quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Banda: Faith No More; Álbum: Sol Invictus


Banda: Faith No More
Álbum: Sol Invictus
Ano: 2015
Gênero: Rock; alternativo

Desde que este blog começou, no longínquo ano de 2006 (!), já resenhei pelo menos nove álbuns em que Mike Patton teve algum grau de envolvimento. Curiosamente, nunca resenhei nada da banda que realmente o trouxe aos holofotes (o inverso talvez seja verdadeiro): o Faith No More. A banda fez um sucesso considerável no final dos anos 80 e durante os anos 90, principalmente com os singles dos álbuns The Real Thing, de 1989, e Angel Dust, de 1992.

Talvez seja precipitado afirmar que Mike Patton foi o responsável pelo sucesso comercial do Faith No More, mas o fato é que, antes dele, a banda não havia estourado. Desde que foi fundado em 1981 por Billy Gould (baixo), Roddy Bottum (teclado) e Mike Bordin (bateria), o FNM não teve muita sorte com vocalistas -  até Courtney Love (aquela mesmo) chegou a assumir o microfone, vindo inclusive a ter um relacionamento com Roddy Bottum, que assumiria sua homossexualidade nos anos 90. Finalmente, estabeleceram-se com Chuck Mosley e com o guitarrista Jim Martin.

Abro aqui um parêntese para explicar a origem do nome "Faith No More". Antes de fundarem a banda, Gould e Bordin faziam parte de um conjunto chamado Sharp Young Men. O vocalista Mike Morris tinha o apelido de "The Man", e quando surgiu a conversa de mudar o nome da banda ele sugeriu "Faith In No Man". A sugestão de Bordin, porém, viria a vencer: tiraram o "in" e a banda virou "Faith No Man". Quando a banda acabou, os antigos membros concluíram que o nome não fazia mais sentido, pois "The Man" (Mike Morris) não estava mais com a banda (No More). Assim, nasceu o nome "Faith No More". Falemos um pouco da trajetória da banda.

O debut We Care a Lot foi lançado em 1985, e não chamou muito a atenção da grande mídia. A faixa título viria a ser reaproveitada no segundo álbum, Introduce Yourself, de 1987, e fez um sucesso modesto na MTV, mas ainda assim a banda não decolou. Para piorar, Mosley seria demitido no ano seguinte devido aos seus problemas com drogas.

Enquanto tudo isso acontecia, o jovem vocalista Mike Patton estava gravando demo atrás de demo com o Mr. Bungle, sua banda dos tempos de colégio. Uma fita foi parar nas mãos do guitarrista Jim Martin, e o resto é história. Em duas semanas de banda, Patton escreveu todas as letras para o que viria a ser o passaporte da banda para a história do rock.


Quase que da noite para o dia, o Faith No More virou uma banda grande e influente. A maneira como eles misturavam gêneros em suas músicas era bem incomum para bandas do mainstream: do rap ao metal, passando pelo funk, new wave e mais um monte de coisa. Os clipes passavam o tempo todo na MTV: Epic, Falling to Pieces, From Out Of Nowhere. Saiu CD e VHS ao vivo em Brixton, na Inglaterra, vieram para o Rock In Rio II, em 1991.

Toda a fama conquistada com The Real Thing criou muita expectativa para o trabalho seguinte, e quando Angel Dust finalmente saiu, em 1992, foi considerado uma obra-prima. A banda estava mais coesa, madura e ainda mais eclética, rompendo com a veia comercial do debut. A diversidade de temas abordados em instrumentais impecáveis e criativos foi recebido calorosamente por fãs e crítica: momentos suaves como o belíssimo cover de Easy (originalmente dos Commodores) e a curiosa RV estão misturados a pauladas como Caffeine e Smaller and Smaller; os teclados de Bottum destacam-se nos momentos certos (como Everything's Ruined e Crack Hitler), Martin mostra toda sua influência do metal em canções como Jizzlobber e Malpractice e Gould, Bordin e Patton são absolutamente versáteis. Infelizmente, seria o último trabalho da banda com o guitarrista Jim Martin, que estava descontente com o rumo musical da banda - diz a lenda que ele foi demitido por fax, mas ele diz que saiu. Vai saber.

Em 1995, o guitarrista Trey Spruance, parceiro de Patton no Mr. Bungle, junta-se ao FNM para gravar King for a Day... Fool for a Lifetime. Ainda mais eclético que seu antecessor, é o álbum do Faith No More com menor presença de teclados: Bottum perdeu o pai na época da gravação, e também ficou bastante abalado com a morte do amigo Kurt Cobain. Estando ausente do estúdio, a banda tomou as rédeas e o resultado foi mais cru e dominado pelos demais instrumentos. Apesar de ser, na minha opinião, o melhor álbum da banda, pode-se dizer que foi o início do declínio: Spruance saiu logo após as gravações, sendo substituído por Dean Menta, que também seria substituído após um ano e meio por Jon Hudson. Além disso, o ecleticismo não foi muito bem aceito pela mídia, e os singles Digging the Grave, Evidence e Ricochet não fizeram tanto sucesso quanto seus antecessores.

A banda voltaria ao estúdio em 1997 para gravar Album of the Year, um álbum muito bom e sólido, mas que não conseguiu resgatar a popularidade perdida com os anos. Além disso, boa parte dos membros estavam trabalhando em projetos paralelos e o clima entre eles não era dos melhores. Todos esses fatores levaram ao fim da banda em 1998.

Com o fim, os membros do FNM puderam se dedicar integralmente a seus projetos. Mike Patton, workaholic por natureza, concluiu as gravações de California, do Mr. Bungle, e idealizou/participou de mais uma série de projetos, como Fantômas, Lovage, Tomahawk e Peeping Tom. Roddy Bottum dedicou-se a uma banda curiosa chamada Imperial Teen (que tocava indie pop abordando temas da cultura gay da época), Billy Gould fundou sua gravadora independente (Koolarrow Records) e fez participações especiais em álbuns de bandas como o Fear Factory e Coma. O discreto Jon Hudson dedicou-se à área de negócios imobiliários, enquanto Mike Bordin participou da banda de Ozzy Osbourne, fez uma turnê com o Korn e participou de álbuns de outros artistas. Aliás, Bordin chegou a participar de uma edição do programa Who Wants to be a Millionaire, o "Show do Milhão" dos EUA. Ele não teve muita sorte e saiu com apenas U$ 1000.

Não parecia, pela maior parte dos anos 2000, que algum dia o Faith No More voltaria à ativa. Entretanto, no final de 2008 começaram a surgir rumores aqui e ali, e no ano seguinte veio o anúncio oficial: a banda estava de volta para uma turnê de reunião com a mesma formação do Album of the Year - ou seja, Patton, Hudson, Gould, Bottum e Bordin. Para a alegria dos fãs, a reunião deu tão certo que se estende até os dias de hoje, e temos em mãos o primeiro álbum do Faith No More em 18 anos: Sol Invictus. Finalmente, falemos dele.

O nome do álbum, Sol Invictus, é uma referência ao deus romano do Sol, venerado no final do período do império. Musicalmente, é possível notar uma série de elementos já apresentados pela banda nos álbuns anteriores. É um trabalho extremamente eclético, que precisa de tempo para ser devidamente digerido.

A faixa de abertura é a faixa-título, Sol Invictus. Surpreendentemente sombria, quebra uma tradição de aberturas explosivas (From Out of Nowhere, Land of Sunshine, Get Out e Collision são verdadeiros petardos). O piano calmo, a voz extremamente grave de Patton e a bateria levando na caixa parecem uma marcha fúnebre, e o refrão melódico e onírico parece um raio de sol (trocadilho proposital) dentro de uma sala escura. A faixa é interessantíssima, e mais curiosa ainda é sua escolha para abertura. Não obstante, uma bela música.

E aí parece que abrimos um portal para 1992 e ouvimos uma faixa que acabou se perdendo de Angel Dust. Provavelmente, Superhero é a faixa mais tipicamente Faith No More de todo o álbum. Os teclados logo na introdução, a levada da bateria, os "go!" intercalados e os riffs de guitarra - tudo soa muito familiar, e digo isso de uma maneira positiva. Ótima faixa.


A terceira faixa, Sunny Side Up, é um dos motivos que me levam a gostar tanto do Faith No More: a bizarrice acessível. Ao mesmo tempo em que a música não traz firulas em excesso, ela está longe de ser convencional, com um compasso fugindo do tradicional 4/4 e um refrão no mínimo esquisito, com a frase "sunny side up" (ovo frito, basicamente) cantada em uníssono por Patton e pela guitarra. É uma música bem Faith No More mesmo sem ser parecida com nada já gravado pela banda.


Separation Anxiety é, como o nome descreve, uma música aflita, que parece nervosa desde a primeira nota. Hudson e Gould repetem o mesmo riff incessantemente, com a bateria minimalista e Patton intercalando sussurros e melodias mais agudas. Mais pro meio da música, tudo fica puro rock and roll, com Bordin descendo o braço e Hudson fazendo um belo solo. Uma das mais roqueiras de Sol Invictus.

Ao ouvir Cone of Shame, lembro imediatamente de outra banda de Mike Patton, o Tomahawk. Extremamente dark, a primeira metade da música é conduzida basicamente pela guitarra e pela voz de Patton. Porém, a bateria, tímida e ausente durante a primeira metade da música, dá as caras enfaticamente na segunda parte, quando a banda toda explode e percebemos que, de fato, é o Faith No More. Não é a minha favorita, mas uma boa música ainda assim.

Rise of the Fall tem um clima quase noir. Passada a introdução mais pesada, temos uma música cheia de momentos diferentes. Em alguns momentos, chega até a lembrar o Mr. Bungle, transitando livremente por gêneros que, estando isolados, parecem não se encaixar, mas aqui fazem pleno sentido. Ótima faixa.

A faixa seguinte é a curiosa Black Friday, com uma batida que lembra um pouco o surf rock dos anos 60. Roddy Bottum toca violão nesta música, que vem sendo, inclusive, parte do setlist da banda. Não é um destaque, apesar de divertida.

O primeiro single de Sol Invictus foi Motherfucker, a faixa lenta e estranha que tem cara de abertura, mas é a oitava música do álbum. Ameaçando explodir a qualquer momento, ela chega perto nos refrões, com Patton quebrando os sussurros com seu melódico "hello, motherfucker!", e no final, quando os instrumentos sobem e a canção ganha intensidade, mas a bateria monótona não deixa o ouvinte bater cabeça. Faixa peculiar, mas mais no bom sentido.

Matador é uma música interessante. Começa lenta e um tanto mórbida, com a melodia repetitiva e angustiante do piano de Bottum, mas aos poucos vai ganhando força conforme os instrumentos vão entrando. Quando Patton canta "we will rise from the killing floor", a música ganha um tom mais épico, e só cresce daí pra frente. Tem uma quê de Album of the Year, e é uma belíssima canção.

Fechando o álbum, temos From the Dead, uma faixa com sabor de energia positiva e esperança. Um violão bastante incomum em músicas do Faith No More e uma melodia alegre encerram este belíssimo álbum de um jeito que lembra um pouco a quase gospel Just a Man, do King for a Day.

E a conclusão? O ponto é que Sol Invictus é um álbum bem bacana - talvez até mais bacana do que os fãs mais sensatos poderiam esperar após 18 anos de hiato. Algumas das faixas nos levam direto àqueles álbuns dos anos 90, enquanto outras são mais atrevidas e guiam o ouvinte para novas direções. Essa combinação resultou em um trabalho que, embora não seja o mais brilhante da discografia, mostra uma banda com novo fôlego e bastante lenha para queimar.

Recomendadíssimo.

Tracklist
1. Sol Invictus
2. Superhero
3. Sunny Side Up
4. Separation Anxiety
5. Cone of Shame
6. Rise of the Fall
7. Black Friday
8. Motherfucker
9. Matador
10. From the Dead
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