quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Banda: Sparks; Álbum: Kimono My House


Banda: Sparks
Álbum: Kimono My House
Ano: 1974
Gênero: Glam rock; pop

Finalmente uma resenha de um álbum que pode ser classificado, de certa forma, como glam rock, um gênero que é impiedosamente massacrado e confundido. Não tem como eu falar de Sparks e da história do rock and roll nos anos 70 sem explicar o que é esse estilo e quem são seus herois.

O glam rock é um estilo nascido na Inglaterra no comecinho dos anos 70. Musicalmente falando, é um rock and roll carregado de sensualidade e irreverência, e isso se reflete muito (e não há como frisar esse muito suficientemente) no visual das bandas. O visual, aliás, é uma das peças-chave do glam – termo que remete a glamour. Valia tudo: botas-plataforma, maquiagem, roupas brilhantes, cachecóis, permanentes, glitter e por aí vai.

É geralmente aceito que o glam rock nasceu quando uma banda chamada Tyranossaurus Rex, liderada pelo eterno Marc Bolan, mudou de nome para T. Rex, trocou os violões pelas guitarras elétricas e lançou o single Ride A White Swan em outubro de 1970. A música aos poucos ganhou as rádios britânicas e conquistou o público com sua batida simples, guitarra-chiclete e a voz peculiar de Bolan. Mas não há glam rock sem imagem, e o T. Rex realmente começou a fazer história a partir desta apresentação, na qual Bolan e a banda aparecem usando roupas brilhantes e glitter:





Em 1971 o T. Rex lançou o essencial Electric Warrior (praticamente a enciclopédia do glam rock), mas o auge do estilo foi, sem dúvidas, 1972, quando a banda de Bolan se consolidou com The Slider, o Roxy Music lançou seu debut auto-intitulado e principalmente quando David Bowie lançou seu inacreditável The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars.

Esse álbum foi essencial para a difusão do estilo além-Reino Unido. Bowie conquistou fama internacional e levou a febre do glam rock para os EUA, influenciando nomes como LouReed e Iggy Pop (basta ver as capas de Transformer e Raw Power para entender o que eu estou falando). Além disso, a abordagem de Bowie era mais criativa que a de seu amigo Bolan, levando o estilo a um patamar mais elevado - fãs de T. Rex, não me crucifiquem! Eu adoro a banda, mas se compararmos Bowie e Bolan de 1970 até 1977 esse ponto de vista se sustenta quase sem argumentação.

De qualquer maneira, tudo isso para chegar até o Sparks. A banda, liderada pelos irmãos Ron e Russell Mael, nasceu nos EUA em 1968 com o nome de Halfnelson. O estilo deles nessa época era próximo ao pop/rock psicodélico, e não demorou para que o produtor e músico Todd Rundgren (que também é deveras talentoso, tendo lançado álbuns ótimos como Something/Anything e A Wizard, A True Star) os descobrisse. Lançaram um álbum auto-intitulado que vendeu muito mal, mudaram o nome da banda para Sparks e lançaram o álbum A Woofer In Tweeter’s Clothing. Esse álbum rendeu a eles uma turnê pela Inglaterra e uma apresentação na BBC na qual o apresentador Bob Harris os classificou como “uma mistura entre os Mothers Of Invention (banda de Frank Zappa) e The Monkees.

Em 1973, o Sparks se mudou de vez para a Inglaterra a convite da gravadora Island Records. Os irmãos aceitaram e mudaram-se para Londres, mesmo sem ter nenhuma música nova.

Esse problema seria resolvido durante o verão por Ron. Com um piano e um violão, ele compôs um conjunto de músicas com um padrão de qualidade nunca antes atingido pela banda – as músicas que estariam em Kimono My House.  As músicas incorporavam elementos interessantíssimos, como música clássica e rock – algo que não era tão apreciado nos EUA, mas que fazia um sucesso enorme no Reino Unido; eles chegaram a se apresentar para uma plateia de seis pessoas nos EUA, mas lotavam as casas de shows em Londres.

Além das composições únicas, a banda se destacava pela presença de palco interessantíssima: enquanto o vocalista Russell Mael era extravagante e hiperativo, dando pulinhos e fazendo caras e bocas, seu irmão Ron era o oposto, com uma expressão fixa, vestido com roupas sociais e seu bigodinho à-lá Hitler. Falemos, enfim, de Kimono My House.

Lançado em 1974, trata-se do primeiro álbum da banda na Inglaterra. Foi muitíssimo bem sucedido em muitos sentidos, e é certamente o álbum mais importante do SparksKurt Cobain, o falecido frontman do Nirvana, e Morrissey, ex-frontman dos Smiths, citam este álbum em sua lista de favoritos – o último chegou a escrever uma carta para os irmãos Mael para agradecê-los por terem despertado seu interesse por música com Kimono My House. O que é sensacional sobre este álbum é que as músicas são incrivelmente extravagantes e urgentes ao mesmo tempo. Os ritmos e melodias são muito, mas muito inquietantes – no bom sentido. Algumas pessoas chegam a definir o estilo deles como um derivado do camp humour – um tipo de humor que é engraçado justamente porque é deliberadamente extravagante e ridículo.

Antes de falar das músicas, vou falar de outra parte do álbum que merece destaque: a capa. Sem nenhuma indicação na frente do nome da banda ou do álbum, traz apenas a foto de duas mulheres japonesas vestidas em trajes tradicionais (kimono) na frente de uma parede verde. Desafiador e muito incomum, até para os dias de hoje.

A faixa de abertura é talvez a música mais conhecida da banda: This Town Ain’t Big Enough For Both Of Us. Peculiaríssima, a música mostra bem o estilo do Sparks nesse álbum: dominado pelos teclados de Ron, com os únicos e agudos vocais de Russell em seu estilo operático cantando letras surreais e engraçadas. Começa com um teclado quieto, mas logo a voz e os riffs geniais da guitarra de Adrian Fisher, a bateria furiosa de Dinky Diamond e o baixo sólido de Martin Gordon dão um peso incrível a essa faixa memorável, que chegou a ocupar o segundo lugar nas paradas britânicas. Perfeita abertura para o álbum.



Amateur Hour começa com um riff frenético que tem a cara do Sparks. Frenética, foi o segundo single do álbum e alcançou o sétimo lugar nas paradas. A letra é um sarro e fala sobre como se deve treinar na prática sexual para se tornar um “profissional” – e que “ela vai fazer você perceber” quando você chegar lá. Os teclados de Ron e a bateria de Diamond são o grande destaque dessa faixa para mim.

Falling In Love With Myself Again é uma faixa esquisitíssima. É uma valsa meio dark, pesada, e com um toque daquelas canções tradicionais alemãs. Algumas passagens instrumentais são muito bem executadas e originais, com apenas o teclado, baixo e bateria levando a música. A parte em que a guitarra “pergunta” e o baixo “responde” é um show à parte.

Here In Heaven é espetacular. A melodia é belíssima e pesada ao mesmo tempo. A letra é um show à parte: fala de um garoto apaixonado que havia combinado de se suicidar junto com a namorada, mas na hora H apenas ele se matou. No fim, ele se encontra sozinho no paraíso sem ela. Tragicômica ao extremo, criativa e bonita.

Thank God It’s Not Christmas pode ser resumida em seu refrão: “Thank God it’s not Christmas, when there is only you and nothing else to do” – ou “Graças a Deus não é Natal, quando só tem você e nada mais para fazer”. Sensacional, novamente com uma melodia sombria e engraçada ao mesmo tempo, do jeito que só o Sparks consegue fazer. Os teclados dão um tom muito grandioso à música, principalmenten o refrão. Bela faixa.

Apesar da guitarra ser um instrumento “secundário” no Sparks, o talento do guitarrista consegue fazê-la sobressair em diversos pontos do álbum. Hasta Mañana, Monsieur começa com um teclado calmo, mas logo a música acelera e a guitarra de Fisher rouba a cena com riffs interessantíssimos. A letra fala sobre um rapaz tentando impressionar uma garota alemã falando uma mistura de inglês, francês e espanhol – como se fosse uma Michelle, dos Beatles, levada ao extremo do divertido.

Talent Is An Asset é uma das minhas preferidas do álbum. Abre com a batida direta e seca de Diamond e é uma pedrada do início ao fim, com algumas quebras rítmicas e melodias típicas do Sparks. Uma das faixas mais claramente influenciadas pelo glam rock, traz uma letra que fala de Albert Einstein. Foi lançada como single nos EUA, mas fracassou – lembre-se que o Sparks, apesar de estadunidense, estourou primeiro no Reino Unido. O refrão “Talent is an asset, you’ve got to understand that” (Talento é uma qualidade, você precisa entender isso), cantado em falsete por Russell, fica na cabeça.

Complaints foi descrita por Ron como “três minutos de reclamações”. Mas a música é muito mais que isso; um glam pop grudento, com uma melodia criativa e um quê de punk rock, mostrando como o Sparks é bem sucedido em misturar estilos.

In My Family é uma das faixas que menos me chamou a atenção até eu reparar na letra sensacional, que fala sobre empresas e negócios familiares. Em certo momento, o narrador afirma que vai se enforcar na árvore genealógica. Sensacional, apesar de não se destacar tanto assim das outras.

O álbum fecha com Equator, um quase-blues cantado em um falsete extremamente agudo. A palavra equator vai ficar na sua cabeça por horas após ouvir essa música, que termina com uma longa improvisação vocal de Russell. Brilhante, triste e engraçada ao mesmo tempo.

Kimono My House é um álbum muito peculiar. Tem um estilo muito bem definido e único, muitíssimo criativo e é praticamente uma aberração até hoje. Vale muito a pena escutar.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. This Town Ain't Big Enough for Both of Us
  2. Amateur Hour
  3. Falling In Love With Myself Again
  4. Here In Heaven
  5. Thank God It's Not Christmas
  6. Hasta Mañana, Monsieur
  7. Talent Is An Asset
  8. Complaints
  9. In My Family
  10. Equator
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