com esse som que começa Gunpowder Chant, uma faixa instrumental com pegada árabe. É muito sinestésica, com uma bateria marcante, e quando menos se percebe já começou Infralove. A transição entre as duas músicas é imperceptível, e é interessante ver como a melodia da primeira é desenvolvida na segunda música. É como se um faraó saísse de sua pirâmide em Gunpowder Chant, agarrasse uma prancha e começasse a surfar no Mar Mediterrâneo em Infralove.

Wedding March For A Bullet é uma de minhas faixas favoritas. Uma música extremamente bem construída, pesada e elaborada que consegue ser fácil de escutar ao mesmo tempo. Os riffs precisos, a bateria destruidora e o groove do refrão são irresistíveis.

Qualms of Conscience é um pequeno filler no piano, mas Zodiac Virtues passa longe dessa condição. O riff malvado que abre a música dá lugar à um vocal que me lembra Andi Deris, do Helloween, por algum motivo. Novamente Lögdlund impressiona no refrão (ela não cansa?!). As cordas e o coral dão, novamente, um tom épico à essa bela canção.

Porcelain Judas tem um tempero oriental misturado aos riffs, que por sua vez tem muita influência de música clássica no refrão. Muitas variações estilísticas nesta bela faixa.

O gran finale fica por conta de Pink Noise Waltz. Como o nome sugere, é uma valsa pesadíssima, que alterna momentos mais delicados com momentos agressivos. O final da música é um desfile de estilos e influências: música barroca em alguns interlúdios (particularmente no solo de flauta), thrash metal e, surpreendentemente, o álbum termina com um suave jazz.

Não tenho dúvidas que os true de alguns estilos de metal iriam desprezar este álbum, mas eu o recomendo por ser uma belíssima demonstração de como fazer música pesada com criatividade, qualidade e principalmente sem burocracia.

Tracklist:
1."Balrog Boogie"  3:52
2."Heroines"  5:21
3."Poetic Pitbull Revolutions"  4:52
4."Ragdoll Physics"  3:52
5."D'Angelo"  1:53
6."Velvet Embracer"  4:04
7."Gunpowder Chant"  1:50
8."Infralove"  4:53
9."Wedding March for a Bullet"  3:13
10."Qualms of Conscience"  1:15
11."Zodiac Virtues"  4:46
12."Porcelain Judas"  4:08
13."Pink Noise Waltz"  6:05

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Banda: Fantômas; Álbum: Fantômas


Banda: Fantômas
Álbum: Fantômas (ou Amenaza al Mundo)
Ano: 1999
Gênero: Metal Avant-Garde

Já que o assunto do post anterior foi o Lovage - e Mike Patton participou do Lovage - vamos falar de Fantômas. Ficou sem entender? Calma, vou esclarecer.

Mike Patton ficou mundialmente famoso por ter sido vocalista da grande e extinta banda Faith No More. Grandes sucessos como Epic, Falling To Pieces e Midlife Crisis foram gravados com Patton no microfone. Porém, não é todo mundo que sabe que, além do Faith No More, o versátil vocalista era integrante da fantástica Mr. Bungle (que com certeza será tema de, pelo menos, dois posts) e viria a criar diversos projetos (ou participar, como foi o caso do Lovage).

Um desses projetos é o Fantômas, com circunflexo mesmo (nome de um anti-herói de uma série francesa pré-primeira guerra mundial). Criado em 1999 (um ano após o fim do Faith No More), a banda conta com músicos extraordinários. Além de Patton (vocalista incrível), temos Buzz Osborne (do Melvins) na guitarra, Trevor Dunn (que já foi do Mr. Bungle e é extremamente ativo no cenário jazz da costa oeste dos Estados Unidos) no baixo e o monstro sagrado da bateria Dave Lombardo, do Slayer.

O primeiro disco da banda (e não só o primeiro, diga-se de passagem), homônimo, é um choque. A começar pelo tracklist. Ei-lo:

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Exatamente. Trinta faixas, cada uma representando uma página de um livro. Segundo o site oficial, o objetivo deste álbum é homenagear os filmes e livros de ficção científica. E é nessa hora que alguém desavisado pode perguntar "interessante, isso pode ser percebido nas letras?". E quando ouve a resposta "não, o álbum não tem nenhuma letra", faz uma cara de surpresa e pensa consigo mesmo "então porque tem um vocalista?".

A resposta vem logo na primeira música, a página um. Um som gutural extremamente grave junto com o baixo pesadíssimo de Dunn. Na seqüência, diversos pratos e chimbaus são acionados por cerca de 45 segundos, dando lugar a uma seqüência de notas extremamente pesadas para, no fim, dar lugar ao gutural e baixo do começo. E acabou a página um, depois de um minuto e trinta e quatro segundos.

Muitos param de ouvir a banda aí. "Isso não é música" é o mais comum, seguido de "mas os caras fizeram qualquer coisa e gravaram" e "que bosta". E eu defendo com ferocidade: é música sim. Apenas não é linear como 99,99% das bandas.

Fantômas nos apresenta uma nova dimensão dentro do conceito de música. Ouvir a página 12, por exemplo, nos oferece berros insanos de Patton, juntamente com a perfeita técnica e sincronia dos músicos. Na mesma música, temos teclados incrivelmente sombrios e vocalizações tétricas. Ainda na mesma música, temos microfonia e pedal duplo, que logo voltam a dar lugar às vocalizações. Tudo isso em menos de dois minutos.

Todas as músicas deste álbum são fragmentadas. Patton se transforma em um instrumento absurdamente versátil, e não um vocalista que canta uma letra com a música servindo de "acompanhamento". Ele se transforma em parte da música, não mais ou menos importante. Além de tudo, a precisão da banda impressiona. Prá quem fala que "eles fizeram qualquer coisa e gravaram", só posso dizer que ver aquilo ao vivo e totalmente fiel à versão de estúdio é a maior prova de que nada no Fantômas é por acaso.

É notável a influência do metal dentro do Fantômas - não poderia deixar de ser assim com Dave Lombardo na bateria. Mas existem outros ingredientes, como trilhas sonoras de filmes (que seria o tema principal do álbum The Director's Cut, lançado em 2001) e de desenhos animados (tema principal do Suspended Animation, de 2005).

Se você for ouvir este álbum, prepare-se: você não vai mais ver música da mesma maneira. É como se fosse um cubismo do século XXI ou algo assim. Indispensável.

Eis as páginas de 1 a 5 executadas ao vivo pelo Fantômas: