sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Banda: Big Star; Álbum: #1 Record

Banda: Big Star
Álbum: #1 Record
Ano: 1972
Gênero: Power Pop

O #1 Record é, tranquilamente, um dos discos da minha vida. É um álbum que eu descobri já adulto e que carreguei comigo em momentos muito marcantes, então é difícil eu me distanciar para falar dele de uma maneira mais "técnica", por assim dizer - mas até aí, que graça tem falar de música, algo tão entrelaçado à emoção, como se estivéssemos analisando os componentes de uma equação?

O Big Star tem uma história muito interessante, mas a semente é igual à de muitas outras bandas. Formado em 1971 por Alex Chilton (guitarra/vocal), Chris Bell (guitarra/vocal), Andy Hummel (baixo) e Jody Stephens (bateria), foi mais um encontro de garotos impressionados pela popularidade dos Beatles, particularmente após a famosa visita do Fab Four aos EUA em 1964.

Antes de criarem o Big Star, Alex Chilton e Chris Bell já se conheciam bem. Por serem ambos de Memphis, no Tennessee, não foram poucos os encontros em estúdios e shows locais - Chilton era integrante de uma banda de blue-eyed soul chamada The Box Tops, que já tinha conseguido colocar uma música chamada The Letter no topo das paradas, e Bell teve uma porção de bandas durante a década de 60, mas nunca teve grande sucesso.

Quando Chilton deixou os Box Tops, foi convidado para ser vocalista do Blood, Sweat & Tears, mas recusou por achar "muito mainstream". Em vez disso, aceitou o convite de Chris Bell para participar de um show do Icewater, banda da qual todos os fundadores do Big Star, exceto Chilton, faziam parte. A química foi instantânea, e assim nasceu o Big Star (o nome veio de uma loja de conveniências que ficava em frente ao Ardent, o estúdio em que a banda trabalhava).

O processo de composição funcionava, não por acaso, de uma maneira similar à dos Beatles, com a dupla Bell/Chilton tomando as rédeas da parte de composição e vocais principais. Embora não houvesse um "quinto Beatle" como George Martin, eles tiveram total apoio do dono do Ardent, John Fry, que insistiu que eles mesmos trabalhassem na produção e mixagem de seu próprio álbum. Eles foram, de certa maneira, seu próprio George Martin.

O nome #1 Record surgiu mais uma brincadeira do que como pretensão. Enquanto escolhiam o nome do álbum, foi dito que uma banda chamada Big Star certamente teria um disco no primeiro lugar das paradas. E inicialmente, tudo parecia encaminhado para isso: o registro agradou muito aos críticos e ao público, mas um problema na distribuição e divulgação por parte da gravadora Stax Records fez com que apenas 10 mil cópias foram vendidas. Assim, o nome #1 Record passou muito longe de ser uma profecia, mas se falarmos da qualidade das composições, podemos dizer que o nome é justo.

O disco abre com Feel, uma pedrada melódica muito feliz em mostrar várias facetas da banda em 3 minutos e meio: a voz rasgada e aguda de Chris Bell sobre o instrumental rock and roll bem trabalhado e texturizado do Big Star. O refrão, contudo, quebra a pancadaria e dá lugar a backing vocals melódicos e a um "I feel like I'm dying, I'm never gonna live again" ("eu me sinto como se estivesse morrendo, eu nunca vou viver de novo") triste e melancólico, para logo depois estourar em um solo de guitarra e uma linha de metais fantástica. Belíssima abertura.


Após o impacto, o ouvinte é surpreendido pela melodia açucarada de The Ballad of El Goodo, Cantada por Alex Chilton, é uma música sobre perseverança e superar obstáculos. Perfeito equilíbrio entre rock e folk, tem um arranjo doce e vocais precisos, além de um refrão chiclete no melhor sentido possível.

A doçura fica pra trás logo após as duas notas de guitarra de In The Street, cantada por Bell. Um empolgante rock and roll com algumas das melhores linhas de guitarra em todo o disco. A letra absolutamente despretensiosa fala de um cara que quer apenas dar uma volta pela rua, quebrar algumas luzes e ficar de papo pro ar. "I wish we had a joint so bad..." ("queria tanto que a gente tivesse um baseado..."), exclama Bell. Divertidíssima.

Talvez o auge e o momento mais conhecido de #1 Record seja a quarta faixa, Thirteen (treze - a idade de Chilton e Bell quando os Beatles visitaram os EUA, em 1964). Composta por Alex Chilton antes de entrar para o Big Star, é, na minha opinião, uma das melhores músicas de amor já escritas no rock and roll por diversos motivos. Falemos, primeiro, da letra, que aborda estar apaixonado aos treze anos - ou seja, fala sobre amor em sua forma mais ingênua e, por conta da adolescência, intensa.

No decorrer da canção, o narrador conversa, sempre em uma mistura de insegurança e ansiedade, com a garota amada. Algumas referências são bem interessantes. Em certo momento, ele pergunta:

Won't you tell your dad get off my back? (Você não vai falar pro seu pai sair do meu pé?)
Tell him what we said 'bout Paint It, Black (Conte para ele o que falamos sobre Paint It, Black)


Paint It, Black é uma música dos Rolling Stones sobre um rapaz cuja namorada morre, deixando-o extremamente depressivo e solitário. Penso em um casal de treze anos escutando essa música e se identificando com toda a intensidade e drama, e acreditando que, se os pais soubessem que eles se sentem como o narrador de Paint It, Black, entenderiam que o amor deles é verdadeiro.

Todas as nuances da letra de Thirteen são emolduradas por uma lindíssima melodia acústica, que mistura parece conseguir expressar toda a intensidade da letra - inclusive acelerando um pouco no final, quando o garoto pergunta, nervosamente, se ela aceitaria ser uma fora-da-lei por seu amor. Tudo isso em menos de 3 minutos. Fantástica faixa.


Don't Lie To Me traz o rock de volta em sua forma mais pura, com os vocais de Bell dando o tom a esta porrada raivosa. O solo de guitarra é um espetáculo à parte, com uma série de ruídos e efeitos ao fundo. Certas vezes, chega a ser um pouco caótica, e provavelmente é a faixa mais pesada do álbum.

The India Song é a única faixa escrita pelo baixista Andy Hummel. Com sua pegada hippie, tem um arranjo interessantíssimo, com uma melodia marcante tocada na flauta na introdução e após os versos. Na letra, o narrador idealiza viajar para a Índia, viver em uma casinha na floresta, conhecer uma garota que pense da mesma maneira que ele e viver isoladamente com ela. Bucólica e bela.

Na versão em vinil (que, permitam-me a ostentação, eu tenho), a música que abre o lado B é When My Baby's Beside Me, uma declaração de amor rock and roll com mais uma série de melodias fáceis de digerir e legais pra caramba ao mesmo tempo. A linha de baixo no refrão também é bem bacana.

My Life Is Right é a primeira balada cantada por Bell no álbum. A exemplo da faixa anterior, também tem uma letra romântica, mas a pegada da música é completamente diferente, com as estrofes melódicas e o refrão mais intenso. Uma bela faixa, mas não chega a se destacar dentre as demais.

Give Me Another Chance tem uma pegada bem Pet Sounds (se você não sabe o que isso significa, pare de ler este post AGORA e clique aqui), com Chilton pedindo uma chance à garota com quem ele pisou na bola da maneira mais melancólica e apelativa possível. Parece uma faixa minimalista até os backing vocals entrarem de surpresa e darem uma nova textura à canção. Ótimo momento.

Assim como The Ballad of El Goodo, Try Again fala sobre a superação de obstáculos. Bell canta com uma voz bem mais grave do que nas demais faixas, e as guitarras tocadas com o slide trazem um clima bem George Harrison à música. Bela melodia e harmonias, mostrando bem a influência do rock sessentista no som da banda.

Watch The Sunrise é bem folk rock, podendo o começo ter sido composto por Cat Stevens. A doce melodia cantada por Chilton é acompanhada por um animado violão, dando um clima, como sugere o nome, de um dia ensolarado - principalmente quando a gaita e os backing vocals aparecem para texturizar. Destaque também para o solo de violão: simples e pertinente.


A faixa que encerra o álbum é a curiosa ST100/6. Com apenas um minuto e 4 versos, foi colocada no final quase como uma piada, a exemplo do que os Beatles fizeram com Her Majesty em Abbey Road. O título é um número de catálogo imaginário, uma piada interna feita no estúdio sobre a demora para encerrarem o álbum. Chris Bell teria dito que "se a Stax não lançar logo o disco, nós mesmo o faremos com o número de catálogo ST100/6".

#1 Record foi o único álbum do Big Star com Chris Bell. Frustrado com as vendas baixas e com o destaque que a mídia dava a Alex Chilton, ele deixou a banda e levou consigo as fitas originais do álbum. Ele nunca se recuperou totalmente de sua depressão até sua morte em um acidente de carro no ano de 1978 aos 27 anos de idade. Sem Bell, o Big Star acabou terminando em 1974, mas lançou mais dois álbuns: Radio City, de 1974, e Third/Sister Lovers, lançado "postumamente" em 1978 com resquícios de estúdio de 1974. A banda ainda teria um revival em 1993, com Chilton e Stephens se reunindo com dois novos músicos e chegando até a lançar um álbum de inéditas em 2005, mas nenhum outro trabalho do Big Star, em minha opinião, carrega a mesma mágica e causa o mesmo impacto que #1 Record. Hoje, o único membro original da banda que ainda está vivo é Jody Stephens; Chilton faleceu em decorrência de um infarto fulminante e Hummels de câncer, ambos em 2010.

Gostaria de encerrar este post com a citação da música Alex Chilton, dos Replacements: "I never travel far without a little Big Star".

Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. Feel
2. The Ballad of El Goodo
3. In the Street
4. Thirteen
5. Don't Lie to Me
6. The India Song
7. When My Baby's Beside Me
8. My Life Is Right
9. Give Me Another Chance
10. Try Again
11. Watch the Sunrise
12. ST100/6
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