segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Artista: Milton Nascimento; Álbum: Minas



Artista: Milton Nasciomento
Álbum: Minas
Ano: 1975
Gênero: MPB

O artista abordado hoje é bem conhecido dos brasileiros (principalmente daqueles que foram jovens nas décadas de 70 e 80). Milton Nascimento tem uma carreira extensa, que estourou em 1966 quando Elis Regina gravou Canção do Sal, uma de suas músicas. Desde então seguiu uma extensa e reconhecida carreira, extrapolando as fronteiras do Brasil.

Mas o álbum exposto neste blog é diferente da carreira mais "conhecida" de Milton. Minas é ímpar por inúmeras razões. Foi lançado em 1975 pela EMI, e traz na capa o rosto de Milton. Vale lembrar que o Brasil estava sob o comando dos militares, o AI-5 estava em vigor e muita gente sofria com a censura. Entretanto, Milton Nascimento e os mineiros em geral (principalmente o chamado "Clube da Esquina", que incluía Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, entre outros) tinham enorme prestígio dentro das gravadoras. O presidente da EMI chegou a dizer: "Temos nossos comerciais. Vocês mineiros fazem o que quiserem".

O nome Minas não se refere apenas ao Estado onde Milton cresceu (embora tenha nascido no Rio de Janeiro), mas também ao seu próprio nome: Milton Nascimento (fato identificado, segundo o encarte, por um menino) - inclusive, a própria capa é um close do rosto de Milton.


Minas é a primeira parte de dois álbuns muito ligados. O álbum lançado no ano seguinte, Geraes, completa minas de maneira que ambos podem ser considerados uma única obra. Mas por considerar Minas superior, é ele o resenhado.
Logo de início, com a faixa título, Minas se mostra diferente dos demais álbuns da época: é totalmente acapella, com um coro de crianças e um canto lírico de Milton e Beto Guedes. Passada essa introdução, tem-se Fé Cega, Faca Amolada, que pode ser considerado um hit por sua melodia relativamente simples.

A genialidade de Milton como intérprete se faz presente na belíssima Beijo Partido, a bela balada composta por Toninho Horta. Milton canta com tanto sentimento e beleza que comove até os menos sensíveis. Além disso, o arranjo da música é impecável, formando um verdadeiro turbilhão sonoro, preenchendo cada lacuna com o elemento certo. Chegou a ser trilha sonora de novela e tudo.

Saudades dos Aviões da Panair (Conversando no Bar) é uma das mais belas canções da MPB, tanto pela letra quanto pela música. Elis chegou a interpretá-la, mas a versão de Milton vence pela beleza. É cantada, em grande parte, por um coro de crianças. O ritmo truncado, lento, que mais tarde desbanca para um carrossel frenético, é sensacional. "Nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar".

A parte mais alternativa do disco, sem dúvida, fica por conta das faixas Gran Circo e Trastevere. A primeira tem tantas mudanças rítmicas que torna difícil prever o que vem após cada passagem; a segunda traz uma bateria completamente livre, dando a impressão de algo fora do compasso (mas como diria George Harrison, "ele apenas escreveu a música desse jeito"). É incrível quando um artista popular rompe com o comum e produz algo desse tipo. 

Entre as duas, porém, existe Ponta de Areia, que também explodiu na voz de Elis Regina. Uma melodia repetitiva, quase infantil, mas tocante e profunda, coroada pela letra nostálgica e rica. Belíssima faixa.

Idolatrada é um rock and roll experimental, com guitarras distorcidas e percussão pesada. O baixo faz o pano de fundo perfeito para Milton soltar a voz com intensidade e precisão. O interlúdio com cordas, a volta do coral de crianças de Minas e o final caótico são a cereja no bolo. Ótima faixa.

Leila (Venha ser Feliz) foi escrita como uma homenagem à atriz Leila Diniz, que morreu em um acidente aéreo em 1972, no auge da fama. Leila era uma figura polêmica, que ignorava o moralismo conservador e concedia entrevistas em que falava abertamente sobre sua sexualidade, afirmando, sem pudores, que transava "de manhã, de tarde e de noite". A canção alegre traz Milton fazendo vocalizações e convidando Leila a ser feliz.

Paula e Bebeto, uma das mais famosas do repertório de Milton, traz a icônica frase "qualquer maneira de amor vale a pena/qualquer maneira de amor valerá" cantada na mesma melodia da faixa de abertura. Novamente vale a pena destacar a percussão brasileiríssima e a interpretação impecável de Milton.

O álbum ainda traz uma das faixas de encerramento mais brutas da música brasileira: Simples parece ter sido composta por Graciliano Ramos. Só ouvindo pra entender.

Recomendadíssimo do início ao fim.

Tracklist:
1. Minas
2. Fé Cega, Faca Amolada
3. Beijo Partido
4. Saudades dos Aviões da Panair
5. Gran Circo
6. Ponta de Areia
7. Trastevere
8. Idolatrada
9. Leila (Venha Ser Feliz)
10. Paula e Bebeto
11. Simples
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