quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Artista: Frank Zappa; Álbum: Apostrophe (')


Artista: Frank Zappa
Álbum: Apostrophe (‘)
Ano: 1974
Gênero: Avant-garde; rock experimental

Após um longuíssimo hiato, aqui estamos novamente para falar de mais uma pérola da música dita "estranha e boa". E bota boa nisso.

Frank Vincent Zappa nasceu no dia 21 de dezembro de 1940, nos Estados Unidos. Desde cedo demonstrou grande interesse por música clássica de compositores vanguardistas, como Stravinsky, além de grupos de doo-wop e jazz moderno. Durante os anos 60, montou sua primeira banda, os Mothers Of Invention. O primeiro álbum dos Mothers foi o duplo Freak Out!, de 1966, e é considerado um marco por seu experimentalismo e ousadia. Vale a pena lembrar que foi lançado um ano antes do clássico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e certamente trouxe mais inovações estéticas que o álbum dos Fab Four.

A genialidade de Zappa foi se manifestando com mais força a cada disco, e logo ficou óbvio que os Mothers estavam funcionando apenas como uma banda de apoio que tocava as músicas de Zappa. Os créditos dos álbuns deixavam essa relação explícita, passando a ser lançados como Frank Zappa and the Mothers of Invention ou simplesmente Zappa/Mothers. A banda passou por diversas formações.

Zappa é notório por sua imensa produtividade. Para se ter uma idéia, o álbum que será tratado aqui nesta resenha foi lançado em 1974, oito após o debut, e foi o décimo sétimo (!) a ser lançado pelo guitarrista/cantor/compositor. A discografia completa de Zappa, sem contar os discos póstumos, conta com 57 discos em menos de 30 anos de produtividade.

Voltando ao assunto, o último disco que Zappa lançou com os Mothers foi One Size Fits All, de 1975. Mas alguns discos antes deste trazem apenas seu nome na capa. É o caso de Apostrophe ('), lançado em 1974.

Explicar o estilo de Frank Zappa para alguém que nunca o tenha escutado é uma tarefa muito, muito complicada. Sua música é uma mistura de muitas coisas, passando pelo rock and roll, música clássica, humor, doo wop, blues, a famigerada world music, enfim; é um saco de gato. Suas letras são muito bem humoradas, muitas vezes tolas, ofensivas ou simplesmente sem sentido, trazendo críticas à política, religião, estereótipos e costumes, ou simplesmente contando histórias bizarras.

No caso de Apostrophe ('), as primeiras quatro músicas enganam o ouvinte, pois guiam o álbum a um caminho conceitual que acaba não se desenvolvendo além destas faixas. Em Don't Eat The Yellow Snow, a faixa de abertura, Frank conta sobre um sonho que teve no qual era um esquimó chamado Nanook. Sua mãe o alertava para que não comesse a neve amarela que ficava aonde os huskies iam (watch out where the huskies go/and don't you eat that yellow snow), ou seja, a neve onde os cães urinavam. Tudo isso em uma música esquisita, em um tempo quebrado (7/4).

Eis que em Nanook Rubs It, a segunda faixa, Nanook sai de seu iglu e encontra um comerciante de peles matando sua foca preferida com uma bota cheia de chumbo (with a lead-filled snowshoe). Raivoso, Nanook esfrega a neve amarela nos olhos do comerciante, cegando-o. Eis que o comerciante se lembra de uma lenda que dizia que, caso alguém ficasse cego em decorrência de um ataque de alguém chamado Nanook, deveria buscar auxílio na paróquia de Santo Alfonso (St. Alfonzo).

A música seguinte, que começa com um incrível solo de xilofone da percussionista Ruth Underwood, descreve a paróquia de St. Alfonzo, onde ocorre um desjejum com panquecas e um bingo, e também a presença de uma mulher masoquista.

Eis que Zappa descreve o Padre O'Blivion (que pode ser traduzido como "esquecimento"), um padre que é masturbado por um leprechaun e se torna um maníaco sexual. Eis que, no fim da música, uma tentativa intencionalmente frustrada de retomar o início da história aparece, como se o comerciante de peles fosse o próprio Padre O'Blivion (Good morning, your highness/ooo-ooo/I brought you your snowshoes/ooo-ooo...).

A música seguinte é um dos pontos altos não apenas do disco, mas da carreira de Frank. Cosmik Debris é um blues zappiano que conta a história de um charlatão que tenta convencer o protagonista a comprar "sucatas cósmicas", argumentando que elas farão coisas incríveis, inclusive "curar sua asma". No fim, quem acaba sendo enganado é o charlatão. Destaque para as vozes femininas no refrão.

Excentrifugal Forz se trata de uma música pouco expressiva, com uma letra maluca e sem sentido algum. Apostrophe' é uma faixa instrumental com solos de guitarra extremamente distorcidos. Muda pouco de ritmo, mas é uma grande demonstração de habilidade dos músicos da banda.

A belíssima Uncle Remus, com a marcante introdução ao piano de George Duke, traz uma letra bem zappiana que trata, aparentemente, de racismo. "Não posso esperar até que meu black-power esteja grande/(...) irei derrubar os jóqueis de suas selas" (Can't wait till my fro is full grown/(...) I'll be knocking the jockeys off the lawn). A faixa é deslocada do resto do repertório de Zappa, mas é uma música belíssima.

A faixa de encerramento é Stink-Foot, com uma letra sobre chulé e outras coisas das quais dificilmente alguém além de Frank Zappa retrataria em uma música. A percussão aqui é de grande destaque.

Confesso ao leitor que é difícil precisar quem toca o quê em cada faixa devido à enorme quantidade de músicos envolvidos. Os créditos dos músicos são os seguintes:

Frank Zappa - voz, guitarra, baixo e bouzouki
Lynn – voz, backing vocals
Kerry McNabb – backing vocals
Ian Underwood - saxofone
Ruth Underwood - percussão
Sal Marquez – trompete
Sue Glover – backing vocals
Jim Gordon – bateria
Aynsley Dunbar – bateria
Tom Fowler – baixo
Napoleon Murphy Brock – saxofone, backing vocals
Robert “Frog” Camarena – voz, backing vocals
Ruben Ladron de Guevara – voz, backing vocals
Debbie – voz, backing vocals
Tony Duran – guitarra
Erroneous – baixo
Johnny Guerin – bateria
Ralph Humphrey – bateria
Jack Bruce – baixo em “Apostrophe”
George Duke – teclado, backing vocals
Bruce Fowler – trombone
Jean-Luc Ponty – violino

Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. Don't Eat The Yellow Snow
2. Nanook Rubs It
3. St. Alphonzo's Pancake Breakfast
4. Father O'Blivion
5. Cosmik Debris
6. Excentrifugal Forz
7. Apostrophe
8. Uncle Remus
9. Stink-Foot

Abaixo, um vídeo de Cosmik Debris ao vivo em 1974.

sábado, 22 de março de 2008

Artista: Israel Kamakawiwo'ole; Álbum: E Ala E


Artista: Israel Kamakawiwo’ole (Brudda Iz)
Álbum: E Ala E
Ano: 1995
Gênero: Música Havaiana

Depois de dois posts sobre discos de rock, vamos acalmar um pouco nosso espírito, sentar e ouvir Israel Kamakawiwo'ole (esse sobrenome se pronuncia "Kamakavivole") tocar seu ukulele e cantar com sua voz inacreditável.

Israel, também conhecido pelo simpático apelido "Brudda Iz", era um cantor havaiano de quase 1 e 90 de altura e nada menos que 343 kg - ele era morbidamente obeso, e isso causou a sua morte no dia 26 de julho de 1997, aos 38 anos. Além disso, foi um dos músicos havaianos mais influentes de todos os tempos, e sem dúvida o mais famoso fora do Havaí.

O que caracteriza a música de Kamakawiwo'ole como estranha aos nossos ouvidos tão acostumados com as rádios? Diversos fatores. Prá começar, o idioma. Israel cantava em inglês em diversas músicas, mas em muitas outras canta em havaiano. Aliás, ele era defensor ferrenho da independência do Hawaii em relação aos EUA, chegando a gravar o hino da independência do Hawaii como abertura de seu álbum mais famoso (que não é o tratado aqui), Facing Future, foi o único álbum havaiano a atingir disco de platina, vendendo mais de um milhão de cópias. Foi o único civil da história do Havaí a ter luto oficial e bandeira a meio mastro por três dias. Outro motivo: o uso do ukulele, um instrumento que raramente escutamos fora deste estilo musical.

E Ala E foi lançado em 1995, dois anos antes da morte de Iz. Logo na primeira faixa (que dá título ao álbum), ele deixa bem claro a que veio na letra forte que contrasta a melodia suave: We, the warriors, born to live/On what the land and sea can give/Defend our birthright to be free/Give our children liberty (traduzindo: Nós, os guerreiros, nascemos para viver/Naquilo que a terra e o mar podem oferecer/Defendendo nosso direito de nascença de sermos livres/Dando liberdade às nossas crianças). Os sons da multidão ao fundo dão um clima épico à canção, que termina com uma suave cantiga em havaiano.

Após o quase-reggae de Ulili E temos a maravilhosa Kaleohano, extremamente lenta e com um arranjo vocal impecável, inteiramente em havaiano. Eis que o improvável cover de Wind Beneath My Wings, de Bette Midler, rouba a cena mesclado com He Hawai'i Au, e é um dos momentos mais belos de todo o álbum.

A faixa seguinte é uma belíssima homenagem a Chad Haaheo Rowan, Fiumalu Penitani e Saleva'a Fuauli Atisano'e, também conhecidos como Akebono, Musashimaru e Konishiki. São lutadores de sumô nascidos no Havaí e em Samoa e que alcançaram o título de Yokozuna, o maior título possível no esporte. A música se chama Tengoku Kara Kaminari (Thunder From Heaven), e o refrão é simplesmente "Akebono, Musashimaru and Konishiki". Durante a letra, Israel conta a saga desses "gigantes gentis" (apelido do próprio Iz), enfrentando a saudade da família e de casa para se tornarem heróis e ídolos no Japão. Emocionante, para dizer o mínimo.
Outros destaques do disco são a bela Kamalani e a distoante Theme From Gilligan's Island, a versão de Iz para a abertura de um de seus seriados favoritos.

É um ótimo disco, principalmente quando se quer relaxar e se imaginar em uma praia no Havaí.

Recomendadíssimo.

Tracklist:

  1. E Ala Ē
  2. ʻUlili E
  3. Kaleohano
  4. Wind Beneath My Wings / He Hawaiʻi Au
  5. Tengoku Kara Kaminari (Thunder from Heaven)
  6. Kamalani
  7. Aloha Ka Manini
  8. Maui Medley
  9. Hele On To Kauai
  10. Kauai Beauty
  11. Theme from Gilligan's Island
  12. I Ke Alo O Iesu
  13. A Hawaiian Like Me

Abaixo, um clip de E Ala E:

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Banda: Supercordas; Álbum: Seres Verdes Ao Redor: Música Para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos


Banda: Supercordas
Álbum: Seres Verdes Ao Redor: Música Para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos
Ano: 2006
Gênero: Rock Psicodélico

Já que falei tanto de rock psicodélico cambojano no post sobre o debut da Dengue Fever, vamos voltar para uma terra mais próxima, conhecida mundialmente como Rio de Janeiro, na nossa pátria amada, Brasil. O assunto ainda é rock psicodélico, mas a banda da vez é o Supercordas.

O Supercordas tem 5 integrantes: Bonifrate (vocal/guitarra), Valentino (vocal/baixo/guitarra), Kauê (baixo/guitarra/vocal), Giraknob (guitarra) e Wakapot (bateria). Segundo o site oficial, a banda foi congelada nos anos 60 para sair das cápsulas no fim do século XX, retomando o "espírito psicodélico da época em que haviam adormecido". Lançaram seu primeiro álbum (A Pior das Alergias) em 2003, seguido por um EP (Satélites no Bar) de 2005 e o álbum resenhado aqui, entitulado "simplesmente" de Seres Verdes Ao Redor: Música Para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos, de 2006.

O clima psicodélico já fica explícito logo na primeira faixa, E o Sol Brilhou Sobre o Verde. A música é praticamente uma seqüência de harmonias vocais misturada a violões de doze cordas e sintetizadores. Então a faixa dá espaço à primeira música com letra do disco, A Charneca. Os ruídos dos sintetizadores continuam, e o estilo do Supercordas é bem explorado: uma letra bucólica e psicodélica, repleta de harmonias vocais e melodias tristonhas e belíssimas. Ruradélica, a faixa que dá seqüência ao disco, é mais animada e tem um belo refrão, que combina perfeitamente com o tema do disco: "Um caldeirão de folhas me faria mais feliz do que esse rio cheio de bolhas e espumas".

O ponto mais alto do disco é, na minha humilde opinião, 3000 Folhas. A letra surrealista misturada à melodia sessentista e ao vocal repleto de ecos parece saído do disco A Gift From A Flower To A Garden, do Donovan. Arrisco-me a dizer que esta música é uma das melhores do rock brasileiro dos últimos 10 anos. "Pelos rios de cá corre o leite/E à tarde sempre chove mel/Mas meus olhos 'inda são de três mil folhas brancas de papel". Belíssima.

Outro destaque do disco é a ótima Sobre o Frio, com seu toque retrô e clima otimista. Frog Rock e a faixa de encerramento, Fotossíntese ("todo ser é planta artificial"), também merecem atenção especial.

Recomendadíssimo.

Tracklist:
1. E o Sol Brilhou Sobre o Verde
2. A Charneca
3. Ruradélica
4. 3000 Folhas
5. Mofo
6. Sobre o Frio
7. Ricochete
8. Musgo
9. Frog Rock
10. Sobre o Calor
11. Mangue
12. Fotossíntese

Abaixo, Mofo e Sobre o Frio ao vivo: