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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Banda: White Noise; Álbum: An Electric Storm


Banda: White Noise
Álbum: An Electric Storm
Ano: 1969
Gênero: Rock Psicodélico; Experimental

Não é um exagero dizer que existem bandas que estão décadas à frente de seu tempo. Lendo um artigo em um site de humor inteligente eu acabei trombando nesta banda, o White Noise (nome tirado do barulho que a TV faz em estática), que o site descreve como o Radiohead dos anos 60. Achei o artigo interessante (recomendo fervorosamente) e fui atrás do debut da banda, o intrigante An Electric Storm, lançado surpreendentemente em 1969.

A banda começou quando David Vorhaus, um baixista clássico com conhecimentos de física e engenharia, conheceu Delia Derbyshire e Brian Hogson em Londres. Os dois últimos eram antigos empregados da BBC Radiophonic Workshop, uma unidade da BBC que produzia músicas e efeitos especiais para rádio. Ou seja, eles tinham um bom conhecimento de produção e eletrônica. Sem isso, seria impossível ter criado An Electric Storm.

O álbum conta com Vorhaus no baixo, Derbyshire e Hogson nos aparatos eletrônicos, Paul Lytton na bateria/percussão e os vocalistas convidados John Whitman, Annie Bird e Val Shaw.

É um dos primeiros discos a utilizar o sintetizador britânico EMS VCS 3, que posteriormente seria usado à exaustão por grandes nomes do rock, como John Paul Jones, do Led Zeppelin, e Pete Townshend, do The Who. Além disso, outros recursos de estúdio muito pouco ortodoxos tornam este álbum incrivelmente pioneiro. As texturas criadas pelo sintetizador enfeitam cada música de um jeito diferente - e sempre apropriado.

A faixa de abertura é Love Without Sound, uma viagem psicodélica guiada por uma percussão indiana e pela voz de Annie Shaw. O baixo faz muito mais do que aparenta; não apenas é o grave pulsante que transita pela música, mas todas as cordas - violinos, cellos. Tudo com mágica de estúdio. Nos anos 60. O clima onírico dessa canção é impressionante até os dias de hoje.

A atrevida My Game Of Loving soa como se os Beach Boys tivessem escrito Je T'aime Moi Non Plus, de Serge Gainsbourg (que curiosamente eu citei no post anterior). Após uma introdução que lembra um pouco Velvet Underground, trechos sussurrados em francês e alemão dão lugar a uma incrível orgia sonora, literalmente - muitos gemidos, masculinos e femininos, fazem corar o ouvinte desavisado. Isso décadas antes de Gretchen, É o Tchan e os piores funks cariocas aparecerem.

A banda também mostra seu lado bem humorado em Here Come The Fleas. Totalmente vanguardista, a faixa traz diversos efeitos sonoros engraçadinhos, uma melodia esquisitona, andamento mais estranho ainda e um vocal totalmente displiscente. Tem uma estrofe inteira onde a música é acelerada, dando aquele efeito chipmunk, como se Tico e Teco (ou Alvin e os Esquilos, para os mais novos) estivessem cantando e tocando. Pela letra, trata-se de uma música infantil, o que nos faz perguntar o que as crianças do fim dos anos 60 tomavam.

Firebird seria uma típica música de rock sessentista se os efeitos dos sintetizadores não a fizessem soar como se tivesse sido composta em Marte. Um andamento bem definido, com backing vocals bem evidenciados e um som similar a um theremin dando todo o clima espacial fazem desta faixa uma das mais acessíveis do disco.

Your Hidden Dreams é mais uma peça à la Velvet Underground; até a voz de Shaw lembra a voz de Nico. A diferença é que as viagens do White Noise aqui vão além daquelas de Lou Reed e cia; em determinado momento, a música entra em um crescendo e começa a brincar com o stereo, distribuindo a música ora no canal esquerdo, ora no direito. Escute esta música de fone para melhores resultados! Destaque novamente para as experimentações com o sintetizador.

Mas a experimentação mais pesada começa no que seria o lado B. The Visitations é um épico de 11 minutos que viaja por diversos humores. Há pausas para barulho de choro, efeitos sonoros, poesias etc. É muito polivalente e experimental, muito à frente do que a maior parte das bandas fazia na época.

O gran finale é The Black Mass. Começa com vozes simulando um coral gregoriano e, em uma progressão totalmente inesperada, começa um solo de bateria cheio de efeitos que vão se intensificando, ficando mais complexos até que gritos de dor e terror se juntam para completar o clima de uma missa negra, como o título sugere.

Como é de se esperar, An Electric Storm passou praticamente em branco na época em que foi lançado. Talvez por não ter apelo comercial, ou simplesmente porque estava muito à frente de seu tempo. Mas ele chegou às pessoas certas, visto que diversos artistas de música eletrônica e alternativa o citam como influência (como o Chemical Brothers e o Secret Chiefs 3, por exemplo).

Uma coisa interessante: inicialmente, a intenção era lançar as duas primeiras faixas (Love Without Sound e My Game Of Loving) como singles, mas foram convencidos pela gravadora a gravar um álbum inteiro. Para se ter idéia do quanto as faixas são complexas, as quatro últimas levaram um ano para ficarem prontas, e isso porque a gravadora os pressionou e eles tiveram de completar The Black Mass em um dia. Tudo por causa das múltiplas edições, muito complexas e difíceis de fazer na época.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. Love without Sound
  2. My Game of Loving
  3. Here Come the Fleas
  4. Firebird
  5. Your Hidden Dreams
  6. The Visitation
  7. Black Mass: An Electric Storm in Hell

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Banda: Sleepytime Gorilla Museum; Álbum: In Glorious Times



Banda: Sleepytime Gorilla Museum
Álbum: In Glorious Times
Ano: 2007
Gênero: Avant-Garde

Nossa. Isso sim foi um hiato. Mas vamos lá!

Metal experimental. Para diversos puristas dentro da música pesada - o que, ao meu ver, é um paradoxo, visto que rock não combina com conservadorismo -, duas palavras como água e óleo: não se misturam e, caso se misturem, ou a água não é água ou o óleo não é lá essas coisas. Mas deixar esses preconceitos de lado pode nos trazer muitas recompensas, e não canso de bater nessa tecla.

Imagine o primeiro show de uma banda. Geralmente vão uns poucos curiosos, que estão ali apenas por acaso ou alguns amigos que vieram dar uma força. Mas a platéia do primeiro show do Sleepytime Gorilla Museum era assim:



Não é uma banana torta. É uma lesma da espécie Ariolimax dolichophallus.

Só por isso já dá pra ter uma idéia de como os membros da banda fogem do convencional. Pode parecer exagero, mas imagino que teatralidade seja o termo mais correto. O SGM respira teatralidade. Pelo site oficial da banda já dá pra ter uma idéia.

Segundo a história repetida pelos próprios integrantes e descritas no site, a origem do singelo nome Sleepytime Gorilla Museum remontam ao início do século XX, mais precisamente ao dia 22 de junho de 1916. Foi nessa data que um grupo dadaísta e futurista americano chamado Sleeytime Gorilla Press inaugurou um museu que eles denominavam de museu do futuro: era fechado ao público, anti-material e não-histórico. No dia seguinte, eles atearam fogo no museu. Exatos 83 anos após a inauguração (1999, para facilitar as contas) ocorreu o já descrito primeiro show da banda para a lesma-banana.

O SGM era composto, então, por Dan Rathbun, Carla Kihlstedt, Moe Staiano e David Shamrock. Mas classificar a função de cada um na banda é muito difícil, pois eles tocam, além dos instrumentos convencionais, muitos outros, ora existentes, ora de criação própria. Por exemplo: Poderia dizer que Dan Rathbun é vocalista/baixista, mas ele também toca harpa, trombone, "coisa", "roach" e outros instrumentos peculiares.

No dia seguinte após a estréia para a lesma, o Sleepytime tocou para uma platéia humana e, dois anos depois, lançou seu debut, Grand Opening and Closing (vale perceber que o título é uma referência ao museu do futuro, que abriu e fechou em dois dias). A recepção por parte do público (muitíssimo específico, só para frisar) e da crítica foi boa, e melhorou no álbum seguinte, Of Natural History, lançado em 2004.

Mas o auge do Sleepytime Gorilla Museum até o momento é o álbum aqui resenhado: In Glorious Times, lançado dia 29 de maio de 2007. Vale a pena, agora, detalhar os membros da banda e suas funções no álbum:

Matthias Bossi: bateria, glockenspiel, escaleta, percussão, piano, xilofone
Nils Frykdahl: voz, autoharp, flauta, guitarra/violões, guitarra percussiva, gravador, sinos tibetanos
Carla Kihlstedt: voz, autoharp, gaita-baixo, violino elétrico, nyckelharpa, órgão, guitarra percussiva, violinofone
Michael Mellender: acordeon, eufônio, guitarra, alavanca-alavancada, pâncreas (elétrico), percussão, tangularium, piano de brinquedo, trompete, valhalla, vaticano, roda, xilofone
Dan Rathbun: voz, autoharp, baixo, alaúde, wiggler com pedal, gravador, roach, tronco slide-piano, coisa, trombone

Não fique chateado (a) se você não conhecer a maior parte desses instrumentos. Quase ninguém conhece, e muitos deles só os caras da banda conhecem de fato - foram inventados por eles.

Mas voltando ao disco, a abertura de In Glorious Times é a épica The Companions, com mais de 10 minutos de duração e abordando uma rebelião de desesperados, um tema muito mais amedrontador do que pode parecer à primeira vista. E aqui já é bem possível notar como o Sleepytime Gorilla Museum trabalha bem idéias sombrias aplicando-as no mesmo grau tanto em letra quanto em música. O medo que o locutor sente ao descrever a rebelião é acompanhado por um fundo musical sinistro e lento, como se fosse uma caixinha de música. Porém, conforme a rebelião vai tomando corpo e a letra passa a retratar o ponto de vista dos desesperados, os vocais se tornam guturais e a música cresce em intensidade e peso, para retornar ao clima inicial nos dois minutos finais. Uma das melhores do álbum e certamente a mais apropriada para abrir.

Helpless Corpses Enactment começa com um clima bem death metal e, após meio minutos, entra em um tempo de 5/4, com riffs complicadíssimos e uma parte vocal raivosa. É interessante como eles trabalham diversas nuançes em cada música e como todas elas conseguem ser sombrias, tanto nas partes mais velozes e distorcidas quanto nas leves e melodiosas, categoria essa em que se enquadram as duas músicas seguintes, Puppet Show e a ótima Formicary, com sua pegada semelhante a um jazz vindo diretamente da mente de um palhaço malvado.

Uma das melhores músicas do disco é, sem dúvida, a ótima Angle Of Repose. A voz de Carla começa melancólica, seguindo as texturas da guitarra e os pratos da bateria. Eis que, quando menos se espera, entra um riff à-lá Dream Theater e a música ganha uma cara totalmente nova, junto com o violino e os demais instrumentos. E as mudanças não param por aí. Mais pra frente, a cantora começa a cantar com a voz rasgada, lembrando muito a islandesa Björk em seus momentos mais frenéticos.

O disco continua interessantíssimo com Ossuary, que começa com uma pegada de música árabe para terminar em um vocal gutural raivoso acompanhado por riffs de death metal em compassos irregulares.

Eu já disse mas vou ressaltar: o SGM exala teatralidade. É o que notamos no decorrer do álbum todo e fica ainda mais explícito na música The Salt Crown. A interpretação vocal é impressionante - ele soa como se estivesse interpretando um personagem, não como se estivesse cantando uma canção. E ele consegue fazer isso mesmo nos momentos mais pesados.

A música menos inspirada do álbum talvez seja The Old Dance, com as vozes acompanhando o riff esquisito e nada de muito diferente disso. The Greenless Wrath, porém, começa pequena e vai crescendo com o tempo, com os cantores aumentando a intensidade de suas vozes junto com os instrumentos até tudo explodir em uma música celta perturbada, cheia de distorções e os já característicos riffs não convencionais.

The Widening Eye é uma ótima faixa instrumental que leva para o encerramento do disco, a pesada The Putrid Refrain, que termina com algo semelhante a uma mensagem deixada em uma secretária eletrônica.

Não é um disco (uma banda, para ser mais preciso) muito fácil de assimilar, mas certamente é algo muito diferente do convencional e que vale a pena ser conferido por quem gosta de música pesada.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. The Companions
2. Helpless Corpses Enactment
3. Puppet Show
4. Formicary
5. Angle of Repose
6. Ossuary
7. The Salt Crown
8. The Only Dance
9. The Greenless Wreath
10. The Widening Eye
11. The Putrid Refrain

Abaixo, o clip de Helpless Corpses Enactment:

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Artista: Frank Zappa; Álbum: Apostrophe (')


Artista: Frank Zappa
Álbum: Apostrophe (‘)
Ano: 1974
Gênero: Avant-garde; rock experimental

Após um longuíssimo hiato, aqui estamos novamente para falar de mais uma pérola da música dita "estranha e boa". E bota boa nisso.

Frank Vincent Zappa nasceu no dia 21 de dezembro de 1940, nos Estados Unidos. Desde cedo demonstrou grande interesse por música clássica de compositores vanguardistas, como Stravinsky, além de grupos de doo-wop e jazz moderno. Durante os anos 60, montou sua primeira banda, os Mothers Of Invention. O primeiro álbum dos Mothers foi o duplo Freak Out!, de 1966, e é considerado um marco por seu experimentalismo e ousadia. Vale a pena lembrar que foi lançado um ano antes do clássico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e certamente trouxe mais inovações estéticas que o álbum dos Fab Four.

A genialidade de Zappa foi se manifestando com mais força a cada disco, e logo ficou óbvio que os Mothers estavam funcionando apenas como uma banda de apoio que tocava as músicas de Zappa. Os créditos dos álbuns deixavam essa relação explícita, passando a ser lançados como Frank Zappa and the Mothers of Invention ou simplesmente Zappa/Mothers. A banda passou por diversas formações.

Zappa é notório por sua imensa produtividade. Para se ter uma idéia, o álbum que será tratado aqui nesta resenha foi lançado em 1974, oito após o debut, e foi o décimo sétimo (!) a ser lançado pelo guitarrista/cantor/compositor. A discografia completa de Zappa, sem contar os discos póstumos, conta com 57 discos em menos de 30 anos de produtividade.

Voltando ao assunto, o último disco que Zappa lançou com os Mothers foi One Size Fits All, de 1975. Mas alguns discos antes deste trazem apenas seu nome na capa. É o caso de Apostrophe ('), lançado em 1974.

Explicar o estilo de Frank Zappa para alguém que nunca o tenha escutado é uma tarefa muito, muito complicada. Sua música é uma mistura de muitas coisas, passando pelo rock and roll, música clássica, humor, doo wop, blues, a famigerada world music, enfim; é um saco de gato. Suas letras são muito bem humoradas, muitas vezes tolas, ofensivas ou simplesmente sem sentido, trazendo críticas à política, religião, estereótipos e costumes, ou simplesmente contando histórias bizarras.

No caso de Apostrophe ('), as primeiras quatro músicas enganam o ouvinte, pois guiam o álbum a um caminho conceitual que acaba não se desenvolvendo além destas faixas. Em Don't Eat The Yellow Snow, a faixa de abertura, Frank conta sobre um sonho que teve no qual era um esquimó chamado Nanook. Sua mãe o alertava para que não comesse a neve amarela que ficava aonde os huskies iam (watch out where the huskies go/and don't you eat that yellow snow), ou seja, a neve onde os cães urinavam. Tudo isso em uma música esquisita, em um tempo quebrado (7/4).

Eis que em Nanook Rubs It, a segunda faixa, Nanook sai de seu iglu e encontra um comerciante de peles matando sua foca preferida com uma bota cheia de chumbo (with a lead-filled snowshoe). Raivoso, Nanook esfrega a neve amarela nos olhos do comerciante, cegando-o. Eis que o comerciante se lembra de uma lenda que dizia que, caso alguém ficasse cego em decorrência de um ataque de alguém chamado Nanook, deveria buscar auxílio na paróquia de Santo Alfonso (St. Alfonzo).

A música seguinte, que começa com um incrível solo de xilofone da percussionista Ruth Underwood, descreve a paróquia de St. Alfonzo, onde ocorre um desjejum com panquecas e um bingo, e também a presença de uma mulher masoquista.

Eis que Zappa descreve o Padre O'Blivion (que pode ser traduzido como "esquecimento"), um padre que é masturbado por um leprechaun e se torna um maníaco sexual. Eis que, no fim da música, uma tentativa intencionalmente frustrada de retomar o início da história aparece, como se o comerciante de peles fosse o próprio Padre O'Blivion (Good morning, your highness/ooo-ooo/I brought you your snowshoes/ooo-ooo...).

A música seguinte é um dos pontos altos não apenas do disco, mas da carreira de Frank. Cosmik Debris é um blues zappiano que conta a história de um charlatão que tenta convencer o protagonista a comprar "sucatas cósmicas", argumentando que elas farão coisas incríveis, inclusive "curar sua asma". No fim, quem acaba sendo enganado é o charlatão. Destaque para as vozes femininas no refrão.

Excentrifugal Forz se trata de uma música pouco expressiva, com uma letra maluca e sem sentido algum. Apostrophe' é uma faixa instrumental com solos de guitarra extremamente distorcidos. Muda pouco de ritmo, mas é uma grande demonstração de habilidade dos músicos da banda.

A belíssima Uncle Remus, com a marcante introdução ao piano de George Duke, traz uma letra bem zappiana que trata, aparentemente, de racismo. "Não posso esperar até que meu black-power esteja grande/(...) irei derrubar os jóqueis de suas selas" (Can't wait till my fro is full grown/(...) I'll be knocking the jockeys off the lawn). A faixa é deslocada do resto do repertório de Zappa, mas é uma música belíssima.

A faixa de encerramento é Stink-Foot, com uma letra sobre chulé e outras coisas das quais dificilmente alguém além de Frank Zappa retrataria em uma música. A percussão aqui é de grande destaque.

Confesso ao leitor que é difícil precisar quem toca o quê em cada faixa devido à enorme quantidade de músicos envolvidos. Os créditos dos músicos são os seguintes:

Frank Zappa - voz, guitarra, baixo e bouzouki
Lynn – voz, backing vocals
Kerry McNabb – backing vocals
Ian Underwood - saxofone
Ruth Underwood - percussão
Sal Marquez – trompete
Sue Glover – backing vocals
Jim Gordon – bateria
Aynsley Dunbar – bateria
Tom Fowler – baixo
Napoleon Murphy Brock – saxofone, backing vocals
Robert “Frog” Camarena – voz, backing vocals
Ruben Ladron de Guevara – voz, backing vocals
Debbie – voz, backing vocals
Tony Duran – guitarra
Erroneous – baixo
Johnny Guerin – bateria
Ralph Humphrey – bateria
Jack Bruce – baixo em “Apostrophe”
George Duke – teclado, backing vocals
Bruce Fowler – trombone
Jean-Luc Ponty – violino

Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. Don't Eat The Yellow Snow
2. Nanook Rubs It
3. St. Alphonzo's Pancake Breakfast
4. Father O'Blivion
5. Cosmik Debris
6. Excentrifugal Forz
7. Apostrophe
8. Uncle Remus
9. Stink-Foot

Abaixo, um vídeo de Cosmik Debris ao vivo em 1974.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Banda: Faxed Head; Álbum: Exhumed At Birth


Banda: Faxed Head
Álbum: Exhumed At Birth
Ano: 1997
Gênero: Death Metal; Avant-garde

Ultimamente, a última grande revelação do metal no Brasil foi o Massacration. A banda é uma paródia extremamente bem feita aos clichês do heavy metal, com roupas de couro, voz aguda e músicas com riffs similares. Entretanto, eles estão longe de serem os primeiros a fazer coisa parecida. Temos outras bandas-paródia, como o Brujeria e esta analisada hoje, o Faxed Head.

Quem faz parte do Faxed Head? Segundo o release oficial da banda, a banda teve seu início quando um dos integrantes, na pequena cidade de Coalinga, encontrou alguns CDs de death metal que haviam caído de um caminhão no meio da estrada. Ele mostrou a descoberta para seu círculo de amizades e todos logo ficaram impressionados com as letras sombrias e com o clima macabro das músicas. Com o vício dos garotos em cheirar cola, logo ficaram mal quistos na cidade e fizeram um pacto de suicídio. Um deles roubou uma espingarda do pai e todos foram até as plantações de algodão de Coalinga para realizar o ato. Porém, tudo deu errado e eles sobreviveram - todos aleijados e com problemas mentais. Após anos em clínicas de reabilitação e hospitais, eles resolveram formar uma banda. Os quatro integrantes são: Neck Head (que não tem cabeça e tem o pescoço muito alongado) na guitarra, McPatrick Head (o mais aleijado de todos: teve a pele substituída por tecido xadrez e usa uma cadeira de rodas) no vocal, o baixista obcecado por matemática Graph Head e, originalmente, o baterista Washington DC Head. Entretanto, Graph Head deixou a banda e Washington morreu devido ao vício em batata frita, sendo substituídos por Jigsaw Puzzle Head (que tentou se matar e caiu com o rosto sobre o quebra cabeças que montava, ficando com as peças coladas eternamente) e LaBrea Tar Pit Head (outra vítima de suicídio sem sucesso, tendo ficado parcialmente coberto por piche) respectivamente - e tudo isso em parceria com o mímico Fifth Head nos samples.

É claro que isso não é verdade, e a banda é uma paródia ao death metal que tem como mentores o comediante americano Gregg Turkington (mais conhecido como Neil Hamburger) e o guitarrista Trey Spruance (muito citado neste blog). Não encontrei registros sobre a data oficial de formação, mas o primeiro disco foi lançado em 1995 (Uncomfortable But Free) e o álbum aqui resenhado, o segundo da banda, em 1997 (Exhumed At Birth, ou "exumado ao nascer", referência clara ao "Butchered At Birth" do Cannibal Corpse").

Quem teve acesso ao Gates Of Metal Fried Chicken Of Death, do Massacration, vai entender bem o que vou dizer aqui. O Faxed Head não apenas pega os principais clichês do estilo e os mescla como adiciona inclusive os fillers característicos, ou seja, aquelas faixas que nem sempre são música mas que dão um clima específico para o disco. É uma paródia das mais sérias que podem ser feitas, pois não descaracteriza o objeto. A primeira faixa se chama "I Saw Into The Grave Grave" e é muito semelhante à "Intro" do CD do Massacration. Lenta, com uma voz macabra lendo um texto (infelizmente não consegui entender as palavras). A seguir, o álbum mostra uma seqüência de músicas com riffs muito inteligentes e típicos de death metal, com as tradicionais batidas de bateria e baixo pesado. Porém, várias das músicas contam com a letra "falada" por McPatrick Head com uma voz extremamente demente (afinal, ele sobreviveu a um tiro de espingarda e é um ex-usuário de cola de sapateiro).

As letras são um espetáculo a parte. Ao ler o título "Gore and Guts", algum mais desavisado esperaria uma letra típica de death metal, visto que "gore" é sangue coagulado e "gut" é tripa. Porém, é uma música sobre Al Gore e sua capacidade - também é "gut" em inglês, um equivalente a "ter estômago para" - como governante.

Temos momentos bem interessantes no álbum, como a faixa "House Of Spirits". Inteira tocada no teclado e com um clima medievalesco, é viciante. Aliás, muitos riffs bons estão presentes ao decorrer do álbum. Destaque para "Gore and Guts", "House Of Spirits", "Don't Turn Out Like Me" e "A Dream".

Recomendado para fãs de death metal com bom humor.

Tracklist:
1. I Saw into the Grave Grave
2. Teachers Cohen
3. Exhumed at Birth
4. Gore and Guts
5. House of Spirits
6. The Ancient Evil
7. Susurrus in Gloaming
8. Don't Turn Out Like Me
9. The Sickroom of Delivery
10. Coud Eckankar Help?
11. A Dream
12. Peregrinations from Beyond

13. The Blackened Coffin

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Banda: Secret Chiefs 3; Álbum: Book Of Horizons


Artista: Secret Chiefs 3
Álbum: Book of Horizons
Ano: 2004
Gênero: Avant-garde

Há algum tempo, postei uma resenha do álbum Book M, também do Secret Chiefs 3. Destaquei que se tratava, basicamente, de uma mistura de música oriental com música eletrônica. Pois bem, em Book Of Horizons, o que vemos é uma banda totalmente diferente. Aliás, uma não: seis.

Já deixei claro no outro review que o gênio por trás desta banda é Trey Spruance, o multi instrumentista que já tocou no Mr. Bungle. E desta vez, ele desdobra o Secret Chiefs 3 em seis bandas muito distintas entre si, que poderiam facilmente lançar álbuns paralelos. Mantendo as proporções, seria mais ou menos um livro de Fernando Pessoa contendo poemas de seus melhores heterônimos. São estas as bandas que tocam em Book Of Horizons (por ordem de participação):

Forms é composta pelos seguintes músicos: William Winant, Timb Harris, Jennifer Cass, Jesse Greere, Trey Spruance e convidados. Toca três músicas no álbum e apresenta uma mistura de música indiana com música cinematográfica. É a banda que abre e fecha o CD, tendo um papel muito importante dentro do álbum. As faixas são muito elaboradas e interligadas, embora apresentem humores muito variados. The End Times, faixa que abre o CD, é extremamente triste e lenta; Welcome to the Theatron Animatronique, faixa que encerra o álbum, é uma marcha empolgante com diversas vozes, com um clima totalmente diferente da faixa de abertura. Entretanto, ambas tem melodias em comum. A outra faixa tocada pela banda, The Owl In Daylight, é uma fantástica progressão rítmica. A música adquire uma forma impressionante, conseguindo um preenchimento sonoro incrível com diversos instrumentos.

Ishraqiyun é formada por Shahzad Ismaily, Eyvind Kang, Rich Doucette, Danny Heifetz, Trey Spruance e convidados. Esta banda colabora com duas músicas no álbum e é muito influenciada por música afegã e música experimental. Embora o resultado dessa mistura seja muito mais pendente para o lado da música afegã, é impossível não se surpreender com a complexidade das composições: belas melodias repletas de compassos irregulares.

Traditionalists tem como único integrante fixo Trey Spruance - os demais são convidados. Colabora com três faixas no álbum. O estilo desta banda é bem interessante, pois ela monta uma paisagem sonora; ao ouvir, é difícil não imaginar aquelas cenas de filme onde uma paisagem flutua por vários segundos ou, no caso de The Electrotheonic Grail Dove, um take em um dojo. Embora eu considere The Indestructible Drop um filler, The Exile é impecável. Triste, poética - linda de morrer, com o perdão da expressão brega.

The Holy Vehm é formada por Unhuman, John Merriman, Jesse Quattro, Jessica Kinney e The Enemy. É a que mais contrasta com as demais, pois suas duas músicas são death metal do mais pesado possível misturado com elementos de música oriental. Os vocais guturais são impressionantes, tanto o grave quanto o agudo. O interessante dessa banda é que, mesmo nos momentos mais pesados, o lado progressivo não fica de lado: mais quebras inesperadas estão aqui. É de deixar muitas bandas de death metal no chinelo.

The Electromagnetic Azoth é formada por Shahzad Ismaily, William Winant, Ches Smith, Jennifer Cass, Trey Spruance e convidados. É, de todas, a que mais se assemelha ao trabalho de Spruance com o Mr. Bungle. Em ambas as músicas ocorrem mudanças rítmicas bruscas, experimentalismo, bom humor e criatividade imensa. Em On The Wings Of The Haoma, por exemplo, temos a impressão de estar flutuando por fragmentos de diversas músicas ligadas por um fio invisível, da maneira mais positiva possível. A outra faixa, DJ Revisionist, é como se Ishraqiyun tivesse colaborado com uma faixa para o Disco Volante do Mr. Bungle. Música dinâmica e muito bem executada com toda uma característica oriental.

Ur, a sexta banda do disco, é formada por Timb Harris, Jesse Greere, Tim Smolens, Trey Spruance e convidados. É a mais americanizada de todas, apresentando faixas com diversos elementos ocidentais. Book T - Exodus, releitura de Ernest Gold, poderia facilmente ser a trilha sonora de um filme épico hollywoodiano. Anthropomophosis: Boxleitner, por sua vez, começa com um clima todo sombrio repleto de guitarras e teclados. Então, inesperadamente, dá lugar a um pop cheio de sintetizadores, e o resto é só ouvir para acreditar.

Enfim, creio que esta é a melhor maneira de se fazer um review deste incrível álbum: seis bandas e uma obra prima. É mais que recomendado: é obrigatório. E eis o tracklist:

1. Forms - The End Times
2. Ishraqiyun - The 4 (Great Ishraqi Sun)
3. Traditionalists - The Indestructible Drop
4. The Holy Vehm - Exterminating Angel
5. Forms - The Owl In Daylight
6. Traditionalists - The Exile
7. The Electromagnetic Azoth - On The Wings Of The Haoma
8. Ur - Book T - Exodus
9. The Holy Vehm - Hypostasis Of The Archons
10. Traditionalists - The Electrotheonic Grail Dove
11. Ishraqiyun - The 3
12. The Electromagnetic Azoth - DJ Revisionist
13. Ur - Antropomorphosis: Boxleitner
14. Forms - Welcome To The Theatron Animatronique

Eis uma performance da música The 4 pela banda Ishraqiyun:

segunda-feira, 20 de março de 2006

Artista: Björk; Álbum: Medúlla



Artista: Björk
Álbum: Medúlla
Ano: 2004
Gênero: Avant-garde; acapella

O nome da figura é Björk Guðmundsdóttir. Ela é uma das 300 mil pessoas nascidas na remota ilha da Islândia, que fica entre a Groenlândia e a Noruega. Veio ao mundo em 21 de Novembro de 1965, e desde então recebeu infinitos rótulos. Seu primeiro lançamento aconteceu em 1977, quando a cantora tinha apenas 12 anos. Anos mais tarde, ela seria a principal figura da banda Sugarcubes, vindo a se tornar artista solo na década de 90.

O primeiro álbum solo da Björk é o ótimo Debut, que possui influência de pop, jazz, trip hop e outros gêneros. E embora o álbum tenha sido um sucesso, ela não se acomodou e inovou a cada álbum. Post apresentava variações incríveis, como a perfeita Hyperballad, que mistura música eletrônica de balada com violinos extremamente melódicos. Homogenic é tudo menos homogênico, contrastando a extremamente otimista Alarm Call com a caótica e furiosa Pluto. Vespertine é uma viagem sem precedentes, e então Björk ficou 4 anos sem lançar material novo.

Muita especulação se fez acerca de Medúlla, lançado em 2004. Era óbvio que ela estava tendendo ao minimalismo (Vespertine apresenta batidas extremamente delicadas, muitas imperceptíveis se não ouvidas com um fone de ouvido muito bom), mas quando ela anunciou que 99% dos sons ouvidos no álbum haviam sido produzidos sem instrumentos, ninguém sabia o que esperar.

Vários artistas foram convidados para participarem das gravações. Mike Patton, que já foi citado à exaustão neste blog, participa das faixas The Pleasure Is All Mine e Where Is The Line; Robert Wyatt, que já foi do Soft Machine, participa da faixa Submarine; a exótica "throat singer" (algo como cantora de garganta) esquimó Tagaq participa das faixas Ancestors e Mouth's Cradle; os beatboxes do álbum todo ficaram por conta do rapper Rahzel, que fazia parte da banda The Roots, e de Dokaka, um beatboxer japonês. É interessante notar que são músicos com diversos perfís. Conheço bastante o trabalho de Mike Patton, Rahzel e Dokaka, e são totalmente distintos.

Ao ouvir o CD, notamos que é diferente de tudo o que já foi feito por Björk. A faixa de abertura, a belíssima Pleasure Is All Mine, inicia com uma bela harmonia de vozes e, mais para frente, são as vozes que se transformam em plano de fundo, juntamente com o suave beatbox feito por Rahzel. O crescendo da canção causa arrepios e alguns gemidos vão surgindo, e ficamos com a impressão de que estamos ouvindo um coral de anjos fazendo sexo (se é que eles têm um).

Daí prá frente, temos faixas de todos os estilos. Show Me Forgiveness é um solo de Björk, mas a próxima faixa é extremamente sofisticada. Where Is The Line começa com Björk repetindo "Where is the line with you?", e logo ouvimos Mike Patton entrando com sua voz extremamente grave e, inesperadamente, uma avalanche de vozes e beatboxes preenchem a canção. O ritmo é incrível, quase primitivo, e é difícil não se surpreender.

Os grandes destaques do álbum são Who Is It (Carry My Joy On The Left, Carry My Pain On The Right), Submarine, Oceania, Ancestors, Mouth's Cradle e Triumph Of A Heart.

Who Is It foi o primeiro single, e apresenta uma deliciosa melodia e um refrão grudento. O beatbox feito por Rahzel impressiona pela perfeição. Submarine parece ter sido gravada por um coral de anjos de tão bela, com o silêncio sendo muito bem explorado. Oceania, o lindo bolero cantado por Björk na abertura dos jogos olímpicos de Sidney, tem a letra feita pelo poeta islandês Sjón. O ritmo com que o coral canta remete ao movimento das ondas do mar, numa incrível referência que independe da letra.

Ancestors é absurdamente experimental. Com um piano suave, Björk e Tagaq fazem harmonias totalmente excêntricas, com gemidos e sons guturais (afinal, como já foi citado, Tagaq é uma throat singer). Totalmente anti-convencional. Tagaq também participa de Mouth's Cradle, mas de um jeito totalmente diferente. Seus sons guturais funcionam quase como um beatbox, dando uma característica bem peculiar à música. E finalmente Triumph Of A Heart, com beatboxes de Rahzel e Dokaka. A música poderia tocar com facilidade em qualquer danceteria, mesmo sem ter qualquer elemento não-vocal. Os efeitos vocais de Dokaka são surpreendentes.

Tracklist:
1.
The Pleasure Is All Mine
2. Show Me Forgiveness
3. Where Is The Line

4. Vökuró
5. Öll Birtan
6. Who Is It (Carry My Joy On The Left, Carry My Pain On The Right)
7. Submarine
8. Desired Constellation
9. Oceania
10. Sonnets/Unrealities XI
11. Ancestors
12. Mouth's Cradle
13. Miðvikudags
14. Triumph Of A Heart

Recomendadíssimo do início ao fim.

Eis o clip de Oceania: