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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Banda: Beat Circus; Álbum: Dreamland

Banda: Beat Circus
Álbum: Dreamland
Ano: 2008
Gênero: Cabaré, experimental


Em 1904, foi fundado um enorme parque de diversões na cidade de Nova York. O parque se chamava Dreamland (Terra dos Sonhos) e continha uma enorme variedade de atrações, que iam desde os tradicionais domadores de leões até uma inteira vila "lilliputiana" com nada menos que 300 anões (!!) e uma inusitada exposição de bebês em incubadoras – como os hospitais ainda não confiavam totalmente no equipamento, uma família de circenses resolveu testá-los em seus próprios filhos, trigêmeos prematuros. O parque possuía uma enorme torre, mais de um milhão de lâmpadas e muitos outros superlativos.


Apesar de toda a pompa e beleza, o Dreamland teve um destino trágico: um enorme incêndio em 1911 engoliu o parque, e a história do enorme parque terminou por aí (nota: os bebês das incubadoras foram salvos, mas, infelizmente, um dos leões não teve a mesma sorte e foi morto a tiros pela polícia novaiorquina enquanto corria solto pelas ruas).

A trágica história do parque de diversões foi absorvida pela cultura pop e inspirou diversos relatos, reportagens, romances. Inspirou, também, um compositor chamado Brian Carpenter, a mente por trás do Beat Circus e, consequentemente, por trás deste álbum. Falemos um pouco, então, deste peculiar projeto.

A história da "banda", se é que o termo se aplica, teve começo em 2001, quando Carpenter se mudou para Boston para dirigir um documentário sobre a vida de Albert Ayler, um dos saxofonistas mais extremos e peculiares do free jazz (aliás, seu disco Spiritual Unity, de 1964, é belíssimo). Ele conheceu o banjoísta Brandon Seabrook, que lhe apresentou alguns músicos, e juntos eles criaram um projeto musical que se firmava em músicas circenses e improvisação. Originalmente chamado de Beat Science, o projeto foi rebatizado de Beat Circus e lançou seu primeiro álbum, Ringleaders, em 2004, contendo o tipo de material descrito nas linhas anteriores.

Em 2005, o som do Beat Circus sofreria uma guinada radical em seu estilo. Carpenter começou a escrever um conjunto de músicas que totalizavam 150 páginas de partituras com letras, uma mudança bastante significativa. A obra era baseada na trágica história do parque Dreamland, tanto musicalmente, com sua sonoridade de cabaré e pré-jazz, quanto liricamente, com referências a fatos e personagens. Para executá-la, Carpenter incrementou a formação original do Beat Circus com novos integrantes, resultando em um grupo de nove pessoas. Além disso, como se o projeto já não fosse ambicioso o suficiente, anunciou que Dreamland era a primeira parte de uma trilogia denominada Weird American Gothic – embora não se saiba exatamente qual seja seu fio condutor, visto que não há nenhuma ligação entre Dreamland e o álbum seguinte, Boy From The Black Mountain. Mas vamos às faixas.

A abertura Gyp the Blood é instrumental e tem um ambiente misterioso e antigo, instigando o ouvinte e convidando-o a desvendar o que vem pela frente. É o grupo se apresentando: percussão, banjo, cordas e metais vão surgindo aos poucos, e antes que se perceba estão enchendo os ouvidos.

O apito do trem junta a faixa anterior a The Ghost of Emma Jean. A faixa truncada, que nunca parece chegar a um desdobramento com seu banjo insistente e suas cordas em staccato. Quando os vocais do próprio Carpenter entram, entendemos: a faixa conta a história de Emma Jean, uma garota que morreu atropelada por um trem e agora vive do sombrio ofício de assombrar sonhos. Ao final, uma gaita simula os apitos do  trem enquanto o fantasma, interpretado por Orion Rigel Dommisse, canta um sinistro la la la.

O curto e sombrio interlúdio Hypnogogia anuncia uma das melhores faixas do disco: Delirium Tremens. O título da música é uma referência ao termo usado para descrever os sintomas da abstinência de álcool em alguns dependentes: delírios, pesadelos, tremedeiras e outras tantas coisas desagradáveis. O andamento lento e sinistro, as escalas no banjo, a percussão e as cordas fantasmagóricas fazem o pano de fundo para a voz teatral de Carpenter cantar sofrida. No refrão particularmente viciante, em que o título da música é cantado por um coro, entra um acordeon e tudo ganha um tom especialmente tragicômico. Sensacional.



Lucid State é mais um interlúdio, que tem uma pegada meio nuevo tango, parecida com as músicas compostas por Glover Gill e executadas pela Tosca Tango Orchestra para a trilha sonora do ótimo filme Waking Life (se você não assistiu, assista!). Ela abre alas para a sombria Death Fugue, que tem uma pegada totalmente heavy metal apesar da falta de guitarra e distorções. Os vocais em harmonia, os violinos quase diabólicos ao fundo e o estouro no meio da música são puro rock and roll.

The Good Witch é mais um filler, com uma voz feminina fazendo vocalizações com um teclado ao fundo. Em seguida, a valsa triste Dark Eyes é anunciada por uma longa introdução ao violino, e nos sentimos no casamento de Connie Corleone no primeiro filme da trilogia O Poderoso Chefão. Belíssimo tema.

A delicadeza e lirismo da valsa morre subitamente na frenética Slavochka, com seu dueto furioso entre violino e trompete. A melodia e o andamento enganam o ouvinte e fazem parecer que a canção nasceu do mesmo vilarejo romeno de onde saiu o Taraf de Haïdouks, e é muito fácil imaginar uma trupe cigana dançando fervorosamente. Nem mesmo as mudanças de andamento e compasso descaracterizam esta ótima composição, que é um dos grandes momentos do álbum.




The Gem Saloon é interessantíssima, com uma pegada meio Tom Waits. Entre a voz de Carpenter e a das garotas que cantam o refrão, ouvimos muitas camadas diferentes de instrumentos e, pela primeira vez, um solo de guitarra (slide guitar, para ser mais preciso).

Após o interlúdio El Torero, que é basicamente um solo de trompete tocado pelo próprio Carpenter, temos a valsa flamenco-circense The Rough Riders, com suas diversas mudanças rítmicas, passando do andamento quase embriagado até um empolgante flamenco. Um momento um pouco morno, mas não menos bonito.

Coney Island Creepshow é bastante teatral. Começa com o anúncio de um apresentador de circo da grande atração: o show de aberrações e é evidente que o clima circense domina a canção, que remete totalmente à música de cabaré. Além de Carpenter, DJ Hazard e M. McNiss também cantam, e os três vão se alternando verso a verso. Divertida, mas não é um destaque.

Hell Gate é bizarríssima, misturando muitos fragmentos em seus 2:37 de duração. Música circense "fora de rotação", um curto momento meio Fantômas, interrupções inesperadas, corais sinistros, música balcânica – tudo está aqui. O interlúdio – se é que podemos chamá-lo assim – mais interessante do álbum.

Meet Me Tonight In Dreamland representa o momento em que o circo pega fogo - literalmente. É um dramático solo de piano com efeitos sonoros ao fundo, que logo para e dá lugar ao som de fogo e gritos. Quando tudo parece acabar, um último solo no melhor estilo "saloon" encerra tudo.

O álbum encerra com March of the Freaks, que começa após um minuto de silêncio. Alguns suspiros meio "beat box" quebram o silêncio, e uma última melodia circense finaliza a primeira etapa da trilogia de Brian Carpenter.

Dreamland é um álbum interessantíssimo e tem alguns momentos verdadeiramente brilhantes, como Delirium Tremens e Slavochka, mas o final é um pouco anticlimático. De qualquer maneira, vale a pena conhecer a trupe de Carpenter e suas impressionantes habilidades. O melhor de tudo é que o álbum todo pode ser ouvido gratuitamente neste link, que traz também a lista de participantes em cada uma das músicas.

Tracklist:
1. Gyp The Blood
2. The Ghost of Emma Jean
3. Hypnogogia
4. Delirium Tremens
5. Lucid State
6. Death Fugue
7. The Good Witch
8. Dark Eyes
9. Slavochka
10. The Gem Saloon
11. El Torero
12. The Rough Riders
13. Coney Island Creepshow
14. Hell Gate
15. Meet Me Tonight In Dreamland
16. March Of The Freaks

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Banda: Diablo Swing Orchestra; Álbum: The Butcher's Ballroom


Banda: Diablo Swing Orchestra

Álbum: The Butcher's Ballroom
Ano: 2006
Gênero: Metal Avant-garde

O metal é um gênero que acumula preconceitos, lendas urbanas, mitologias, amor, ódio e muitas subdivisões.

Todo mundo já teve um colega de classe cabeludo que, não raramente, aparecia com uma camiseta de banda de metal. Quem não teve, era o próprio cabeludo (inclusive este que vos fala). O gênero tem tantas subdivisões que geram atrito entre os fãs desse ou daquele estilo: heavy, thrash, glam, death, black, white, funk, prog, nü, groove, doom, industrial e muitos outros.

A cultura do metal é tão peculiar que existem rótulos para aqueles que só escutam e gostam de determinado estilo - os true - e para aqueles que fingem que gostam - os posers. Existem bandas que levam isso tão a sério que viram inspiração para bandas-sátira, como o Manowar para o Massacration. E essa atitude de true e poser é o que faz com que os fãs de metal sejam vistos como bitolados pelas pessoas mais ecléticas.

Quando os preconceitos são deixados de lado e as bandas resolvem agregar elementos alheios ao estilo, porém, geralmente o resultado traz discos marcantes e muito originais - o álbum Roots dos brasileiros do Sepultura, por exemplo, misturou música indígena dos Xavantes com o groove metal herdado do disco anterior, Chaos A.D.. É considerado por críticos e por muitas outras bandas como um dos álbuns mais influentes dos anos 90, embora alguns fãs mais tradicionais da banda torçam o nariz pelo caminho tomado pela banda após o também clássico Arise.

Essa conversa toda foi para chegar ao disco aqui resenhado: o ótimo The Butcher's Ballroom da banda sueca Diablo Swing Orchestra.

A história "oficial" da banda é cercada de mitologia. Diz a lenda que no século XVI, na Suécia, existia uma orquestra que tocava hinos que desafiavam o poder da Igreja (teoricamente Protestante) que dominava o país. Ao provocar a ira dos religiosos, os integrantes dessa banda tiveram que viver escondidos nas casas dos camponeses. Por anos a orquestra tocaria para o prazer de seus anfitriões, mas ao ver que a recompensa oferecida por suas cabeças era alta demais, os músicos concluíram que seriam capturados e, em uma despedida triunfal, fizeram um espetáculo maravilhoso e inacreditável antes de serem executados. Os membros da Diablo Swing Orchestra (ou DSO) seriam descendentes desses mártires da música.

Fantasia à parte, o DSO é formado por Daniel Håkansson (guitarra/vocal), Pontus Mantefors (guitarra/efeitos), Annlouice Lögdlund (vocal lírico), Andy Johansson (baixo), Johannes Bergion (violoncelo), Andreas Halvardsson (bateria, posteriormente substituido por Petter Karlsson), Daniel Hedin (trombone) e Martin Isaksson (trompete). Essa formação - nada ortodoxa para uma banda de metal - é um dos motivos pelos quais o DSO é tão diferente das demais bandas. E ao ouvir The Butcher's Ballroom fica óbvio o motivo.

O disco abre com a poderosa Balrog Boogie, um cruzamento preciso de metal com boogie -woogie (como o título sugere). A primeira vez que se escuta a voz da soprano Lögdlund é um choque, principalmente no meio de uma música nada lírica como essa. Difícil não se deixar levar pelo ritmo, e é possível até imaginar muitos dos true se segurando para não sair dançando. Isso sem contar a peculiaridade da letra ser em latim.

Heroines começa tranquila, com um ritmo gostoso no violoncelo e na bateria. Os vocais calmos de Lögdlund logo dão lugar à uma ponte interessantíssima com direito a um dueto com ela mesma, e um urro gutural faz a música explodir com as guitarras distorcidas. Tem um belíssimo refrão e é uma das que mais me chamou a atenção na primeira audição.

Poetic Pitbull Revolutions começa com um violão flamenco interessantíssimo, e logo as guitarras distorcidas entram junto com os trompetes e parece que estamos em um filme onde Zorro faz parte do Metallica. O contraste dos riffs pesados com a melodia à-lá mariachi dos trompetes funciona tão bem que é difícil lembrar que, originalmente, um não tem nada a ver com o outro. Os vocais dessa vez ficam, na maior parte da música, por conta de Håkansson, mas quando Lögdlund aparece a música ganha proporções épicas. Ótima faixa.

O teclado da introdução de Rag Doll Physics poderia facilmente aparecer em um disco do Deep Purple. A música é uma bela valsa, com vários momentos minimalistas onde a banda pára e dá destaque para a voz da vocalista. Destaque para o dueto barroco de violões próximos ao fim da faixa.

D'Angelo é um momento plenamente lírico. Contando apenas com Lögdlund cantando em italiano acompanhada de um violão levemente dedilhado, é um dos momentos mais tradicionais do álbum. Nem por isso deixa de ser bela - é o tipo de música que tanto você quanto sua avó iriam achar linda.

A calmaria da música anterior dá lugar à pancada Velvet Embracer, uma bela faixa de metal sinfônico. Grandiosa e pesada, é uma faixa que os fãs de Nightwish e outras bandas do estilo certamente iriam gostar muito. Os vocais de Lögdlund novamente impressionam, e o arranjo de cordas ao fundo são a cereja no topo do bolo.

Se você não sabe o que é um didgeridoo, dê uma olhada no vídeo abaixo:


Esse instrumento, assim como o rapaz que o está tocando no vídeo, tem origem aborígene, ou seja, na Austrália pré-colonial. E é com esse som que começa Gunpowder Chant, uma faixa instrumental com pegada árabe. É muito sinestésica, com uma bateria marcante, e quando menos se percebe já começou Infralove. A transição entre as duas músicas é imperceptível, e é interessante ver como a melodia da primeira é desenvolvida na segunda música. É como se um faraó saísse de sua pirâmide em Gunpowder Chant, agarrasse uma prancha e começasse a surfar no Mar Mediterrâneo em Infralove.

Wedding March For A Bullet é uma de minhas faixas favoritas. Uma música extremamente bem construída, pesada e elaborada que consegue ser fácil de escutar ao mesmo tempo. Os riffs precisos, a bateria destruidora e o groove do refrão são irresistíveis.

Qualms of Conscience é um pequeno filler no piano, mas Zodiac Virtues passa longe dessa condição. O riff malvado que abre a música dá lugar à um vocal que me lembra Andi Deris, do Helloween, por algum motivo. Novamente Lögdlund impressiona no refrão (ela não cansa?!). As cordas e o coral dão, novamente, um tom épico à essa bela canção.

Porcelain Judas tem um tempero oriental misturado aos riffs, que por sua vez tem muita influência de música clássica no refrão. Muitas variações estilísticas nesta bela faixa.

O gran finale fica por conta de Pink Noise Waltz. Como o nome sugere, é uma valsa pesadíssima, que alterna momentos mais delicados com momentos agressivos. O final da música é um desfile de estilos e influências: música barroca em alguns interlúdios (particularmente no solo de flauta), thrash metal e, surpreendentemente, o álbum termina com um suave jazz.

Não tenho dúvidas que os true de alguns estilos de metal iriam desprezar este álbum, mas eu o recomendo por ser uma belíssima demonstração de como fazer música pesada com criatividade, qualidade e principalmente sem burocracia.

Tracklist:
1."Balrog Boogie"  3:52
2."Heroines"  5:21
3."Poetic Pitbull Revolutions"  4:52
4."Ragdoll Physics"  3:52
5."D'Angelo"  1:53
6."Velvet Embracer"  4:04
7."Gunpowder Chant"  1:50
8."Infralove"  4:53
9."Wedding March for a Bullet"  3:13
10."Qualms of Conscience"  1:15
11."Zodiac Virtues"  4:46
12."Porcelain Judas"  4:08
13."Pink Noise Waltz"  6:05