terça-feira, 13 de maio de 2014

Artista: Ana Tijoux; Álbum: Vengo


Artista: Ana Tijoux
Álbum: Vengo
Ano: 2014

Gênero: Hip hop, música andina

É bom escrever aqui novamente.

Ana Tijoux foi a melhor surpresa que tive nos últimos tempos, apesar de não ser exatamente um rosto novo dentro do cenário musical. Ela nasceu na França em 1977, filha de um casal chileno foragido da ditadura de Augusto Pinochet. Visitou o Chile pela primeira vez ainda menina e voltou ao país definitivamente após o fim do regime militar, em 1993.

Durante a década de 90, seu envolvimento com a música ficou cada vez mais intenso. Ela participou do primeiro álbum da banda de funk Los Tetas e viria a ser uma das fundadoras do grupo de hip hop Makiza, que entre vindas e vindas durou até 2006. No mesmo ano, ela optou por seguir em carreira solo e até agora já lançou quatro álbuns de estúdio e um EP.

Meu primeiro contato com a música de Anita, como é conhecida, foi com seu álbum mais recente: Vengo. Encontrei-o quase por acaso em uma recomendação do Deezer, o serviço de streaming de música que eu utilizo, e fui conquistado logo nos primeiros minutos de audição.

Com sua introdução tipicamente andina, com flauta e chocalhos, a faixa-título explode junto com a voz imponente de Tijoux, que anuncia: "vengo en busca de respuestas". Quando o ouvinte menos espera, um naipe de metais dá as caras e adiciona ainda mais peso à base forte. A letra e a interpretação da canção de Ana são impressionantes; falam sobre a necessidade de buscar as origens e o ideal de um mundo sem classe que se possa levantar. Abertura poderosíssima para este grande álbum.

A rapper não deixa o nível cair na segunda faixa, Somos Sur. Com um ritmo mais truncado, a faixa aborda o imperialismo e convida os países do hemisfério sul a se unirem e resistirem à presença dos ditos países desenvolvidos do hemisfério norte. A música tem diversas variações de ritmo e intensidade (como o incrível interlúdio com cordas) e conta com a participação da palestina Shadia Mansour, considerada a primeira rapper árabe da história.

A versatilidade de Tijoux fica ainda mais evidente em Antipatriarca, que aborda o feminismo de maneira direta. Flertando com o flamenco e com a música andina, a canção permite à rapper demonstrar suas habilidades como cantora. A ponte e o refrão, por exemplo, contêm melodias que poderiam tranquilamente ter saído de algum álbum de Shakira, que também inseriu ritmos latino-americanos em seus álbuns.

Somos Todos Erroristas e seu epílogo mais melódico ER-RRRO-R exaltam a tentativa e erro como o caminho mais natural e eficiente para a evolução pessoal. Ela divide o microfone com Hordatoj, seu colaborador de longa data (que produziu, inclusive, 1977, canção de Tijoux que ganhou bastante destaque na mídia no começo dos anos 2010 ao aparecer nas trilhas sonoras do jogo de vídeo game FIFA 11 e do inacreditável seriado Breaking Bad). A estrutura da canção é mais linear que as anteriores, mas os teclados e os acordes de jazz dão o "je ne sais quoi" adicional.

Los Peces Gordos No Pueden Volar é incrivelmente melódica e swingada. Com pitadas de reggae e funk, é difícil não dançar na cadeira (ou onde quer que você esteja) enquanto Tijoux canta muito competentemente seu refrão, escrito em forma de conselho de uma mãe que lembra a um filho – no caso de Tijoux, ao seu filho mais velho, Luciano – que, por mais que algumas pessoas detenham poderes e posses, elas não têm o mundo para voar como uma criança. A letra, aliás, é belíssima. Momentos como "soy otra madre que duerme poco pero sueña mucho, que aprende más de sus hijos que del mundo adulto" e "quando grande quiero ser un niño" são tocantes.

Creo en Ti é uma canção de incentivo, com uma letra positiva e esperançosa ("creo en lo imposible, creo que es posible hacer deste mundo un mundo sensible"). Novamente com influências latino-americanas, a canção tem algumas estrofes cantadas por Juan Ayala, do grupo chileno Juana Fe. A melodia principal da música acaba sendo rearranjada em seu epílogo Los Diablitos, desta vez tocada por uma fanfarra.

Um rápido filler chamado Interludio Agua soa na flauta com o som de uma correnteza ao fundo. É o anúncio de Rio Abajo, um resgate às origens ameríndias do Chile. A canção começa com um ritmo quase tribal e se desenrola em um refrão poderoso, cantado em coro em uma melodia acompanhada pela mesma flauta do citado interlúdio. Um contraste interessante com as mais dançantes canções anteriores.

Oro Negro é mais lenta, com uma Tijoux quase sussurrante até explodir em um refrão expansivo. A letra aborda novamente o imperialismo, desta vez com foco na ambição sem limites, questionando a necessidade de expansão e guerra. Um momento mais introspectivo, mas não menos belo.

Delta e No Más compartilham alguns elementos, trazendo o swing de volta ao álbum com guitarras à-lá Chic e naipes de metais. A primeira conta com a participação de MC Niel e tem um clima mais fluido que a segunda, que tem o ritmo mais marcado e é um pouco mais lenta. Ambas são ótimas faixas.

Todo lo Sólido se Desvanece en el Aire, faixa que compartilha o nome com o livro publicado pelo autor marxista Marshall Berman nos anos 80, traz um flerte de Tijoux com o dub, mesclando-o aos elementos andinos recorrentes em Vengo. É uma faixa interessante e que realça ainda mais a versatilidade da chilena.

A antepenúltima e penúltima faixa reservam os momentos mais doces do álbum. O mais açucarado certamente é Emilia, escrita para a sua já citada filha. Com a ótima participação de RR Burning, a canção-quase-de-ninar é totalmente diferente das demais, trazendo uma Anita dócil e suave. Já Rumbo al Sol tem um clima um pouco mais dramático, trazendo alguns samples de vozes. Os backing vocals e bateria lenta dão toda a pinta de um encerramento de disco, mas quem faz este papel é Mi Verdad, uma canção forte que flerta com o reggae e o dub e fecha Vengo em grande estilo.

Dito isso, Vengo é um álbum especial em diversos níveis. Os leitores mais atentos devem ter notado que a única vez que falei de sample foi no final, com as vozes. Isso tem um motivo: todas as bases foram gravadas por uma banda, algo muito incomum para um álbum do gênero (aliás, algo similar ao que foi feito pelo Daft Punk em seu álbum mais recente, Random Access Memories). Além disso, o uso inteligente das influências andinas é um triunfo, visto que instrumentos como a flauta andina e a flauta doce ainda sofrem uma certa estereotipagem após povoarem, por décadas, álbuns e coletâneas de qualidade questionável (com versões de My Heart Will Go On tocadas sobre a base de um teclado barato, por exemplo). Ana Tijoux foi extremamente bem sucedida em criar um álbum original e heterogêneo, que ultrapassa os limites do hip hop e se torna acessível e apetecível a qualquer pessoa disposta a apreciar música sem as amarras do gênero.

Excelente álbum. Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. Vengo
2. Somos Sur
3. Antipatriarca
4. Somos Todos Erroristas
5. ER-RRRO-R
6. Los Pesces Gordos No Pueden Volar
7. Creo en Ti
8. Los Diablitos
9. Interludio Agua
10. Rio Abajo
11. Oro Negro
12. Delta
13. No Más
14. Todo lo Sólido se Desvanece en el Aire
15. Emilia
16. Rumbo al Sol
17. Mi Verdad

Abaixo, escute a faixa título, Vengo:




Update (29/07/2014): ao procurar por novidades sobre a divulgação de Vengo, encontrei algumas coisas muito legais. Em primeiro lugar, o clipe oficial de Somos Sur, com a participação de Shadia Mansour.



Além disso, recentemente Ana fez uma participação no canal Democracy Now!, em que falou sobre feminismo, latinismo, Breaking Bad, algumas experiências pessoais e Vengo. Infelizmente, a entrevista é em inglês. Conta com performances ao vivo de Antipatriarca, Shock, do álbum La Bala, e Los Pesces Gordos No Pueden Volar.

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