sexta-feira, 14 de julho de 2006

Banda: Faxed Head; Álbum: Exhumed At Birth


Banda: Faxed Head
Álbum: Exhumed At Birth
Ano: 1997
Gênero: Death Metal; Avant-garde

Ultimamente, a última grande revelação do metal no Brasil foi o Massacration. A banda é uma paródia extremamente bem feita aos clichês do heavy metal, com roupas de couro, voz aguda e músicas com riffs similares. Entretanto, eles estão longe de serem os primeiros a fazer coisa parecida. Temos outras bandas-paródia, como o Brujeria e esta analisada hoje, o Faxed Head.

Quem faz parte do Faxed Head? Segundo o release oficial da banda, a banda teve seu início quando um dos integrantes, na pequena cidade de Coalinga, encontrou alguns CDs de death metal que haviam caído de um caminhão no meio da estrada. Ele mostrou a descoberta para seu círculo de amizades e todos logo ficaram impressionados com as letras sombrias e com o clima macabro das músicas. Com o vício dos garotos em cheirar cola, logo ficaram mal quistos na cidade e fizeram um pacto de suicídio. Um deles roubou uma espingarda do pai e todos foram até as plantações de algodão de Coalinga para realizar o ato. Porém, tudo deu errado e eles sobreviveram - todos aleijados e com problemas mentais. Após anos em clínicas de reabilitação e hospitais, eles resolveram formar uma banda. Os quatro integrantes são: Neck Head (que não tem cabeça e tem o pescoço muito alongado) na guitarra, McPatrick Head (o mais aleijado de todos: teve a pele substituída por tecido xadrez e usa uma cadeira de rodas) no vocal, o baixista obcecado por matemática Graph Head e, originalmente, o baterista Washington DC Head. Entretanto, Graph Head deixou a banda e Washington morreu devido ao vício em batata frita, sendo substituídos por Jigsaw Puzzle Head (que tentou se matar e caiu com o rosto sobre o quebra cabeças que montava, ficando com as peças coladas eternamente) e LaBrea Tar Pit Head (outra vítima de suicídio sem sucesso, tendo ficado parcialmente coberto por piche) respectivamente - e tudo isso em parceria com o mímico Fifth Head nos samples.

É claro que isso não é verdade, e a banda é uma paródia ao death metal que tem como mentores o comediante americano Gregg Turkington (mais conhecido como Neil Hamburger) e o guitarrista Trey Spruance (muito citado neste blog). Não encontrei registros sobre a data oficial de formação, mas o primeiro disco foi lançado em 1995 (Uncomfortable But Free) e o álbum aqui resenhado, o segundo da banda, em 1997 (Exhumed At Birth, ou "exumado ao nascer", referência clara ao "Butchered At Birth" do Cannibal Corpse").

Quem teve acesso ao Gates Of Metal Fried Chicken Of Death, do Massacration, vai entender bem o que vou dizer aqui. O Faxed Head não apenas pega os principais clichês do estilo e os mescla como adiciona inclusive os fillers característicos, ou seja, aquelas faixas que nem sempre são música mas que dão um clima específico para o disco. É uma paródia das mais sérias que podem ser feitas, pois não descaracteriza o objeto. A primeira faixa se chama "I Saw Into The Grave Grave" e é muito semelhante à "Intro" do CD do Massacration. Lenta, com uma voz macabra lendo um texto (infelizmente não consegui entender as palavras). A seguir, o álbum mostra uma seqüência de músicas com riffs muito inteligentes e típicos de death metal, com as tradicionais batidas de bateria e baixo pesado. Porém, várias das músicas contam com a letra "falada" por McPatrick Head com uma voz extremamente demente (afinal, ele sobreviveu a um tiro de espingarda e é um ex-usuário de cola de sapateiro).

As letras são um espetáculo a parte. Ao ler o título "Gore and Guts", algum mais desavisado esperaria uma letra típica de death metal, visto que "gore" é sangue coagulado e "gut" é tripa. Porém, é uma música sobre Al Gore e sua capacidade - também é "gut" em inglês, um equivalente a "ter estômago para" - como governante.

Temos momentos bem interessantes no álbum, como a faixa "House Of Spirits". Inteira tocada no teclado e com um clima medievalesco, é viciante. Aliás, muitos riffs bons estão presentes ao decorrer do álbum. Destaque para "Gore and Guts", "House Of Spirits", "Don't Turn Out Like Me" e "A Dream".

Recomendado para fãs de death metal com bom humor.

Tracklist:
1. I Saw into the Grave Grave
2. Teachers Cohen
3. Exhumed at Birth
4. Gore and Guts
5. House of Spirits
6. The Ancient Evil
7. Susurrus in Gloaming
8. Don't Turn Out Like Me
9. The Sickroom of Delivery
10. Coud Eckankar Help?
11. A Dream
12. Peregrinations from Beyond

13. The Blackened Coffin

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Banda: Secret Chiefs 3; Álbum: Book Of Horizons


Artista: Secret Chiefs 3
Álbum: Book of Horizons
Ano: 2004
Gênero: Avant-garde

Há algum tempo, postei uma resenha do álbum Book M, também do Secret Chiefs 3. Destaquei que se tratava, basicamente, de uma mistura de música oriental com música eletrônica. Pois bem, em Book Of Horizons, o que vemos é uma banda totalmente diferente. Aliás, uma não: seis.

Já deixei claro no outro review que o gênio por trás desta banda é Trey Spruance, o multi instrumentista que já tocou no Mr. Bungle. E desta vez, ele desdobra o Secret Chiefs 3 em seis bandas muito distintas entre si, que poderiam facilmente lançar álbuns paralelos. Mantendo as proporções, seria mais ou menos um livro de Fernando Pessoa contendo poemas de seus melhores heterônimos. São estas as bandas que tocam em Book Of Horizons (por ordem de participação):

Forms é composta pelos seguintes músicos: William Winant, Timb Harris, Jennifer Cass, Jesse Greere, Trey Spruance e convidados. Toca três músicas no álbum e apresenta uma mistura de música indiana com música cinematográfica. É a banda que abre e fecha o CD, tendo um papel muito importante dentro do álbum. As faixas são muito elaboradas e interligadas, embora apresentem humores muito variados. The End Times, faixa que abre o CD, é extremamente triste e lenta; Welcome to the Theatron Animatronique, faixa que encerra o álbum, é uma marcha empolgante com diversas vozes, com um clima totalmente diferente da faixa de abertura. Entretanto, ambas tem melodias em comum. A outra faixa tocada pela banda, The Owl In Daylight, é uma fantástica progressão rítmica. A música adquire uma forma impressionante, conseguindo um preenchimento sonoro incrível com diversos instrumentos.

Ishraqiyun é formada por Shahzad Ismaily, Eyvind Kang, Rich Doucette, Danny Heifetz, Trey Spruance e convidados. Esta banda colabora com duas músicas no álbum e é muito influenciada por música afegã e música experimental. Embora o resultado dessa mistura seja muito mais pendente para o lado da música afegã, é impossível não se surpreender com a complexidade das composições: belas melodias repletas de compassos irregulares.

Traditionalists tem como único integrante fixo Trey Spruance - os demais são convidados. Colabora com três faixas no álbum. O estilo desta banda é bem interessante, pois ela monta uma paisagem sonora; ao ouvir, é difícil não imaginar aquelas cenas de filme onde uma paisagem flutua por vários segundos ou, no caso de The Electrotheonic Grail Dove, um take em um dojo. Embora eu considere The Indestructible Drop um filler, The Exile é impecável. Triste, poética - linda de morrer, com o perdão da expressão brega.

The Holy Vehm é formada por Unhuman, John Merriman, Jesse Quattro, Jessica Kinney e The Enemy. É a que mais contrasta com as demais, pois suas duas músicas são death metal do mais pesado possível misturado com elementos de música oriental. Os vocais guturais são impressionantes, tanto o grave quanto o agudo. O interessante dessa banda é que, mesmo nos momentos mais pesados, o lado progressivo não fica de lado: mais quebras inesperadas estão aqui. É de deixar muitas bandas de death metal no chinelo.

The Electromagnetic Azoth é formada por Shahzad Ismaily, William Winant, Ches Smith, Jennifer Cass, Trey Spruance e convidados. É, de todas, a que mais se assemelha ao trabalho de Spruance com o Mr. Bungle. Em ambas as músicas ocorrem mudanças rítmicas bruscas, experimentalismo, bom humor e criatividade imensa. Em On The Wings Of The Haoma, por exemplo, temos a impressão de estar flutuando por fragmentos de diversas músicas ligadas por um fio invisível, da maneira mais positiva possível. A outra faixa, DJ Revisionist, é como se Ishraqiyun tivesse colaborado com uma faixa para o Disco Volante do Mr. Bungle. Música dinâmica e muito bem executada com toda uma característica oriental.

Ur, a sexta banda do disco, é formada por Timb Harris, Jesse Greere, Tim Smolens, Trey Spruance e convidados. É a mais americanizada de todas, apresentando faixas com diversos elementos ocidentais. Book T - Exodus, releitura de Ernest Gold, poderia facilmente ser a trilha sonora de um filme épico hollywoodiano. Anthropomophosis: Boxleitner, por sua vez, começa com um clima todo sombrio repleto de guitarras e teclados. Então, inesperadamente, dá lugar a um pop cheio de sintetizadores, e o resto é só ouvir para acreditar.

Enfim, creio que esta é a melhor maneira de se fazer um review deste incrível álbum: seis bandas e uma obra prima. É mais que recomendado: é obrigatório. E eis o tracklist:

1. Forms - The End Times
2. Ishraqiyun - The 4 (Great Ishraqi Sun)
3. Traditionalists - The Indestructible Drop
4. The Holy Vehm - Exterminating Angel
5. Forms - The Owl In Daylight
6. Traditionalists - The Exile
7. The Electromagnetic Azoth - On The Wings Of The Haoma
8. Ur - Book T - Exodus
9. The Holy Vehm - Hypostasis Of The Archons
10. Traditionalists - The Electrotheonic Grail Dove
11. Ishraqiyun - The 3
12. The Electromagnetic Azoth - DJ Revisionist
13. Ur - Antropomorphosis: Boxleitner
14. Forms - Welcome To The Theatron Animatronique

Eis uma performance da música The 4 pela banda Ishraqiyun:

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Banda: Ministry; Álbum: ΚΕΦΑΛΗΞΘ (ou Psalm 69: The Way To Succeed and The Way To Suck Eggs)


Artista: Ministry
Álbum: ΚΕΦΑΛΗΞΘ (ou Psalm 69: The Way To Succeed and The Way To Suck Eggs)
Ano: 1992
Gênero: Metal Industrial

O Ministry foi uma das bandas pioneiras no metal industrial. Fundada em 1981 pelo cubano Al Jourgensen, lançou seu primeiro álbum em 1983 - No Sympathy - e, com o passar dos anos, mudou completamente de estilo, da água pro vinho, do synthpop para o metal industrial.

É difícil falar sobre a importância do Ministry para as variantes do Heavy Metal tradicional que viriam a surgir mais pra frente, mas basta dizer que, sem Ministry, bandas como Nine Inch Nails, Rammstein e até Slipknot não existiriam. Trent Reznor já se declarou um grande fã do trabalho de Jourgensen, o Rammstein tem uma influência plenamente perceptível e Joey Jordison, baterista do Slipknot, definiu o álbum Vol. 3: The Subliminal Verses como uma mistura de Ministry e Slayer.

Lançado em 1992, o álbum ΚΕΦΑΛΗΞΘ (pronuncia-se "kefali", "cabeça" em grego), mais conhecido como Psalm 69: The Way To Succeed and The Way To Suck Eggs ou simplesmente Psalm 69, carrega no próprio título diversos significados. ΚΕΦΑΛΗΞΘ, "cabeça" em português, traduz-se como "head" em inglês, e isso é uma gíria para sexo oral. Além disso, o título "Psalm 69: The Way To Succeed And The Way To Suck Eggs" é diretamente ligado ao "Livro das Mentiras" de Aleister Crowley, cujo capítulo 69 contém a frase "the way to succeed or the way to suck eggs" relacionada à posição sexual 69. A frase é traduzida como "a maneira para o sucesso ou a maneira para chupar ovos", mas em inglês existe um trocadilho, pois "succeed" tem o mesmo som de "suck seed", "chupar semente". Além de tudo isso, Psalm significa "salmo" - uma referência à bíblia. Assim, o título se refere ao sagrado e ao profano, à Deus e ao lado mais sexual dos humanos.

A primeira música resume bastante o espírito do disco. N.W.O. é repleta de samples de George H. W. Bush, o Bush-Pai, como crítica à guerra do Golfo e à recém-acabada guerra fria (N.W.O. é a sigla para new world order, ou seja, nova ordem mundial), e essa crítica se repete em diversos momentos do álbum. Mas o tema principal é o sexo e a anti-religiosidade. Just One Fix ("apenas uma injetada") é a segunda música edo álbum e traz uma das principais características da banda: o uso muito bem mensurado de elementos eletrônicos. TV II é raivosa, com riffs típicos de thrash metal junto com tempos extremamente quebrados e berros nervosos.

Os principais pontos altos, além dos já citados, são Jesus Built My Hotrod e a faixa título Psalm 69.

Imagine uma mistura de surf music com um metal industrial frenético; essa é Jesus Built My Hotrod. Repleta de vocalizações (como "ding a ding dang my dang a long ling long" e "bing bing bang a bang bang bing bong"), a música é um rockabilly do século XXI, mesmo tendo sido lançada nos anos 90.

Psalm 69 tem um tom muito diferente. Repleta de samples relacionados a religião, a música cria um clima totalmente macabro, com gemidos de "Liar! Blasphemer!" (Mentiroso! Blasfemador!), "praise Jesus" e guitarras pesadas. Além disso, em momentos ela é rompida por um thrash metal extremamente pesado, cheio de referências ao cristianismo.

A parte instrumental do álbum é extremamente bem feita. O equilíbrio entre música eletrônica e rock pesado é perfeito, e os vocais semi-guturais de Jourgensen caem como uma luva nas composições. É, sem dúvida, um dos maiores clássicos de todos os tempos do metal industrial.

Tracklist:
1. N.W.O.
2. Just One Fix
3. TV II
4. Hero
5. Jesus Built My Hotrod
6. Scare Crow
7. Psalm 69
8. Corrosion
9. Grace