segunda-feira, 28 de julho de 2014

Banda: Got a Girl; Álbum: I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now



Banda: Got a Girl
Álbum: I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now
Ano: 2014
Gênero: Pop francês, lounge

É interessante, após mais de 50 postagens e incríveis oito anos, voltar a escrever sobre uma pessoa que ilustrou a primeira, e somente a primeira, resenha publicada neste blog: Dan Nakamura, conhecido como Dan The Automator. O único trabalho dele que eu conhecia era justamente um dos mais marcantes do começo da minha vida adulta: Music to Make Love to Your Old Lady By, de seu projeto Lovage (que conta, também, com o versátil Mike Patton e com a voz de veludo de Jennifer Charles). Entretanto, ao pesquisar os últimos lançamentos, deparei-me com o excêntrico título I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now ("eu te amo mas preciso dirigir para fora deste penhasco agora"). Quando vi que se tratava do novo projeto de Dan, não hesitei em sincronizar no Deezer.

O Got a Girl é uma parceria de Dan com a atriz e cantora Mary Elizabeth Winstead, que já participou de filmes como À Prova de Morte, de Quentin Tarantino, e Scott Pilgrim Contra o Mundo. Foi nos bastidores de Scott Pilgrim, aliás, que a dupla se conheceu. Ela foi até Dan para expressar sua admiração pelo Lovage, e Dan, em resposta, perguntou se ela teria interesse em "fazer música". Estava formado o embrião do projeto.

Conforme o diálogo entre os dois foi se desenvolvendo, eles descobriram que tinham em comum o apreço pelo pop francês do fim dos anos 60 e começo dos anos 70, de nomes como Serge Gainsbourg, Jane Birkin, Sylvie Vartan, Françoise Hardy e muitos outros. Aqui vale a pena abrir um parêntese para falar um pouco sobre o pop na França.

Um termo muito recorrente quando se fala de música francesa é chanson (canção). Embora o termo possa ser aplicado a qualquer música cantada em francês, quando se fala em chanson se está pensando num gênero musical que foi popular na França no período entre o final do século XIX até a metade da década de 60 no século XX. Talvez seus representantes mais conhecidos fora dos países francófonos sejam o belga Jacques Brel e Édith Piaf, ambos idolatrados por suas vozes e pela singularidade de suas interpretações. Talvez o equivalente brasileiro do chanson seja o samba-canção: em ambos os estilos, os intérpretes apresentam vozes potentes, que são o principal foco da canção, com o acompanhamento de uma orquestra, piano ou instrumento acústico. Porém, a partir dos anos 60, o estilo, a exemplo do que ocorreria em diversos outros países do mundo ocidental, acabou se misturando a outros de origens distintas (como o rock and roll) e gerando diversos subgêneros, como o yé-yé  e o pop.

O pop francês dessa época apresentava, via de regra, batidas suaves, texturas feitas no sintetizador (ou mesmo orquestra) e era, no geral, muito melódico. A voz, antes potente e protagonista absoluta, agora era muito mais suave e trazia muito mais sex appeal - isso quando o sexo não era praticamente explícito na música, como na famigerada Je t'aime... moi non plus, de Gainsbourg e Birkin. Alguns grupos franceses ainda carregam bastante influência desse estilo, como o Air, por exemplo. Dito isto, voltemos ao Got a Girl. 

O diálogo entre Mary e Dan foi tomando forma até que o single You and Me (Board Mix) foi lançado em maio de 2013. No mesmo mês, eles lançaram I'm Down, que é uma interpretação de uma das canções do "álbum" Song Reader, de Beck (digo "álbum" porque, na verdade, trata-se de uma coleção de partituras). Entretanto, levaria mais de um ano para que o primeiro álbum fosse lançado no dia 22 de julho de 2014.

A faixa de abertura e primeiro single do álbum (que será chamado de I Love You But... no resto deste post) é a viciante Did We Live Too Fast. Tudo parece estar no lugar para os créditos iniciais de um filme de Tarantino: os sinos, as cordas, a batida suave contrastando com os estouros de percussão e, por fim, a voz deliciosa de Winstead cantando suavemente, quase à-lá Jennifer Charles (difícil não fazer a comparação). O refrão chiclete e a parte quase sussurrada dão o já citado tom "français" à ótima faixa de abertura.



A faixa seguinte, I'll Never Hold You Back, bebe bastante do dream pop e do trip hop. Uma batida mais lenta, repleta de sintetizadores, e um suave piano guiam a canção, que em momentos até lembra um pouco The Cramberries. É interessante notar a competência de Winstead tanto nos registros agudos quanto nos mais graves, que são predominantes na maior parte da música.

Close To You é um pop delicioso e direto, com uma batida reta e vocais quase sussurrados. O baixo e os teclados guiam a música até o refrão marcante, rico em sintetizadores. Faixa muito bem construída e equilibrada, com direito a um longo segmento instrumental no final.

O clima leve da canção anterior esvanece logo na introdução de Everywhere I Go, com sua orquestração dramática e levada mais arrastada. A melodia aqui é mais melancólica, quase como uma triste canção de ninar, e no refrão a voz de Winstead entrando junto com o carrilhão (aquele instrumento que emite um som semelhante ao som de "sonhos" ou "estrelas") parece uma onda, oscilando entre os graves e agudos enquanto um cravo dá um tom noir. Ótima faixa.

Last Stop, por sua vez, é bem mais minimalista, com seu pianinho agudo e seu clima quase de jingle. Ao contrário de Everywhere I Go, o clima aqui é leve e quase descompromissado, e dá vontade de estalar os dedos no ritmo da música.

Por isso, é um choque quando a próxima faixa chega com tudo. There's a Revolution bebe da fonte do synthpop e do new wave, fazendo com que o Got a Girl apresente uma pegada indie pela primeira vez em I Love You But.... Com muitos teclados e vocais mais próximos do estilo de Debbie Harry (vocalista do Blondie) do que de Jennifer Charles. Uma ótima surpresa.

Things Will Never Be The Same tem uma sensualidade pesada e atmosférica, com seu riff marcante de baixo e backing vocals. No refrão, os sintetizadores invadem a música de maneira grandiosa, contrastando com a voz suave e contribuindo ainda mais para o clima denso da canção. 

O começo de Put Your Head Down parece ter saído de uma caixinha de música. Entretanto, aos poucos a música vai se construindo diante de nossos ouvidos: primeiro, entra a voz quase fantasmagórica; em seguida, um violão toca alguns acordes e a bateria dá as caras. Quando o ouvinte menos percebe, a música está completa. No refrão, Winstead faz um dueto com ninguém menos que Mike Patton, que tem um interlúdio só pra ele (que, de maneira quase caricata, sugere um sanduíche de fritas com mortadeeeella).

Friday Night tem uma pegada bem lounge, suave e tranquila. Linear, ela mantém o padrão de I Love You But..., com os vocais sussurrados e teclados atmosféricos, mas vejo esta faixa mais como um filler do que como um destaque.

La La La soa um pouco mais contemporânea, guiada mais pela bateria e pelo baixo do que pelo teclado propriamente dito e com uma bateria mais distorcida. Ainda assim, apresenta o clima retrô característico e consegue cativar.

Mas mais interessante que La La La é o divertido filler Da Da Da, com sua batida mais rápida e animada. Ao fundo, Winstead reclama com bom humor de ter de cantar essa "merda de música", mas é uma faixa interessante e contribui para a variedade do álbum.

A saideira é Heavenly. Mais lenta, ela tem um clima mais melancólico e dark, mas culmina em um refrão surpreendentemente delicado e bonito. Talvez lembre até um pouco alguma coisa que o The Cardigans tivesse feito caso quisesse seguir uma carreira no dream pop.

Por fim, o debut do Got a Girl é um lançamento interessantíssimo. Mary Elizabeth Winstead não é uma Amy Winehouse, mas o lance é que não há a menor necessidade que ela seja. Sua voz suave e seu jeito doce de cantar caem como uma luva para o som do Got a Girl. 

Também vale notar como Dan The Automator acertou na mosca na produção, conseguindo apresentar um álbum empolgante e divertido tendo como base um estilo nascido há praticamente meio século.

Mas talvez a grande sacada do Got a Girl tenha sido a leveza. Não me refiro ao som, mas à visão deles em relação a eles mesmos. Não é um projeto pretensioso, com grandes objetivos e ambições. Trata-se apenas de uma dupla fazendo um som que eles curtem, e nada mais. Os teasers do álbum, divulgados no canal Maker Music, são ótimos. Confira o exemplo abaixo e entre no canal para ver os outros!




Embora I Love You But I Must Drive Off This Cliff Now talvez seja um pouco longo demais (poderia tranquilamente ter duas ou três faixas a menos), algumas das músicas são verdadeiramente memoráveis – temos aí Did We Live Too Fast, Close To You, Everywhere I go e There's a Revolution, que não me deixam mentir.

Um dos lançamentos mais empolgantes do ano até agora.

Tracklist:
1. Did We Live Too Fast
2. I'll Never Hold You Back
3. Close To You
4. Everywhere I Go
5. Last Stop
6. There's a Revolution
7. Things Will Never Be The Same
8. Put Your Head Down
9. Friday Night
10. La La La
11. Da Da Da
12. Heavenly

terça-feira, 13 de maio de 2014

Artista: Ana Tijoux; Álbum: Vengo


Artista: Ana Tijoux
Álbum: Vengo
Ano: 2014

Gênero: Hip hop, música andina

É bom escrever aqui novamente.

Ana Tijoux foi a melhor surpresa que tive nos últimos tempos, apesar de não ser exatamente um rosto novo dentro do cenário musical. Ela nasceu na França em 1977, filha de um casal chileno foragido da ditadura de Augusto Pinochet. Visitou o Chile pela primeira vez ainda menina e voltou ao país definitivamente após o fim do regime militar, em 1993.

Durante a década de 90, seu envolvimento com a música ficou cada vez mais intenso. Ela participou do primeiro álbum da banda de funk Los Tetas e viria a ser uma das fundadoras do grupo de hip hop Makiza, que entre vindas e vindas durou até 2006. No mesmo ano, ela optou por seguir em carreira solo e até agora já lançou quatro álbuns de estúdio e um EP.

Meu primeiro contato com a música de Anita, como é conhecida, foi com seu álbum mais recente: Vengo. Encontrei-o quase por acaso em uma recomendação do Deezer, o serviço de streaming de música que eu utilizo, e fui conquistado logo nos primeiros minutos de audição.

Com sua introdução tipicamente andina, com flauta e chocalhos, a faixa-título explode junto com a voz imponente de Tijoux, que anuncia: "vengo en busca de respuestas". Quando o ouvinte menos espera, um naipe de metais dá as caras e adiciona ainda mais peso à base forte. A letra e a interpretação da canção de Ana são impressionantes; falam sobre a necessidade de buscar as origens e o ideal de um mundo sem classe que se possa levantar. Abertura poderosíssima para este grande álbum.

A rapper não deixa o nível cair na segunda faixa, Somos Sur. Com um ritmo mais truncado, a faixa aborda o imperialismo e convida os países do hemisfério sul a se unirem e resistirem à presença dos ditos países desenvolvidos do hemisfério norte. A música tem diversas variações de ritmo e intensidade (como o incrível interlúdio com cordas) e conta com a participação da palestina Shadia Mansour, considerada a primeira rapper árabe da história.

A versatilidade de Tijoux fica ainda mais evidente em Antipatriarca, que aborda o feminismo de maneira direta. Flertando com o flamenco e com a música andina, a canção permite à rapper demonstrar suas habilidades como cantora. A ponte e o refrão, por exemplo, contêm melodias que poderiam tranquilamente ter saído de algum álbum de Shakira, que também inseriu ritmos latino-americanos em seus álbuns.

Somos Todos Erroristas e seu epílogo mais melódico ER-RRRO-R exaltam a tentativa e erro como o caminho mais natural e eficiente para a evolução pessoal. Ela divide o microfone com Hordatoj, seu colaborador de longa data (que produziu, inclusive, 1977, canção de Tijoux que ganhou bastante destaque na mídia no começo dos anos 2010 ao aparecer nas trilhas sonoras do jogo de vídeo game FIFA 11 e do inacreditável seriado Breaking Bad). A estrutura da canção é mais linear que as anteriores, mas os teclados e os acordes de jazz dão o "je ne sais quoi" adicional.

Los Peces Gordos No Pueden Volar é incrivelmente melódica e swingada. Com pitadas de reggae e funk, é difícil não dançar na cadeira (ou onde quer que você esteja) enquanto Tijoux canta muito competentemente seu refrão, escrito em forma de conselho de uma mãe que lembra a um filho – no caso de Tijoux, ao seu filho mais velho, Luciano – que, por mais que algumas pessoas detenham poderes e posses, elas não têm o mundo para voar como uma criança. A letra, aliás, é belíssima. Momentos como "soy otra madre que duerme poco pero sueña mucho, que aprende más de sus hijos que del mundo adulto" e "quando grande quiero ser un niño" são tocantes.

Creo en Ti é uma canção de incentivo, com uma letra positiva e esperançosa ("creo en lo imposible, creo que es posible hacer deste mundo un mundo sensible"). Novamente com influências latino-americanas, a canção tem algumas estrofes cantadas por Juan Ayala, do grupo chileno Juana Fe. A melodia principal da música acaba sendo rearranjada em seu epílogo Los Diablitos, desta vez tocada por uma fanfarra.

Um rápido filler chamado Interludio Agua soa na flauta com o som de uma correnteza ao fundo. É o anúncio de Rio Abajo, um resgate às origens ameríndias do Chile. A canção começa com um ritmo quase tribal e se desenrola em um refrão poderoso, cantado em coro em uma melodia acompanhada pela mesma flauta do citado interlúdio. Um contraste interessante com as mais dançantes canções anteriores.

Oro Negro é mais lenta, com uma Tijoux quase sussurrante até explodir em um refrão expansivo. A letra aborda novamente o imperialismo, desta vez com foco na ambição sem limites, questionando a necessidade de expansão e guerra. Um momento mais introspectivo, mas não menos belo.

Delta e No Más compartilham alguns elementos, trazendo o swing de volta ao álbum com guitarras à-lá Chic e naipes de metais. A primeira conta com a participação de MC Niel e tem um clima mais fluido que a segunda, que tem o ritmo mais marcado e é um pouco mais lenta. Ambas são ótimas faixas.

Todo lo Sólido se Desvanece en el Aire, faixa que compartilha o nome com o livro publicado pelo autor marxista Marshall Berman nos anos 80, traz um flerte de Tijoux com o dub, mesclando-o aos elementos andinos recorrentes em Vengo. É uma faixa interessante e que realça ainda mais a versatilidade da chilena.

A antepenúltima e penúltima faixa reservam os momentos mais doces do álbum. O mais açucarado certamente é Emilia, escrita para a sua já citada filha. Com a ótima participação de RR Burning, a canção-quase-de-ninar é totalmente diferente das demais, trazendo uma Anita dócil e suave. Já Rumbo al Sol tem um clima um pouco mais dramático, trazendo alguns samples de vozes. Os backing vocals e bateria lenta dão toda a pinta de um encerramento de disco, mas quem faz este papel é Mi Verdad, uma canção forte que flerta com o reggae e o dub e fecha Vengo em grande estilo.

Dito isso, Vengo é um álbum especial em diversos níveis. Os leitores mais atentos devem ter notado que a única vez que falei de sample foi no final, com as vozes. Isso tem um motivo: todas as bases foram gravadas por uma banda, algo muito incomum para um álbum do gênero (aliás, algo similar ao que foi feito pelo Daft Punk em seu álbum mais recente, Random Access Memories). Além disso, o uso inteligente das influências andinas é um triunfo, visto que instrumentos como a flauta andina e a flauta doce ainda sofrem uma certa estereotipagem após povoarem, por décadas, álbuns e coletâneas de qualidade questionável (com versões de My Heart Will Go On tocadas sobre a base de um teclado barato, por exemplo). Ana Tijoux foi extremamente bem sucedida em criar um álbum original e heterogêneo, que ultrapassa os limites do hip hop e se torna acessível e apetecível a qualquer pessoa disposta a apreciar música sem as amarras do gênero.

Excelente álbum. Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. Vengo
2. Somos Sur
3. Antipatriarca
4. Somos Todos Erroristas
5. ER-RRRO-R
6. Los Pesces Gordos No Pueden Volar
7. Creo en Ti
8. Los Diablitos
9. Interludio Agua
10. Rio Abajo
11. Oro Negro
12. Delta
13. No Más
14. Todo lo Sólido se Desvanece en el Aire
15. Emilia
16. Rumbo al Sol
17. Mi Verdad

Abaixo, escute a faixa título, Vengo:




Update (29/07/2014): ao procurar por novidades sobre a divulgação de Vengo, encontrei algumas coisas muito legais. Em primeiro lugar, o clipe oficial de Somos Sur, com a participação de Shadia Mansour.



Além disso, recentemente Ana fez uma participação no canal Democracy Now!, em que falou sobre feminismo, latinismo, Breaking Bad, algumas experiências pessoais e Vengo. Infelizmente, a entrevista é em inglês. Conta com performances ao vivo de Antipatriarca, Shock, do álbum La Bala, e Los Pesces Gordos No Pueden Volar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Banda: Phish; Álbum: A Picture Of Nectar


Banda: Phish
Álbum: A Picture of Nectar
Ano: 1992
Gênero: Jazz-fusion, rock, funk, afro-jazz, bluegrass



Existem muitas bandas das quais a gente já ouviu falar, mas nunca foi atrás. O Phish era uma dessas bandas pra mim; eu conhecia o nome, sabia que era “fish com ph”, mas nunca havia ouvido uma música sequer.

Fui escutar a primeira música quase que por acidente, e só aconteceu porque sou um gamer. Ao jogar Rock Band 3 (pra quem não conhece, um simulador de banda divertidíssimo), fui atrás da música mais difícil de todas e me deparei com Llama, justamente do Phish. E não era à toa que o jogo classificou a canção como complexa: absolutamente todos os instrumentos apresentam partes complicadíssimas em ritmo frenético. Foi o suficiente para abrir meu apetite e ir atrás da banda.

Formada em 1983 nos EUA, a banda mantém a mesma formação desde 1986, quando o guitarrista Jeff Holdsworth saiu da banda para seguir a carreira de engenheiro eletrônico. Anteriormente, o percussionista Marc Daubert também havia feito parte da banda por aproximadamente cinco meses em 1984. Mas o Phish como conhecemos é composto por Trey Anastasio (guitarra/vocal principal), Jon Fishman (bateria/vocal), Mike Gordon (baixo/vocal) e Page McConnell (teclado/vocal). Vale notar que o membro mais recente da banda é o tecladista, que se juntou ao Phish em 1985.

Boa parte da fama do Phish vem da qualidade técnica dos músicos e das longas jams que eles fazem ao vivo. Creio que fãs mais xiitas iriam repreender o fato de eu estar resenhando logo um álbum de estúdio, porque boa parte do que a banda representa só pode ser sentido quando eles estão sobre o palco.

Mas acontece que eu me apaixonei por A Picture Of Nectar. Lançado em 1992, é o terceiro álbum de estúdio do Phish, mas o primeiro a ser lançado por uma gravadora de grande porte (Elektra Records). Tentar definir o gênero musical desta pérola é um desafio, visto que a banda transita com naturalidade entre tantos gêneros que, num descuido, pode parecer que estamos ouvindo uma coletânea de world music.

Antes de detalhar as músicas, entretanto, vale a pena falar da capa. Já ouvi falar que o rosto não-muito-subliminar na laranja é de Salvador Dali ou mesmo de Albert Einstein, mas ambas as informações estão erradas. Trata-se de Nectar Norris, o proprietário de um bar na cidade de Burlington – daí o nome do disco.

A faixa de abertura é justamente a já citada Llama. Uma pedrada influenciada por jazz, funk, rock e deus sabe o quê, abre o disco com estilo, já deixando evidente a qualidade técnica da banda. Fishman é um monstro na bateria, o baixo de Gordon é destruidor, os teclados de McConnell são hipnotizantes e Anastasio é técnico e criativo – qualidades que raramente aparecem juntas em grau satisfatório em um guitarrista.

O contraste de Llama com Eliza, a faixa subsequente, não poderia ser maior. Um jazz instrumental belíssimo, apesar dos acordes dissonantes e melodia incomum. Tem pouco mais de um minuto e meio, mas chama-la de filler daria a falsa impressão de dispensabilidade.

Cavern é swingada, bem marcada pelo baixo e pela bateria, com uma pegada urbana noventista. Nesta música fica evidente a influência de Frank Zappa nos vocais de Anastasio, com sua voz grave e tom debochado. Os backing vocals, perfeitamente executados ao longo do álbum, já dão o ar da graça aqui.

A quarta faixa é Poor Heart, composta e cantada por Gordon. Completamente diferente das faixas anteriores, é um bluegrass empolgado e divertido, com direito a banjo e diversos solos, sempre contextualizados dentro da canção. Ótima faixa.

Stash é o ponto mais alto do disco, na minha opinião. Um tema sensacional de guitarra que vai se transformando e, inesperadamente, molda-se em uma salsa que fica na cabeça para sempre. A vocalização do meio da música e o “maybe so and maybe not” acompanham o ouvinte por muito tempo após o fim da música. O instrumental é um show à parte, mas essa é uma observação que acaba se tornando redundante dentro deste álbum.

Manteca tem menos de 30 segundos, e é um cover engraçadinho de um afro-jazz gravado pelo trompetista Dizzy Gillespie em 1947, com a frase “crab in my shoemouth” cantada na melodia da original. Vejo ela como uma pequena introdução a Guleah Papyrus, um jazz-reggae (ou reggae-jazz?) avant-garde que se desdobra em uma viagem instrumental ao melhor estilo “Phish ao vivo”.

Magilla é um jazz instrumental escrito por McConnell. Uma canção deliciosa, que quase pede um pub, um charuto e um copo de uísque. The Landlady, que dá sequência, também é instrumental, mas bebe da fonte do calypso e da salsa e traz uma deliciosa linha de guitarra.

Glide parece um interlúdio de programa da TV Cultura. Uma melodia contry-folk tocada no violão e, de repente, as vozes entram em harmonia, cantando “we’re glad that you’re alive/a glide” (estamos felizes que você esteja vivo / seja um planador). Surreal, mas nem por isso menos bela. A maneira como a música se arrasta graças à bateria, baixo e piano é incrível, e o final acapella é a cereja no topo do bolo. Bela faixa.

E então vem a zappianíssima Tweezer, com sua linha de baixo funkeada – o grande destaque da música -, vocal sempre em harmonia e muitos solos. É muito legal a maneira como a música vai se desconstruindo a partir da metade, ganhando em intensidade até ir desmoronando aos poucos, perdendo velocidade até o colapso completo.

The Mango Song traz novamente um feel latino, com uma melodia tristonha que vai se alegrando do meio da música em diante. É uma ótima música, mas não me cativou tanto quanto outras do álbum.

Chalk Dust Torture é a mais próxima de um rock and roll puro do álbum. Com a voz bem mais grave (provavelmente alterada em estúdio), o timbre de Anastasio lembra Hendrix ou algum outro cantor negro de rock and roll. É uma ótima faixa, animadíssima e muito bem executada.

As duas músicas seguintes são fillers. Faht é uma faixa acústica escrita pelo baterista Fishman. Trata-se de um violão repetindo uma melodia e barulhos de animais ao fundo, com uma súbita invasão de carros e buzinas. Catapult, por sua vez, é apenas uma voz cantando/recitando um poema surreal.

O álbum termina com Tweezer (Reprise), um trecho de Tweezer com um arranjo diferente e grandioso.

A Picture of Nectar é um ótimo álbum para quem quer conhecer o trabalho do Phish e, principalmente, para quem gosta mesmo de música. Qualidade inquestionável, recomendadíssimo.

Tracklist:
  1. "Llama" (Anastasio) – 3:32
  2. "Eliza" (Anastasio) – 1:32
  3. "Cavern" (Anastasio, HermanMarshall) – 4:24
  4. "Poor Heart" (Gordon) – 2:44
  5. "Stash" (Anastasio, Marshall) – 7:11
  6. "Manteca" (FullerGillespiePozo) – 0:29
  7. "Guelah Papyrus" (Anastasio, Marshall) – 5:22
  8. "Magilla" (McConnell) – 2:46
  9. "The Landlady" (Anastasio) – 2:56
  10. "Glide" (Anastasio, Fishman, Gordon, Marshall, McConnell) – 4:13
  11. "Tweezer" (Anastasio, Fishman, Gordon, McConnell) – 8:42
  12. "The Mango Song" (Anastasio) – 6:23
  13. "Chalk Dust Torture" (Anastasio, Marshall) – 4:36
  14. "Faht" (Fishman) – 2:21
  15. "Catapult" (Gordon) – 0:32
  16. "Tweezer Reprise" (Anastasio, Fishman, Gordon, McConnell) – 2:39