segunda-feira, 11 de abril de 2011

Banda: White Noise; Álbum: An Electric Storm


Banda: White Noise
Álbum: An Electric Storm
Ano: 1969
Gênero: Rock Psicodélico; Experimental

Não é um exagero dizer que existem bandas que estão décadas à frente de seu tempo. Lendo um artigo em um site de humor inteligente eu acabei trombando nesta banda, o White Noise (nome tirado do barulho que a TV faz em estática), que o site descreve como o Radiohead dos anos 60. Achei o artigo interessante (recomendo fervorosamente) e fui atrás do debut da banda, o intrigante An Electric Storm, lançado surpreendentemente em 1969.

A banda começou quando David Vorhaus, um baixista clássico com conhecimentos de física e engenharia, conheceu Delia Derbyshire e Brian Hogson em Londres. Os dois últimos eram antigos empregados da BBC Radiophonic Workshop, uma unidade da BBC que produzia músicas e efeitos especiais para rádio. Ou seja, eles tinham um bom conhecimento de produção e eletrônica. Sem isso, seria impossível ter criado An Electric Storm.

O álbum conta com Vorhaus no baixo, Derbyshire e Hogson nos aparatos eletrônicos, Paul Lytton na bateria/percussão e os vocalistas convidados John Whitman, Annie Bird e Val Shaw.

É um dos primeiros discos a utilizar o sintetizador britânico EMS VCS 3, que posteriormente seria usado à exaustão por grandes nomes do rock, como John Paul Jones, do Led Zeppelin, e Pete Townshend, do The Who. Além disso, outros recursos de estúdio muito pouco ortodoxos tornam este álbum incrivelmente pioneiro. As texturas criadas pelo sintetizador enfeitam cada música de um jeito diferente - e sempre apropriado.

A faixa de abertura é Love Without Sound, uma viagem psicodélica guiada por uma percussão indiana e pela voz de Annie Shaw. O baixo faz muito mais do que aparenta; não apenas é o grave pulsante que transita pela música, mas todas as cordas - violinos, cellos. Tudo com mágica de estúdio. Nos anos 60. O clima onírico dessa canção é impressionante até os dias de hoje.

A atrevida My Game Of Loving soa como se os Beach Boys tivessem escrito Je T'aime Moi Non Plus, de Serge Gainsbourg (que curiosamente eu citei no post anterior). Após uma introdução que lembra um pouco Velvet Underground, trechos sussurrados em francês e alemão dão lugar a uma incrível orgia sonora, literalmente - muitos gemidos, masculinos e femininos, fazem corar o ouvinte desavisado. Isso décadas antes de Gretchen, É o Tchan e os piores funks cariocas aparecerem.

A banda também mostra seu lado bem humorado em Here Come The Fleas. Totalmente vanguardista, a faixa traz diversos efeitos sonoros engraçadinhos, uma melodia esquisitona, andamento mais estranho ainda e um vocal totalmente displiscente. Tem uma estrofe inteira onde a música é acelerada, dando aquele efeito chipmunk, como se Tico e Teco (ou Alvin e os Esquilos, para os mais novos) estivessem cantando e tocando. Pela letra, trata-se de uma música infantil, o que nos faz perguntar o que as crianças do fim dos anos 60 tomavam.

Firebird seria uma típica música de rock sessentista se os efeitos dos sintetizadores não a fizessem soar como se tivesse sido composta em Marte. Um andamento bem definido, com backing vocals bem evidenciados e um som similar a um theremin dando todo o clima espacial fazem desta faixa uma das mais acessíveis do disco.

Your Hidden Dreams é mais uma peça à la Velvet Underground; até a voz de Shaw lembra a voz de Nico. A diferença é que as viagens do White Noise aqui vão além daquelas de Lou Reed e cia; em determinado momento, a música entra em um crescendo e começa a brincar com o stereo, distribuindo a música ora no canal esquerdo, ora no direito. Escute esta música de fone para melhores resultados! Destaque novamente para as experimentações com o sintetizador.

Mas a experimentação mais pesada começa no que seria o lado B. The Visitations é um épico de 11 minutos que viaja por diversos humores. Há pausas para barulho de choro, efeitos sonoros, poesias etc. É muito polivalente e experimental, muito à frente do que a maior parte das bandas fazia na época.

O gran finale é The Black Mass. Começa com vozes simulando um coral gregoriano e, em uma progressão totalmente inesperada, começa um solo de bateria cheio de efeitos que vão se intensificando, ficando mais complexos até que gritos de dor e terror se juntam para completar o clima de uma missa negra, como o título sugere.

Como é de se esperar, An Electric Storm passou praticamente em branco na época em que foi lançado. Talvez por não ter apelo comercial, ou simplesmente porque estava muito à frente de seu tempo. Mas ele chegou às pessoas certas, visto que diversos artistas de música eletrônica e alternativa o citam como influência (como o Chemical Brothers e o Secret Chiefs 3, por exemplo).

Uma coisa interessante: inicialmente, a intenção era lançar as duas primeiras faixas (Love Without Sound e My Game Of Loving) como singles, mas foram convencidos pela gravadora a gravar um álbum inteiro. Para se ter idéia do quanto as faixas são complexas, as quatro últimas levaram um ano para ficarem prontas, e isso porque a gravadora os pressionou e eles tiveram de completar The Black Mass em um dia. Tudo por causa das múltiplas edições, muito complexas e difíceis de fazer na época.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. Love without Sound
  2. My Game of Loving
  3. Here Come the Fleas
  4. Firebird
  5. Your Hidden Dreams
  6. The Visitation
  7. Black Mass: An Electric Storm in Hell
Postar um comentário