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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Artista: Tom Zé; Álbum: Todos Os Olhos



Artista: Tom Zé
Álbum: Todos Os Olhos
Ano: 1973
Gênero: MPB; Tropicália

Tom Zé é demais. Tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente na última passagem dele por Bauru e o que era pra ser uma entrevista de cinco minutos virou um bate papo de mais de meia hora sobre a vida dele e sua experiência tropicalista. Mas vamos falar de Todos Os Olhos.

Este álbum foi lançado em 1973, quase dez anos após o início da ditadura militar no Brasil. Gil e Caetano já haviam deixado o tropicalismo de lado, mas Tom Zé seguia firme e forte. Não por fidelidade a uma ideologia ou coisa semelhante. Segundo o próprio, ele segue até hoje compondo nesse estilo porque "não sabe fazer outra coisa". O uso das guitarras elétricas, o lirismo ímpar e as diversas excentricidades estão encravadas nesta figura.

A capa de Todos Os Olhos é tema de inflamadas discussões até hoje. Por anos, foi um ânus (sem trocadilhos) com uma bolinha de gude. Mas aí a Carta Capital lançou uma matéria com o fotógrafo da capa do disco e ele contou que, na verdade, é uma boca. Chegaram a fotografar o famoso outro orifício, mas ficou muito óbvio do que se tratava e resolveram fotografar a bolinha de gude na boca da modelo. Muita gente ficou desapontada, mas o que importa é que, sem querer, Tom Zé gerou a polêmica: existe tanta diferença assim entre os dois?

Voltando. Todos Os Olhos é um disco fantástico. Traz algumas de suas melhores músicas (na opinião de quem vos escreve, lógico) e uma enorme variedade de experiências muito a frente de sua época. A começar pela faixa de abertura: Cademar não tem mais de um minuto e sua letra foi composta em parceria com o poeta concretista Augusto de Campos. É uma música truncada, parecendo um metrônomo. Nada convencional para uma abertura de disco.

Então começam os cavacos e a faixa título, Todos Os Olhos. Um samba meio esquisito, com violões de 12 cordas e uma letra tomzeana. "De vez em quando todos os olhos se voltam prá mim / De lá de dentro da escuridão / Esperando e querendo apanhar / Querendo que eu bata / Querendo que eu seja um Deus."

Dodó e Zezé conta com a participação de Odair Cabeça de Poeta. É praticamente folclórica, trazendo o diálogo entre dois personagens: um indaga (Dodó) e o outro sempre tem a resposta na ponta da língua (Zezé), geralmente irônica e muito crítica à sociedade. "-Sorrisos, creme dental e tudo / E por que é que a felicidade anda me bombardeando? / Diga Zezé / -Isso é pra todo mundo saber que ninguém mais tem o direito de ser infeliz, / viu Dodó? / -Ahn...". Na conversa que ele teve conosco, ele disse que isso é uma referência à "obrigatoriedade" do povo brasileiro ser feliz mesmo em plena ditadura militar. Nas palavras do próprio, "o cara aponta uma arma e fala 'seja feliz, filho da puta, senão eu te mato'". Simples assim.

Quando Eu Era Sem Ninguém é uma baião animadíssimo, cheio de triângulos e coros, e é um contraste imenso quando, ao seu término, começa Brigitte Bardot, uma bossa melancólica e filosófica sobre a musa dos anos 60 e que, segundo Tom Zé, estava ficando velha. "Envelheceu antes dos nossos sonhos. / Coitada da Brigitte Bardot, que era uma moça bonita. / Mas ela mesma não podia ser um sonho / para nunca envelhecer (...) / Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar / na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar?" E, do nada e por pouco tempo, a música cresce, dando um fundo sombrio para "suicidar". Genial, perfeito casamento entre letra e música.

Uma das letras mais poéticas de Tom Zé (formalmente falando) é a do samba Augusta, Angélica e Consolação. Tom Zé retrata as características de alguns locais da cidade de São Paulo através de personificações e paranomásias. Segundo ele, os versos mais lindos que já escreveu na vida são "Quando eu vi que o Largo dos Aflitos / não era bastante largo / prá caber minha aflição, / eu fui morar na Estação da Luz / porque estava tudo escuro / dentro do meu coração". A música, em si, fica na cabeça. Um dos mais belos sambas já escritos.

Novamente um contraste. Logo após o lirismo de Augusta, temos a irreverência crítica de Botaram Tanta Fumaça. A música trata das conseqüências da modernização descontrolada, e entre estas estão os olhos ardendo, a cuca quente e a consciência podre. Em seguida temos O Riso e a Faca (em uma versão diferente da presente no disco anterior, entitulado Tom Zé) , e o que mais me chama a atenção nesta música é a maneira como ele trabalha as sílabas do fim de cada palavra no refrão. Algo como: "Fiz meu ber-ço-na / viração. / Eu / só descan / so-na / tempesta / de / só / adorme / ço-no / furacão". Até eu entender que ele não falava "só adormeço nu" foi um longo caminho.

"Um 'Oh!' e um 'Ah!'" não tem letra, apenas, como diz o título, "Oh", "Ah" e (surpresa!) "parakatizum". E depois desse interlúdio temos a porrada na cara: "Complexo de Épico" é uma alfinetada a muita gente da música. Faço questão de colocar a letra na íntegra logo abaixo:

Todo compositor brasileiro é um complexado
Por que então esta mania danada, esta preocupação
De falar tão sério,
De parecer tão sério
De ser tão sério
De sorrir tão sério
De chorar tão sério
De brincar tão sério
De amar tão sério?

Ai, meu Deus do céu, vai ser sério assim no inferno!

Por que então esta metáfora-coringa
Chamada "válida"
Que não lhe sai da boca, como se algum pesadelo
Estivesse ameaçando os nossos compassos
Com cadeiras de roda, roda, roda, roda?
E por que então esta vontade de parecer herói
Ou professor universitário
(Aquela tal classe que,
ou passa a aprender com os alunos - quer dizer, com a rua –
ou não vai sobreviver)?
Porque a cobra já começou a comer a si mesma pela cauda,
Sendo ao mesmo tempoa fome e a comida.

Sensacional. Não precisa nem comentar: a letra fala por si mesma.

Enfim, Todos Os Olhos é uma obra-prima e talvez o melhor disco de Tom Zé. Logo, está recomendadíssimo.

Tracklist:

1. Cademar
2. Todos os Olhos

3. Dodó e Zezé
4. Quando Eu Era Sem Ninguém
5. Brigitte Bardot
6. Augusta, Angélica e Consolação
7. Botaram Tanta Fumaça
8. O Riso e a Faca
9. Um "Oh" e um "Ah"
10. Complexo de Épico

Abaixo, Tom Zé tocando Augusta, Angélica e Consolação na passagem de som para o show na Unesp Bauru (filmado por mim, inclusive!):

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Artista: Milton Nascimento; Álbum: Minas



Artista: Milton Nasciomento
Álbum: Minas
Ano: 1975
Gênero: MPB

O artista abordado hoje é bem conhecido dos brasileiros (principalmente daqueles que foram jovens nas décadas de 70 e 80). Milton Nascimento tem uma carreira extensa, que estourou em 1966 quando Elis Regina gravou Canção do Sal, uma de suas músicas. Desde então seguiu uma extensa e reconhecida carreira, extrapolando as fronteiras do Brasil.

Mas o álbum exposto neste blog é diferente da carreira mais "conhecida" de Milton. Minas é ímpar por inúmeras razões. Foi lançado em 1975 pela EMI, e traz na capa o rosto de Milton. Vale lembrar que o Brasil estava sob o comando dos militares, o AI-5 estava em vigor e muita gente sofria com a censura. Entretanto, Milton Nascimento e os mineiros em geral (principalmente o chamado "Clube da Esquina", que incluía Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, entre outros) tinham enorme prestígio dentro das gravadoras. O presidente da EMI chegou a dizer: "Temos nossos comerciais. Vocês mineiros fazem o que quiserem".

O nome Minas não se refere apenas ao Estado onde Milton cresceu (embora tenha nascido no Rio de Janeiro), mas também ao seu próprio nome: Milton Nascimento (fato identificado, segundo o encarte, por um menino) - inclusive, a própria capa é um close do rosto de Milton.


Minas é a primeira parte de dois álbuns muito ligados. O álbum lançado no ano seguinte, Geraes, completa minas de maneira que ambos podem ser considerados uma única obra. Mas por considerar Minas superior, é ele o resenhado.
Logo de início, com a faixa título, Minas se mostra diferente dos demais álbuns da época: é totalmente acapella, com um coro de crianças e um canto lírico de Milton e Beto Guedes. Passada essa introdução, tem-se Fé Cega, Faca Amolada, que pode ser considerado um hit por sua melodia relativamente simples.

A genialidade de Milton como intérprete se faz presente na belíssima Beijo Partido, a bela balada composta por Toninho Horta. Milton canta com tanto sentimento e beleza que comove até os menos sensíveis. Além disso, o arranjo da música é impecável, formando um verdadeiro turbilhão sonoro, preenchendo cada lacuna com o elemento certo. Chegou a ser trilha sonora de novela e tudo.

Saudades dos Aviões da Panair (Conversando no Bar) é uma das mais belas canções da MPB, tanto pela letra quanto pela música. Elis chegou a interpretá-la, mas a versão de Milton vence pela beleza. É cantada, em grande parte, por um coro de crianças. O ritmo truncado, lento, que mais tarde desbanca para um carrossel frenético, é sensacional. "Nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar".

A parte mais alternativa do disco, sem dúvida, fica por conta das faixas Gran Circo e Trastevere. A primeira tem tantas mudanças rítmicas que torna difícil prever o que vem após cada passagem; a segunda traz uma bateria completamente livre, dando a impressão de algo fora do compasso (mas como diria George Harrison, "ele apenas escreveu a música desse jeito"). É incrível quando um artista popular rompe com o comum e produz algo desse tipo. 

Entre as duas, porém, existe Ponta de Areia, que também explodiu na voz de Elis Regina. Uma melodia repetitiva, quase infantil, mas tocante e profunda, coroada pela letra nostálgica e rica. Belíssima faixa.

Idolatrada é um rock and roll experimental, com guitarras distorcidas e percussão pesada. O baixo faz o pano de fundo perfeito para Milton soltar a voz com intensidade e precisão. O interlúdio com cordas, a volta do coral de crianças de Minas e o final caótico são a cereja no bolo. Ótima faixa.

Leila (Venha ser Feliz) foi escrita como uma homenagem à atriz Leila Diniz, que morreu em um acidente aéreo em 1972, no auge da fama. Leila era uma figura polêmica, que ignorava o moralismo conservador e concedia entrevistas em que falava abertamente sobre sua sexualidade, afirmando, sem pudores, que transava "de manhã, de tarde e de noite". A canção alegre traz Milton fazendo vocalizações e convidando Leila a ser feliz.

Paula e Bebeto, uma das mais famosas do repertório de Milton, traz a icônica frase "qualquer maneira de amor vale a pena/qualquer maneira de amor valerá" cantada na mesma melodia da faixa de abertura. Novamente vale a pena destacar a percussão brasileiríssima e a interpretação impecável de Milton.

O álbum ainda traz uma das faixas de encerramento mais brutas da música brasileira: Simples parece ter sido composta por Graciliano Ramos. Só ouvindo pra entender.

Recomendadíssimo do início ao fim.

Tracklist:
1. Minas
2. Fé Cega, Faca Amolada
3. Beijo Partido
4. Saudades dos Aviões da Panair
5. Gran Circo
6. Ponta de Areia
7. Trastevere
8. Idolatrada
9. Leila (Venha Ser Feliz)
10. Paula e Bebeto
11. Simples